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POLÍCIA

Abandono e insegurança rondam praças de Belém

Todos os dias, antes mesmo de o sol nascer, a cabelereira Lourdes Nascimento faz os exercícios físicos na Praça Dalcídio Jurandir (antigo Forno Crematório), no bairro da Cremação, mas prefere não sair com nenhuma bijuteria, celular ou outro objeto que pos

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Todos os dias, antes mesmo de o sol nascer, a cabelereira Lourdes Nascimento faz os exercícios físicos na Praça Dalcídio Jurandir (antigo Forno Crematório), no bairro da Cremação, mas prefere não sair com nenhuma bijuteria, celular ou outro objeto que possa chamar a atenção de ladrões. A opção da comerciante também é nunca ir sozinha, pois ela já aprendeu a lição. “Já fui assaltada aqui duas vezes. Da última vez, uns quatro meses atrás, o bandido apontou a arma na minha cabeça e ainda me ameaçou. A única coisa que tinha era um cordão que tinha esquecido tirar antes de vir para cá”, relata. “Não dá para vir sozinha para cá. É 24h perigoso. Uma praça tão bonita, um patrimônio abandonado. Uma vergonha!”, acrescenta.

O descaso e abandono do poder público com as praças em Belém causam insegurança e medo na sociedade. As várias histórias contadas pelos raros frequentadores desses lugares que dizem respeito às praças se transformaram em verdadeiros ‘points’ para a marginalidade e violência.

Na semana passada, a reportagem do DIÁRIO visitou algumas delas. Segurança não havia. Entretanto, muita sujeira, mato, iluminação precária, quiosques e aparelhos para recreação e práticas de exercício físico estavam deteriorados, enferrujados e quebrados, formando o cenário atual das praças.

“Como vamos utilizar de toda essa estrutura que pouco tempo atrás funcionava desse jeito? A única opção é apenas caminhar em grupo, sempre com alguém por perto, ao redor da praça e ainda com muito cuidado”, avaliou o aposentado Túlio Lopes. De acordo com ele, que já mora no bairro da Cremação há 40 anos, foi-se o tempo em que as praças eram sinônimo de lazer e diversão. “Antigamente, os pais vinham trazer os filhos para brincar e até eu mesmo vim muitas vezes namorar aqui. Mas agora...”, diz.

Inaugurada há pouco mais de 10 anos, a Praça Princesa Izabel, na Condor, que deveria ser um ‘Terminal Fluvial Turístico’, como está escrito na placa de boas vindas, se transformou em abrigo de moradores de rua, ponto fixo e refúgio de usuários de droga e ainda propício para crimes como assaltos e até assassinatos. Além disso, alguns quiosques já viraram verdadeiros porta-entulhos, onde a própria população contribui para o amontoado.

Medo de assaltos tira sossego dos trabalhadores

A audácia dos criminosos já não depende do deserto ou da multidão. “Aqui não se pode piscar que o que é seu, o que tiver de valor, é levado cuidadosamente”, alertou um vendedor ambulante da Praça do Relógio, no bairro da Cidade Velha, em Belém. Cláudio (nome fictício) é o dono e trabalha há muitos anos em uma das inúmeras barracas localizadas naquela feira e precisou aprender a conviver com a insegurança que rodeia o local.

Esse medo que já faz parte do cotidiano de muitas pessoas, principalmente daquelas que trabalham em locais conhecidos e marcados pela violência, é dia a dia dividido com a coragem e a necessidade de lutar em busca do sustento da família. E foi em meio à correria como rotina da madrugada no mercado do Ver-o-Peso, que um morador de rua, foi baleado no último dia 30. O mais assustador foi que o crime aconteceu “aos olhos” da Polícia Militar que está ali, com um PM-Box estacionado cerca de 10 metros de distância da cena do crime. Segundo testemunhas, policiais militares não impediram a ação criminosa, tampouco, ainda de acordo com alguns trabalhadores, os PMs foram à caça dos atiradores.

“Ele estava sentado entre dois quiosques, assistindo televisão quando dois homens de moto chegaram, um deles desceu, deu um tiro e foi embora. Não deu pra ver o rosto deles por que eles usavam capacete. Só sei que esse homem [vítima], era morador de rua, mas não mexia com ninguém. Não se envolvia com droga, nunca vi sequer ele porre. Sempre ele estava por aqui, mas não sei o nome dele”, relatou um vendedor da feira que preferiu não ser identificado.

O único disparo feito pelo assassino atingiu a mandíbula do homem identificado como Márcio Santos. O ferimento teria atravessado o pescoço do homem que foi socorrido por uma viatura do resgate do Corpo de Bombeiros e levado até o Pronto-Socorro Municipal do bairro do Marco. Ele sobreviveu ao atentado.

Para a equipe de reportagem do DIÁRIO, os cabos A.Melo e Joaquim, responsáveis pela Unidade Móvel da Polícia Militar na fiscalização de toda a área da feira do Ver-o-Peso, disseram que não estavam no local no momento que aconteceu o baleamento, quando retornaram, a vítima já estava estendida no chão e os criminosos haviam escapado. Mas segundo aqueles ambulantes que testemunharam o acontecimento, o Box estava estacionado poucos metros de distância da vítima e dos motoqueiros. O crime aconteceu por volta das 3h na praça do Relógio, no final da Feira do Açaí, localizada no Complexo da maior feira da América Latina, no bairro da Cidade Velha, em Belém.

“A senhora estava com algum relógio, pulseira, cordão ou alguma coisa assim? Se tivesse, ia dizer que já tinha sido roubada. Aqui não se pode piscar que o que é seu, o que tiver de valor, é levado cuidadosamente”, alertou outro vendedor ambulante, que inclusive testemunhou o baleamento do morador de rua na madrugada de ontem. “Ontem mesmo levaram o ‘camburão’ de água e o isqueiro de uma vendedora aqui. Numa piscada, já era. Não pode vacilar”, completou.

Em novembro passado, outra equipe do DIÁRIO registrou vários casos e depoimentos de pessoas que convivem com a falta de segurança naquele local, que mesmo sendo muito movimentado, é tatuado por inúmeros casos de furtos, roubos, brigas e até mortes. “Aqui é uma verdadeira escola. Nesses 40 anos trabalhando aqui, já vi muita coisa. Perdi as contas de quantas vezes vi gente morrer aqui e ninguém fazer nada. A Polícia diz que está aqui, mas na verdade, não adianta de nada esse policiamento”, denunciou Elias Silva, presidente da Associação dos Lavadores e Reparadores de carros de Belém. Elias acredita que o homem foi vítima de engano. “Ele é perturbado, mas nunca mexeu com ninguém. Acredito que atiraram por engano”, disse.

“Segurança?”, gargalhou outra ambulante quando foi questionada se existia amparo policial enquanto trabalham. “Aqui isso não existe. Segurança zero. O que aconteceu hoje [ontem] é quase normal”, comentou a mulher a respeito do baleamento contra o morador de rua.

De acordo com a Guarda Municipal de Belém, das 265 praças que a capital paraense possui, apenas 9 delas recebem segurança 24h, como CAN, Horto Municipal, Praça Batista Campos, Praça Floriano Peixoto, Praça D. Alberto Ramos, Praça da República, Praça da Bandeira, Praça do Ver-o-Rio e Praça do Pescador. “Infelizmente, o efetivo da Guarda não é suficiente para atender todos os logradouros públicos”, explica a nota da assessoria de comunicação. Ainda segundo o esclarecimento oficial, o trabalho da Guarda “é realizado em parceria com a Polícia Militar que também realiza rondas diariamente”. A PM foi procurada pela reportagem, mas não teve a solicitação respondida.

No Guia Belém Sustentável, disponível no site da Prefeitura de Belém, afirma que “as praças têm um importante papel na valorização da cultura local. Elas são a identidade e o cartão postal de metrópoles. As cidades mais agradáveis são aquelas onde há amplas áreas destinadas às praças e onde os habitantes e o poder público cuidam dessas áreas com zelo e dedicação”.

“É uma pena nossas praças estarem se perdendo pelo descuido e zelo das autoridades”, desabafou João Santos, funcionário público.

(Diário do Pará)

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