Brincar de empinar pipa é a alegria de muitos meninos. Um deles era um garoto de 12 anos. Ele havia acabado de chegar da escola, pegou sua bicicleta – veículo que foi construído por ele próprio – e saiu para comprar a linha que usaria durante a tarde na brincadeira de empinar com os amigos. Mas a possível imprudência de um motorista cruzou o caminho do garoto, que morreu após ser atropelado na manhã de ontem, por volta das 10h. Um caminhão trafegava pela rua Alfredo Calado, enquanto o adolescente vinha em sua bicicleta pela WE 4, do conjunto Nova Marituba, bairro do Decouville. As ruas são transversais, e no momento em que o motorista do caminhão fez conversão para a WE 4 – sem fazer nenhum tipo de parada antes de entrar na via –, atingiu a vítima quase de frente, segundo testemunhas que estavam no local.
Um taxista conta que ainda tentou alertar o motorista do caminhão, mas foi ignorado ou não foi ouvido quando gritou para Eliel de Jesus Santos de Farias, 32 anos, que havia uma criança vindo em direção à rua principal. O garoto estudava na Escola Municipal Maria de Fátima. Uma tia da criança relata que falou com ele logo na saída das aulas e que ele disse estar voltando para casa. “Realmente, não é só a gente que está chorando hoje por alguém da família. Mas isso era algo que nenhum de nós esperava”, disse.
“Ele disse que não ia demorar, que já voltava. Uns minutos depois vieram bater em casa dizendo que ele tinha sido atropelado”, conta a irmã do garoto. Ela ainda havia dito para o menino ajudá-la com alguns peixes que seriam preparados para o almoço. Contudo, querendo garantir a brincadeira da tarde, Arnaldo disse que primeiro queria ir comprar a linha.
“Esperto, inteligente, peralta”, segundo a tia do garoto, ele era assim, uma dessas crianças criativas, que fazem seus próprios brinquedos e que têm amigos em toda parte. A tia da criança também conta que a vítima tinha sete irmãos e que a família mora no bairro Santa Lúcia II, em Marituba.
A mãe do menino não teve condições de falar sobre a tragédia. Ela foi encaminhada para registrar ocorrência na Seccional Urbana de Marituba. Uma irmã da vítima e um tio também estiveram no local e reclamaram de acobertamento da polícia sobre o suspeito.
NA SECCIONAL
O homem dirigia o caminhão de uma empresa e havia acabado de fazer o transporte de materiais de construção. Segundo a família da vítima, ele não teria parado após o acidente. “O meu irmão anotou a placa e foi direto na barreira da Polícia Federal e disse que ele tinha acabado de matar uma criança em Marituba. Quando o caminhão passou por lá, os policiais fizeram ele parar e o trouxeram para cá [seccional]”, afirma Janaína Correa.
Mas o motorista contou outra versão para a polícia. Em depoimento, ele afirmou ter parado depois do acidente, mas, ao sofrer tentativa de linchamento, saiu do local e foi se entregar espontaneamente na barreira da Polícia Rodoviária Federal. Os agentes da PRF já não estavam mais na seccional para dizer quem contava a versão correta, mas o inquérito permanece aberto e várias testemunhas ainda serão ouvidas.
A morte do menino foi registrada na Seccional Urbana de Marituba como “Delito de Trânsito”. Uma fiança foi estipulada e, caso o condutor Eliel de Jesus Santos de Farias pague, será liberado para responder ao processo em liberdade. O delegado à frente das investigações é William Alexandre da Silva. O local do acidente, o corpo, a bicicleta e o caminhão foram periciados pela equipe do Instituto de Criminalística do Renato Chaves. O laudo deve sair em 15 dias e vai ajudar a determinar se houve imprudência por parte do motorista.
(Diário do Pará)
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