“Vim sozinho e Deus”, dizia com bom humor Edgar Nery da Silva, 63 anos. O bom humor não foi suficiente para permitir que votasse.
Cadeirante e pesando muito mais de 100 quilos, Nery teve a surpresa de ver que o local de votação havia mudado. Em vez da sala anterior descobriu que teria de subir dois lances de escada para exercer a cidadania. “Nem que eu quisesse dava. São cento e poucos quilos, eu já sei como é isso”, disse.
Nery teve de preencher um formulário que, além de servir como justificativa para a não votação, poderia mudar novamente a sala de votação em uma próxima eleição. “Podiam ter resolvido isso antes”, conformou-se. “Tem que ser assim. Se não fizer, não vota. Espero que o próximo prefeito veja essas coisas”.
Para quem tem dificuldades de locomoção ou outro problema semelhante a vida em Belém nunca facilitou. Votar é apenas mais um degrau na dificuldade de viver em uma cidade que não foi planejada para quem tem algum tipo de deficiência física.
Jaime Figueiredo, 52 anos, sentiu isso na pele. Precisava votar em uma escola no bairro do Telégrafo. Chegou por volta de 10 horas, acompanhado de familiares que o ajudavam nos passos lentos. Figueiredo sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) oito anos atrás.
Imaginava que votaria no térreo da escola. Foi surpreendido com a informação que teria de subir dois andares de escada para votar.
“Era aqui no primeiro andar”, reclamava. Depois de hesitar, subiu vagarosamente as escadas até poder votar no candidato escolhido. “Muita dificuldade, não facilitam a nossa vida, mas tem de votar. Que o novo prefeito cumpra as mudanças prometidas”.
AMPARO
A dificuldade de andar normalmente fazia com que Helena Costa fosse amparada por Carmen Santiago. As duas senhoras votaram na escola de teatro da UFPA, próximo a Visconde (Doca) de Souza Franco. “A gente espera que o prefeito eleito atenda às necessidades prioritárias que a cidade precisa. Resolva o problema do saneamento e da água”, disse Carmen Santiago depois de votar. “Que melhore a situação para quem tem mais idade”, complementou Helena Costa.
“Vamos dar uma folga para esse que tá aí”, dizia Natalino Marinho, apoiada em uma ‘muleta canadense’ descendo com dificuldades uma escadaria. “Cheguei cedo para votar. Espero que o prefeito que ganhar dê uma melhorada na cidade. Belém tá precisando”.
Marina Chaves, 20 anos, acordou cedo. Desde os dezesseis anos faz questão de votar. Vestiu uma camisa “bandeira do Pará” e andou alguns quarteirões. “A camisa com a bandeira é pra simbolizar a importância do dia”, explicou. Marina sabe o que espera e o que quer do novo prefeito. “Que ele melhore a educação, a saúde e o transporte da cidade. Pelo menos isso”.
(Diário do Pará)
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