Do primeiro dia de janeiro até a última sexta (28), 1.787 pessoas foram assassinadas em todo o Pará, segundo o Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp). Isso significa que no primeiro semestre a cada 2,5 horas um corpo tombou, seja numa mesa de hospital, seja no fundo de um rio, seja, sobretudo, sobre o chão de alguma periferia, vítima de violência, cada vez mais presente e assustadoramente corriqueira. O DIÁRIO entrevistou pessoas de todas as classes sociais e de diversas áreas de atuação, e nenhuma fonte achou absurdo esses números. Houve quem achasse pouco, inclusive. Ou seja, apesar de esse número poder diminuir, caso alguns desses caos sejam considerados homicídio culposo (sem intenção de matar), o dia a dia, as capas de jornais, as manchetes televisivas mostram que a vida tem valido cada dia menos.
Só em nossas páginas policiais, 100 homicídios foram registrados nos primeiros 45 dias do ano. Entretanto, embora tenhamos a maior cobertura na área policial do Estado, a maior parte dos assassinatos que cobrimos são quando há corpo no local. Em muitos casos, a pessoa morre no hospital ou em área que não temos acesso, fazendo com que a cada dia tenhamos apenas uma amostra da sangria que já parece tamanha.
JANEIRO
Segundo dados do Sisp, só em janeiro foram 320 crimes letais. Em fevereiro, foram 287; em março, 305; em abril, 282; em maio, 295, e em junho foram, até a última amostra, 298 vítimas. Só de terça a sexta da última semana foram 41 casos, ou seja, uma média de 10 por dia.
Vivemos tempos de movimentação juvenil de parte a parte do país por causa de problemas sociais, políticos e estruturais engasgados há tempos. A maioria das mãos que seguram cartazes criativos ou pedaços de pedra é de jovens, que, independente de qual avaliação se faça desses tempos e da forma como se dão as manifestações, é inegável que estão protagonizando algum tipo de mudança. Na outra ponta dessa realidade, como não houve ainda mudanças significativas de como se dá o processo no submundo do crime, as grandes vítimas dessa matança também são jovens, a maioria sem esclarecimento, gente que não estudou mais do que a 5ª série. Gente que se acostumou a ver gente morrer e a ver gente matar, na prática um outro nível de “vandalismo”.
“Lei do Silêncio” impõe medo aos mortais
Muito costuma comover a opinião pública o fato de que há números defensores de direitos humanos ameaçados de morte. Porém, a mesma Amazônia que testemunhou o martírio de Chico Mendes e Irmã Dorothy testemunha diariamente em noticiários a divulgar que em determinada cena do crime nada foi dito porque ali vigora a “Lei do Silêncio”. E o que seria isso a não ser ameaça de morte? São pessoas que em geral vivem num bairro de periferia e conhecem de perto pessoas que matam por R$ 200,00 ou menos, que até são presos, mas quando estão soltos parecem ter ainda mais vontade de matar. Ou mesmo antes de sair, bastaria algumas ligações do próprio presídio para que a maldita ordem fosse dada.
É emblemático que as pessoas tenham medo de dar informações sobre um assassino à polícia. Ou seja, no fim das contas há um respeito maior pelos criminosos do que pelo Estado. O governo, aliás, divulgou nos últimos dias a aquisição (ou aluguel) de novas viaturas, de mais concurso público e de premiação em dinheiro para policiais que apreenderem armas. Mas isso não alterou em nada a Lei do Silêncio em locais onde o que realmente funciona, infelizmente, são ações que contrariam a lei.A assessoria de comunicação da Segup foi contatada, mas afirmou que não possui dados sistematizados sobre o número de homicídios no primeiro semestre e por isso ainda não iria se pronunciar sobre o assunto.
(Diário do Pará)
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