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POLÍCIA

Número de estupros cresceu 30% em um ano

O dia, o mês e o ano ela não lembra. “Eu apaguei da memória”, diz Conceição Viana, 50, assistente social que foi violentada na juventude. Porém, rotineiramente as lembranças de mais de 27 anos atrás insistem em vir à tona. “Me causa mal estar e tenho uma

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O dia, o mês e o ano ela não lembra. “Eu apaguei da memória”, diz Conceição Viana, 50, assistente social que foi violentada na juventude. Porém, rotineiramente as lembranças de mais de 27 anos atrás insistem em vir à tona. “Me causa mal estar e tenho uma certa dificuldade de lidar”, conta. As consequências do trauma do estupro respingam nos relacionamentos, na criação dos filhos e na forma de encarar a vida. “Foi o momento que tive mais medo na minha vida”, lembra. A princípio, ela tentou entender o acontecido pela forma sociológica, analisando as questões econômicas e sociais que poderiam ter desencadeado o comportamento do agressor. Mas hoje, chega à conclusão de que a ausência de valores é a principal responsável. E para sanar aquilo que especialistas denominam de pandemia, acredita que os conceitos devem mudar. “Mais que uma questão de segurança, é uma questão cultural”.

Na noite em que fazia um trabalho sobre moradores de rua, Conceição e um amigo foram abordados por assaltantes, que amarraram o rapaz e os ameaçaram de morte. Um deles afirmou que não deixaria que os demais a machucassem. Foi ele quem a estuprou. “Isso refletiu durante todo esse tempo na minha vida afetiva. Tenho dificuldade de acreditar nas pessoas”, revela. Por conta de medos, conflitos e angústias, as relações foram complicadas.

É no ombro dos filhos que ela encontra consolo. Ao filho mais velho são direcionados os conselhos de como tratar uma mulher. Para a filha mais velha, constantes ligações perguntando onde e com quem está e quando vai chegar. Com a mais nova, ainda criança, conselhos quanto a abusos sexuais. “Eu não quero que elas passem pelo o que eu passei”.

VIOLÊNCIA DA ALMA

Conceição é a prova viva que a violência não agride somente o corpo. “É como um gado que ficou marcado. Com o tempo vai sumindo, mas nunca vai apagar”, compara. Ela contou com o apoio da família, passou por tratamento médico para cuidar de uma Doença Sexualmente Transmissível (DST), adquirida no estupro, e fez terapia. “Já tentei mergulhar em mim mesma, mas não consigo tirar isso para fora”, lamenta. “Ainda estava atordoada e quando fui tirar sangue para a coleta, o rapaz disse que na ‘Hora H’ eu não tinha chorado, sem nem saber o que tinha acontecido comigo”. Por isso, faz-se necessário que o serviço público dê suporte para ajudar as mulheres.

O machismo é outro entrave a ser enfrentado. Conceição ouviu de um namorado que a roupa que vestia podia ter atraído o estuprador. “É a forma como a mulher é tratada na sociedade”, resume. Para Nazaré Cruz, militante da Associação Afro-Religiosa e Cultural “Ilê Yabá Omi”, o sentimento de culpa norteia muitas vítimas. “A sociedade acaba culpando a mulher, como se o corpo fosse um elemento provocativo. Ela acaba pensando que por ter um corpo bonito ou pelo tipo de roupa que estava usando, levou o agressor a violentá-la”, diz. Indicativos de uma sociedade com conceitos machistas, que precisa rever seus valores.

(Diário do Pará)

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