No chão, ao lado da cama, somente de cueca. Sangue envelhecido e várias latinhas de cervejas ao redor. Esse foi o cenário onde o corpo do bioquímico aposentado, José Maria dos Santos Lopes, 66, foi encontrado na manhã de ontem no bairro do Reduto, em Belém. O mau cheiro forte do corpo do homem incomodou a vizinhança do pensionato, somente assim, seu Zé Maria, como era chamado, foi achado depois da última noite boêmia que foi visto. Segundo as primeiras informações da perícia feita ainda no local do crime, ele foi vítima de estrangulamento no último domingo. A polícia não descarta a hipótese de um latrocínio.
Logo cedo, uma vizinha próxima ao quarto de número 2, onde Zé morava há seis anos, sentiu um mau cheiro muito forte. A mulher chegou a pensar que era lixo que não havia sido colocado para fora, mas percebeu que o fedor vinha do pequeno quarto do idoso. Somente com uma segunda chave que apenas o dono da pensão, de prenome “Fernando”, como quis ser identificado, que conseguiram entrar no único compartimento em que o homem vivia definitivamente, após a morte da esposa.
Segundo informações dos vizinhos que conviviam com o idoso e também moravam no prédio antigo, construído há mais de três décadas atrás, Zé era uma pessoa muito boa, tranquilo e rápido fazia amizades, logo de cara, já considerava amigo. Mas de acordo com depoimentos colhidos pela reportagem, como ninguém é perfeito, o maior problema do idoso era o álcool e isso, talvez tenha sido um dos motivos que facilitou a aproximação do assassino. “O único defeito do Zé Maria, era que ele não podia tomar duas cervejas que ficava dizendo para quem tivesse perto, que ele tinha os bens, dinheiro e salário. A vida dele era um livro aberto para quem conhecia. Quando ele recebia no começo do mês, ficava com todo o dinheiro, o ‘ bolo’ no bolso. Quem se aproximava dele, logo fazia amizades e pagava cerveja. Mesmo porre, ele não mexia com ninguém, respeitava todo mundo”, comentou uma vizinha que preferiu não ser identificada.
O dono da pensão, disse que teria visto Zé pela última vez, como de praxe, bebendo em uma roda de amigos em um posto de conveniência em frente à pensão, na rua Gaspar Vianna, esquina da rua Benjamim Constant. “Ele era uma boa pessoa, pagava o aluguel em dia. Nunca tive problema com ele. Mas ele gostava de beber. Inclusive a última vez que eu o vi, foi no domingo na companhia de algumas pessoas lá no posto, cerca de três ou quatro, por volta das 12h, não as conheço. Ainda disse para ele ir logo embora”, revelou Fernando.
Vários parentes pareciam estar inconformados pela morte do idoso. O momento mais triste para os familiares foi a retirada do corpo do homem pela equipe do Instituto Médico Legal (IML).
LATROCÍNIO
Mesmo sem muitas informações do autor do crime, as primeiras suspeitas reveladas pela vizinhança que a Polícia Militar, investigadores da Seccional Urbana do Comércio e da Divisão de Homicídios, puderam colher no local, foi que uma geladeira, que ficava do lado de fora do quarto da vítima e seria coletiva para atender todos os outros três alugueis, foi roubada, assim como uma televisão que o bioquímico aposentado possuía dentro do quarto. Também foi roubada sua carteira.
Nas primeiras constatações dos peritos, o aposentado teria sido vítima de um estrangulamento, já que a sua língua estava para fora. Porém somente o laudo pericial do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves, poderá revelar de fato, como o idoso foi morto. O caso foi registrado pelo irmão da vítima, na Seccional Urbana do Comércio. Policiais militares do 2º Batalhão atenderam a ocorrência.
SUSPEITO
Um dos moradores do prédio ao lado onde o idoso morava, revelou à reportagem que um homem, conhecido como Wilson, também inquilino daquela pensão e que também costumava conversar com José, seria um dos principais suspeitos pelo crime. “É muito estranho. Logo cedo, antes de descobrirmos que o Zé estava morto, escutamos o chuveiro aberto do quarto do Wilson. Mas ninguém o viu. Quando o quarto dele foi aberto, não havia nada dentro, estava tudo ‘limpo’. Por que ele iria fugir, ir embora sem deixar rastro logo hoje?”, questionou. “Moreno, alto, aproximadamente 35 anos, bem aparentado e muito calado. Não tenho nada contra ele, mas um dia eu vi na televisão uma reportagem em que ele aparecia preso por estelionato. Até perguntei pra ele o que tinha acontecido e ele me disse que foi um problema, mas que havia pagado fiança e já ‘tava’ tudo resolvido. Pra mim, Wilson pode ser sim, o assassino que matou o meu amigo”, acrescentou a mulher que não parava de lembrar os momentos bons que passou na companhia do aposentado. “Poxa, perdemos nosso vizinho”, lamentava.
BOEMIA
Zé Maria, como era mais conhecido, possuía três filhos e estava viúvo há poucos anos, mas já residia eventualmente naquela pensão enquanto a companheira era viva. “Ele queria ter liberdade. Depois que a esposa dele morreu, passou a residir na pensão. Todos eram graduados e de classe média alta. Como gostava de beber todo dia, considerado como alcoólatra, a família, filhos e irmãos, até a mãe dele, que é viva com mais de 90 anos, pegavam no pé dele. Reclamavam pela rotina de bebida que ele levava. Por conta disso, ele reclamava de algumas dores no estômago”, relatou a vizinha. Mesmo não morando com a família, os parentes sempre foram muito presentes na vida de José Maria.
As várias latinhas de cervejas encontradas ao redor do corpo do aposentado, segundo a polícia, dão indícios que ele passou a noite do último domingo bebendo. Inclusive a janela na parte de cima aberta do quarto do aposentado que direcionava para a rua, mostrava uma garrafa de bebida alcoólica que Zé, provavelmente, esvaziou e a deixou em uma das noites.
(Diário do Pará)
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