Cinco crianças. Uma única família. Apenas um suspeito. O crime de violência sexual invadiu e marcou cinco histórias de vida no município de Benevides, Região metropolitana de Belém. Durante anos, elas sofreram caladas e hoje, o sofrimento do passado provocado pelos abusos, uniu os cinco relatos que, desvendados, apontam para uma única pessoa: o próprio tio.
Seis anos. Uma idade aparentemente escolhida a dedo pelo acusado. Era essa idade que Ana (nome fictício), a primeira vítima, tinha quando teria sido supostamente abusada pela primeira vez pelo tio, João (nome fictício), na época casado com uma das tias de Ana com quem possui dois filhos.
Com um relacionamento um pouco conturbado entre o atual namorado e a mãe, Ana, 18, em um momento de desespero ao discutir com a genitora, contou sobre a violência sexual que sofreu por várias vezes na infância. Motivo pelo qual ela afirma ter hoje, alguns distúrbios emocionais e psicológicos.
“Ela teve uma séria discussão com a mãe e, foi nessa hora, que disse: ‘Você não sabe nada da minha vida. Não sabe o que eu já sofri. Sabia que eu já fui abusada quando criança? Nossa família é de aparência’, e contou tudo que tinha acontecido”,diz uma tia que também teve a filha violentada.
Festas de finais de ano e aniversários na família, eram ocasiões propícias para ele agir. Até mesmo as horas vagas do almoço, o acusado aproveitava para praticar o crime. Isso é o que conta a maioria dos relatos das vítimas. “Quando tinha festas em família, as crianças sempre dormiam mais cedo, antes de terminar. Ela me contou que enquanto dormia, sentia alguém passando a mão nela.
Assim que acordava, via ele de costas, saindo do quarto”, conta Joana (nome fictício), mãe da vítima mais nova, hoje com 9 anos. Segundo ela, os abusos teriam começado quando a filha também tinha 6 anos, pois na época a menina teve uma infecção urinária e teria afirmando à mãe que os abusos já haviam começado quando teve a complicação. O acusado ainda é padrinho da menina.
Outro momento era enquanto algumas das meninas saiam da escola e aguardavam a avó materna buscá-las na casa desse tio. Segundo depoimento dos familiares ao DIÁRIO, as meninas ficavam na companhia do homem e dos primos, filhos dele com uma tia.
“Ele aproveitava àquela hora, mandava os filhos comprar alguma coisa na esquina e ficava a sós com as crianças. E era nessa hora que ele abusava delas também”,revela uma tia.
Assim que Ana contou à mãe sobre a violência, escondida durante doze anos em sua memória, todos da família passaram a desconfiar de outras meninas, possivelmente também vítimas.
O medo e a vergonha que forçavam as meninas a manter segredo foram deixados de lado. Segundo elas, o acusado sempre as ameaçava. Durante uma semana, as cinco vítimas, entre irmãs e primas, nas idades de 18, 15, 11 e 9 anos, revelaram, uma por uma, vários dos momentos da violência sexual. “Ele tirava a roupa dela. Ficava se esfregando nas partes íntimas. Colocava em posições como de uma relação sexual entre dois adultos. Foi horrível ouvir ela contar. A minha princesinha...”,desabafa e chora uma das mães ao lembrar do relato da filha.
“Uma semana intensa, de grandes revelações e muita tristeza. Era choradeira para todos os lados. Nunca ninguém imaginava que uma coisa dessas aconteceu dentro da nossa família”, conta um membro daquela família.
Logo que soube das acusações, o homem negou diante dos familiares. Ele teria saído de casa e a esposa teria dito à ele, segundo familiares, que deveria pagar pelo crime cometido.
A equipe de reportagem tentou contatar o acusado, mas não obteve sucesso. Entretanto, em depoimento prestado na Unidade Integrada de Polícia de Benevides, onde o caso foi registrado, o homem diz que “tudo foi tramado para forçá-lo a sair de casa, uma vez que seu casamento estava falido, pois mantinha uma relação extra-conjugal, que há muito vinha tentando se separar e já havia pedido à mulher que vendesse o imóvel, o dinheiro fosse dividido entre o casal, para que começasse uma nova vida. Contudo a esposa negava a aceitar e ele também se negava sair de casa sem que a partilha dos bens fosse feita. As acusações não são verdadeiras, pois sequer tinha tempo de ficar em casa e até o almoço se dava no trabalho. Após o surgimento desses boatos, a esposa e os irmãos dela o colocaram para fora de casa somente com a roupa do corpo”. Segundo a polícia, a prisão preventiva do acusado já foi solicitada à justiça ainda no mês passado.
(Diário do Pará)
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