"Bora, passa o celular na calma que nada vai te acontecer!”, são palavras que soariam até gentis, não fossem ouvidas geralmente em locais pouco movimentados e ditas por assaltantes em geral armados e quase tão nervosos quanto as vítimas. Considerados pequenos roubos, esse tipo de crime quase já não são noticiados no violento Estado do Pará, pois só de sábado (06/04) para segunda (08/04) 24 mortes foram noticiadas no DIÁRIO, ou seja, uma morte a cada três horas - levando em consideração que a imprensa não registra necessariamente todos os homicídios. Entretanto, vítimas de assalto, mesmo após serem roubadas pela quarta ou quinta vez não conseguem ver essa situação como normal.
Dificilmente alguém que leia essa matéria conhecerá muitas pessoas que nunca foram assaltadas. Há casos como o da estudante A.P., que depois de ter sido roubada quando saía de casa, adquiriu síndrome do pânico e ficou quase um ano sem sair de casa sozinha outra vez. “Engraçado é que eu é que fui roubada, mas quem ficou se sentindo presa fui eu”, refletiu.
“Na hora que está acontecendo o roubo eu fico super calmo. Quando tudo acaba, principalmente na hora de dormir, é que bate o maior desespero”, comenta o pedreiro R. F., de 40 anos, que já foi assaltado cinco vezes. “Depois que acaba a gente não sente um monte de coisa, ódio, medo, revolta, tudo misturado aqui dentro”, desabafa.
O ódio da população contra as pessoas que cometem esse tipo de assalto é tamanha que quando algum infeliz é pego cometendo esse tipo de delito em geral é espancado, muitas vezes até a morte. “O fato de sermos assaltados com arma de fogo revolta. Não tiro a razão de quem tem ódio, porque eu mesma já senti todas as três vezes que fui assaltada. Mas acho engraçado como políticos e empresários que roubam milhões da gente não recebem o mesmo ódio”, ponderou a assistente social L.R., de 39 anos.
MEDO
Segundo a psicóloga Márcia Monteiro, especialista em cuidar de pessoas vítimas de violência, o medo é um sentimento benéfico ao corpo. Seria como um mecanismo de defesa, “mas que acaba ganhando proporções prejudiciais à saúde de vítimas de roubos. Para superar isso e voltar a viver normalmente demora um tempo”, explica. Segundo ela, em geral quem acaba de sofrer um assalto fica algum tempo até voltar a sair normalmente de casa. “A pessoa estranha cada movimento estranho, cada pessoa desconhecida já amedronta”, analisou.
Situação mais grave, segundo a psicóloga, vivem as vítimas desse tipo de violência dentro do próprio lar. “Dentro da nossa casa a gente se acha seguro. Acha que nada vai nos fazer mal e que podemos relaxar. Quando somos assaltados amarrados e humilhados dentro desse santuário, é ainda mais complicado recuperar a paz novamente”, explicou.
POSSÍVEIS SAÍDAS
O mercado de segurança privada tem um faturamento anual de R$ 16 bilhões no Brasil. Segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social - Segup, houve 66.046 roubos no Pará de janeiro a novembro do ano passado. Porém, muitas pessoas não registram Boletim de Ocorrência, o que dificulta o planejamento da Polícia Militar juntamente com a Polícia Civil, pois se as ocorrências não são registradas, para a polícia é como se não houvesse assalto.
Outra recomendação da Polícia é que as pessoas, principalmente mulheres, evitem andar sozinhas em ruas com pouco movimento. Algo que pode ajudar é cada cidadão ter na agenda o número interativo da companhia de Polícia Militar que atende o bairro onde trafega, para que a cada percepção de algo estranho possa acionar as autoridades. Telefonemas ao 190 também são recomendados, embora não tenha a resposta tão imediata quanto os números dos interativos, que em geral ficam em evidência nas viaturas que atendem a comunidade.
(Diário do Pará)
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