“Eu já vi crimes e pessoas mortas outras vezes. É bastante normal essas coisas acontecerem aqui perto de casa”, disse um garoto de 11 anos enquanto observava, sentado na calçada da própria casa e na companhia dos irmãos e dos pais, um jovem morto com seis tiros, em uma madrugada da última semana. No entorno de um local de crime, normalmente uma multidão se reúne como se fosse assistir ao final de um jogo da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo, mas nesse palco não tem grito de gol nem celebração de uma festa. A “atração” em disputa para encontrar o melhor lugar é para ver um cadáver.
Além do povo, os profissionais da imprensa, policiais militares, policiais civis da Divisão de Homicídios e peritos criminais do Instituto de Criminalística Renato Chaves, é muito comum constatar a presença de crianças. Seja pela manhã, tarde, noite ou até mesmo de madrugada, elas estão lá, observando e matando a curiosidade mórbida.
Elas ficam no meio dos curiosos, em cima de muros, sacadas de residências, pelas janelas, outras com pipo na boca, com brinquedos, sentadas nas calçadas, no chão, ou até mesmo no colo da mãe ou do pai. Os pais, responsáveis por eles, muitas vezes não conseguem evitar que elas presenciem a violência ou simplesmente nem tentam impedir.
Em um recente homicídio no bairro do Icuí-Guajará, em Ananindeua, ocorrido pela madrugada, a autônoma Antônia Menezes (nome fictício), mãe de um casal de filhos, morava bem em frente onde um homem foi assassinado a tiros. O filho de dez anos, curioso, não tirava os olhos do corpo da vítima. A mãe diz que infelizmente não pode evitar, pois o próprio filho quer ver.
“Nós mães, não queremos que os nossos filhos vejam estas cenas de violência, mas eles querem ver a todo custo. Não adianta a gente fazer nada. Eu sou contra crianças ficarem observando porque, mesmo ainda sendo pequenas, elas ficam com esta imagem sobre a vida, não é mesmo?!”, disse.
Também em um local de crime, mas diferente do caso acima, no bairro do Jurunas, a dona de casa Andréa da Silva (nome fictício) é contra a presença dos filhos em situações como esta.
“Eu não deixo de maneira alguma. As crianças não podem ver situações de violência. Eu o deixei em casa com a avó. Ele queria olhar, mas não deixei de jeito nenhum. Já basta como as coisas estão hoje. A violência na televisão, nos jornais, nas ruas e perto da nossa casa”, disse.
REUNIÃO DE FAMÍLIA
Em um homicídio no bairro do Telégrafo, pai, mãe e os quatro filhos, um deles de colo, observavam no início da madrugada o corpo de um adolescente morto em frente à casa deles. O pai, o pedreiro Antônio Miranda (nome fictício), falou que um dos filhos viu tudo o que aconteceu e reprova a atitude do filho - observar o morto -, mas também, segundo ele, impedir não faria diferença.
“Ele que viu tudo. Ele estava em cima da laje da casa quando mataram o rapaz. Eu acho ruim ele ver esse tipo de coisa, mas o que a gente pode fazer? Não é a primeira vez que ele vê esse tipo de coisa por aqui. Não adianta a gente impedir porque a violência está em quase todo lugar”, declarou.
O filho dele, de onze anos, contou que não é a primeira vez e que observa um local de homicídio. “Eu já vi outras vezes por aqui. É normal essas coisas acontecerem perto de casa. Este aqui (apontando para a vítima estirada no chão) eu conhecia, mas os outros, não. Não acho normal ficar olhando, nem gosto. Outras vezes eu já sonhei com essas coisas à noite, mas não tenho medo”, declarou o pequeno curioso.
BANALIZAÇÃO DEVE SER EVITADA
A delegada Cláudia Guedes, pertencente à Divisão de Homicídios, é totalmente contra a presença de crianças em local de crime. “Eu sou totalmente contra. É totalmente inadequado, tanto pela contaminação de bactérias do cadáver quanto pelo trauma que a criança pode ter ao ver situações como esta”, disse.
Além disso, a delegada falou que a criança não deve crescer com a imagem de que a violência seria algo normal. “Existe uma banalização da violência e que deveria ser evitada pelos pais destas crianças. A violência não deve ser vista como algo normal. As crianças que ficam observando os mortos em locais de crime podem crescer com a imagem de que isto é algo natural, por isso deve ser evitada a presença delas”, finalizou.
REFLEXO DA VIOLÊNCIA
A psicóloga Célia Amaral explicou que a morte atrai as pessoas e muitas vezes a curiosidade é oriunda de um reflexo da violência no qual elas convivem.
“Todo ser humano tem essa curiosidade dentro de si. Em situações de crime, brigas, assaltos que acontecem na rua, muitas pessoas, adultas ou crianças, tendem a parar, olhar e emitir ou falar qualquer opinião a respeito do acontecido.
É impressionante como a morte atrai as pessoas”, disse.
A especialista esclarece que a criança motivada a observar situações de violência pode ser uma transferência da agressividade dos pais ou de pessoas próximas a elas.
“Uma das possíveis explicações psicológicas de nos interessarmos por esses temas é justamente porque podemos estar transferimos nossa própria agressividade e violência para estes conteúdos. Com relação às crianças, naturalmente muitas são os próprios reflexos de seus pais ou pessoas que convivem com ela”, disse.
CONSEQUÊNCIAS
Segundo ela, a criança que presencia um crime pode sofrer consequências psicológicas graves e das mais variadas, que poderão ser perceptíveis no futuro.
“A criança é vulnerável e frágil. Portanto, presenciar um crime pode trazer graves consequências morais e psicológicas que podem influenciar na construção da sua personalidade, tais como: ficar gravada na mente da criança todos esses acontecimentos e fazer que haja um “embotamento afetivo”; ou seja, se caracteriza pelo fato de a pessoa não apresentar expressão facial em seu rosto, praticamente mostrando-se imóvel e sem resposta, com pouco contato visual e linguagem corporal reduzida”, finalizou.
(Diário do Pará)
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