A cena chocou quem colocou o olho pela brecha de janelas, quem ficou parado na calçada ou quem acompanhava o cortejo fúnebre. Um adolescente de 13 anos, assassinado a facadas, foi carregado como um bicho morto, com os pés e mãos amarrados com pedaços de pano em um tronco de árvore e conduzido no ombro de dois homens até a porta da sala de necropsia do prédio do Centro de Perícia Científicas Renato Chaves.
Desaparecido desde a tarde da última quarta-feira (30), o corpo dele foi achado na madrugada de ontem com várias perfurações de faca, dentro de uma mata de difícil acesso e sem iluminação, localizada na rua do Canal da Margem Esquerda, conhecida como área do Pantanal, bairro do Mangueirão, em Belém.
Conforme informações da polícia e de familiares, o jovem seria envolvido com o tráfico de drogas, como usuário e, estaria recebendo ameaças de morte dos próprios “amigos”. Ele teria sido atraído para o local, que é de difícil acesso e foi morto a facadas.
De acordo com o sargento PM Carvalho, da viatura 9165, da 4ª Companhia (Cia) / 1º Batalhão de Polícia Militar (BPM), a informação do aparecimento do corpo foi repassada através de uma ligação anônima.
“Fomos informados na base da 4ª Cia de que o corpo de um adolescente morto, que estava desaparecido desde ontem (última quarta-feira), estaria no meio do matagal. Quando chegamos, vários moradores e familiares estavam nas buscas e eles mesmos encontraram o cadáver. Ele foi executado a facadas, possivelmente por dívidas com o tráfico de drogas”, disse.
AMEAÇAS
Uma familiar da vítima, que pediu para não ser identificada por medo de possíveis represálias, contou que o adolescente começou a usar drogas há pouco tempo, mas já estava recebendo ameaças de morte.
“Ele conversou com o irmão mais novo e contou que um rapaz moreno estava lhe ameaçando. Nos últimos tempos ele se meteu com más amizades, má camaradagem e começou a fumar cigarro. Depois disso começou a usar drogas. Não posso falar muita coisa, pois os bandidos ficam de olho e podem arrombar as nossas casas, nos roubar e até nos matar”, contou.
Segundo ela, três “amigos” o chamaram no início da tarde da última quarta-feira e o convidaram para tomar banho de igarapé.
“Esses três amigos dele, com quem ele começou a andar nos últimos tempos, foram chamá-lo para tomar banho no igarapé, que tem lá para dentro do mato. Desde então, ele não apareceu mais, só foram encontrar agora, morto. Foi uma casinha. A mãe de um dos três colegas dele que nos telefonou e disse que ele estava morto aí dentro do mato”, finalizou.
CORTEJO E CONFUSÃO
O desespero dos familiares foi grande, quando os dois moradores apareceram da escuridão da mata com o corpo com as mãos e os pés amarrados no tronco de madeira. Já passava de 1h, quando dezenas de pessoas inclusive crianças, seguiam a dupla que carregava o cadáver e caminhavam com destino ainda desconhecido.
Como surpresa para a maioria dos que estavam presentes, o cadáver foi levado para a porta do prédio sede do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves. Devido a insistência, os vigilantes do local tiveram que abrir as grades e o corpo foi colocado na frente da porta que dá acesso ao setor de necropsia.
Segundo informações, o local onde o cadáver foi encontrado ficaria a pelo menos 400 metros de distância a partir da entrada do matagal. Somando com a distância de percurso para o CPC Renato Chaves, o trajeto chegaria a quase um quilômetro.
PREJUDICADA
Na chegada houve discussão entre os funcionários do Instituto Médico Legal (IML) e os moradores que estavam no cortejo fúnebre. Um dos carregadores do corpo, Jairo Araújo, disse que o motivo teria sido a demora da remoção. “Já estamos procurando o morto há muito tempo e como houve demora na remoção, nós mesmos resolvemos trazê-lo”, disse.
Os peritos criminais do CPC Renato Chaves foram acionados para realizarem o levantamento de local de crime, mas devido à ação dos populares, todo o trabalho pericial e a investigação do crime ficam prejudicados.
“Ainda não há ocorrência do óbito. Não tem levantamento de local, pois o corpo foi retirado da cena do crime, impedindo que seja possível coletar vestígios e informações que ajudem nas investigações da polícia”, explicou a perita criminal Luiza Maia.
Policiais civis, juntamente com o delegado Vicente Gomes, da Divisão de Homicídios (DH) e de remocistas do IML, também foram ao local e se surpreenderam com a situação em que se depararam.
Um dos policiais militares que atendeu a ocorrência, alegou que a guarnição não conseguiu impedir a ação da população. “O pedido de remoção foi feito, mas a população não obedeceu as ordens. Ninguém comunicou o desaparecimento dele e nem registraram o boletim de ocorrência do homicídio. Não tivemos como impedir a população”, falou o soldado Natanael.
O caso foi registrado na Seccional Urbana da Marambaia e o corpo do garoto seria liberado após a necropsia, que seria concluída na manhã de ontem. Em seguida o corpo seria entregue à família para os reais atos fúnebres.
(Diário do Pará)
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