É uma guerra. Pode não ser declarada, pode ser encoberta, minimizada ou disfarçada, mas pelo menos nos últimos dez anos a Região Metropolitana de Belém vive um estado de guerra. Tornou-se comum nos últimos anos, municípios que fazem parte da RMB encabeçarem listas de mais violentos do país, seja qual for o órgão ou instituição que realize a pesquisa. A mais recente, divulgada pelo IBGE durante a semana, novamente pôs o Estado no centro das atenções, em índices de homicídios. Os jovens e os negros protagonizam as estatísticas. Mas há um componente que costuma unir a maior parte dos crimes. O tráfico de drogas.
Um levantamento divulgado no final de agosto pelo grupo UN de Notícias dava conta que quase metade dos assassinatos cometidos nos grandes centros urbanos paraenses são provocados pelo tráfico. Segundo a agência de notícias, 46,21% dos assassinatos no Pará tinham essa motivação direta ou indireta.
Há uma cara para essas mortes. São, em grande parte, jovens da periferia entre 15 e 25 anos, de baixa escolaridade. Muitos são negros. Morrem de bala ou vício, como na canção de Caetano Veloso. Falar em epidemia não seria um exagero. Para além de ser um caso de polícia, é também um caso de saúde. “Na verdade, este tipo de análise pode reforçar visões segregacionistas. Afirmar que quem mata ou morre é dependente químico e reside em periferia esconde quem financia a droga, importa, exporta ou produz, mantendo um ciclo de destruição humana. Além disso, a droga aumenta a possibilidade de roubo e de homicídios. Permite a exposição à situações de perigo e violência, potencializando condições de conflito, em virtude da perda de valores morais. “A pessoa pode cometer crimes, se ela estiver em um estado de dependência profunda, que jamais faria estando sóbria”, avalia a psicóloga Izabel Cristina Borges.
Jovens estão morrendo cada vez mais cedo
Segundo ela, a questão é mais profunda. “Se a relação entre violência e drogas é um fato, a complexa sociedade atual, seja no âmbito estatal ou civil, engendra relações que perpassam diferentes instituições: a família, que muitas vezes já se constitui de maneira desestruturada, que chega a abandonar seus filhos à própria sorte; a escola, que não consegue cumprir sua função social de formar cidadãos e o Estado que desenvolve políticas sociais, culturais e de lazer que não alcançam todas as classes sociais”, diz.
O governo do estado reagiu aos índices do IBGE. Chamou a imprensa e disse que eram dados defasados, ainda de 2009. O cenário estaria mudado. Ou, pelo menos, em transformação. Mas dados e números não sublimam o fato de que há jovens morrendo. Cada vez mais cedo. Cada vez de forma mais violenta.
No final de semana passado, o ex-presidiário Cláudio Cruz (nome fictício), 25 anos, foi executado na madrugada no bairro da Terra Firme, atingido por seis tiros de pistola na cabeça, logo depois de sair de uma festa. O homem branco e alto que o alvejou não foi identificado. A Polícia Civil diz que havia uma situação mal resolvida de Moraes com o tráfico de drogas. Na Terra Firme, a maioria dos assassinatos tem a droga como motivação. O Diário já havia mostrado isso na série de reportagens ‘Territórios da Violência’, no início do ano.
O envolvimento com as drogas pesadas vai desfazendo os laços familiares. É um tecido fino que vai sendo esgarçado pouco a pouco. Em dezembro de 2006, Cleber (nome fictício) aos 16 anos, concluía o ensino médio em uma escola pública na Cidade Nova. Sonhava ser médico.
A família pobre compartilhava o sonho. Um ano depois, o pai de Cléber sofreu um infarto e morreu. Cléber não passou no vestibular. Seis anos depois, Cléber é viciado em crack, depois de ter passado pela cocaína. O irmão mais novo seguiu o mesmo caminho por um tempo, mas agora, com 19 anos, voltou a estudar. Frequenta uma igreja evangélica. Aos 22 anos, Cléber nem de longe lembra o adolescente que gostava de jogar vôlei, namorar e estudar. “Eu passo dias sem saber onde ele está. Meu Deus, não desejo isso pra nenhuma mãe. Ele já roubou até minha vizinha pra comprar crack. Eu vivo envergonhada. Nenhuma mãe merece isso”, afirma a mãe de Cléber.
Tráfico está na rotina dos bairros
Em uma passagem no bairro do Entroncamento, a mãe de Mauro, 18 anos, vive situação semelhante. O filho ajudava a mãe a sobreviver, vendendo sacolas na feira. Foi lá também que ele começou a consumir crack. Passou a roubar celulares e carteiras, até ser preso aos 16 anos, depois de assaltar uma mulher na feira. Passou oito meses no Centro de Recuperação de Adolescentes. Saiu depois que a mãe se comprometeu a levá-lo para tratamento de desintoxicação. Em vão. Aos 18 anos, Mauro pesa apenas 52 quilos. Vinte quilos a menos do que pesava antes. Dorme a manhã inteira e de noite perambula pelas ruas do Entroncamento atrás de crack. A mãe chora o destino do filho. “Tem dias que acho que não vou aguentar tanto sofrimento. Eu não suporto ver meu filho morrendo, chegar em casa tão drogado que eu já prefiro nem ver mais. Ele entra pelos fundos pra evitar me ver também”.
Cléber e Mauro deterioram-se lentamente. Levam com eles a paz familiar. Mas há os que são alcançados pela violência de forma mais dura. Rápida. Em abril um adolescente de 15 anos foi executado por dois homens na Invasão Cajueirinho, bairro da Guanabara. A polícia relatou que o adolescente era usuário de drogas. O rapaz teve a cabeça esmagada por uma pedra. Era madrugada. Quem ainda estava acordado viu o adolescente aos gritos fugindo dos perseguidores. Janelas foram fechadas. Olhos cerraram-se, bocas emudeceram. A polícia concluiu que era dívida de tráfico.
“Eu sempre tentava ajudar. Oferecia emprego, serviços dentro da minha casa, mas ele não tinha jeito e acabou morrendo assim. Tinha uma vida inteira pela frente”, disse um conhecido do adolescente, ao ver o corpo estendido no chão.
JF começou a traficar quando tinha 15 anos. É capaz até de filosofar sobre isso. “Nessa vida é tudo muito rápido, quando a gente vê já usou de tudo. E de viciados passamos a viciar os outros”, diz. Quase 15 anos depois, JF pode se considerar um sobrevivente. Até agora. Já contabiliza duas passagens pela polícia, quatro tentativas de homicídios e inúmeras ameaças de morte. Tudo para conseguir o controle da venda de drogas na Sacramenta. “Foi minha escolha de vida. São madrugadas em claro, até com medo da morte, já que os clientes nunca vão me defender de nada, eles só me sustentam”
(Diário do Pará)
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