Após perder um filho, um sobrinho e um cunhado em uma chacina no município de Santa Cruz do Arari, arquipélago do Marajó, em janeiro deste ano, a dona de casa Ilma Vieira nunca mais voltou à rotina normal. “A minha vida mudou completamente. Não consigo mais me alimentar direito, dormir sossegada e não tem um dia que eu não chore, lembrando dessa tragédia. Mas o pior de tudo isso é saber que nada é feito para resolver essa aflição. Os criminosos que destruíram a minha família continuam soltos e eu não tenho nenhuma resposta da polícia”, desabafa a dona de casa.
O crime chocou os moradores da cidade. Os três homens que trabalhavam em uma fazenda foram executados, amarrados e arrastados por vários metros, antes de serem jogados em um matagal de difícil acesso. Na época, as primeiras informações sobre caso falavam que o crime poderia ter ligação com o roubo de gado na região, mas segundo os familiares das vítimas, essas informações não seriam verdadeiras. “Muita gente comentou que o crime podia ser um acerto de contas motivado por roubos de animais nas fazendas da região, mais isso não confere. Eles eram trabalhadores, inclusive, trabalhavam na fazenda onde foi realizada a chacina. Nada justifica essa barbaridade que fizeram”, ressalta.
Assim como Ilma, no Pará, centenas de famílias com vítimas de homicídios convivem com a falta de uma resposta definitiva da Polícia. Dados do Sistema Integrado de Segurança Pública, divulgados pelo Sindicato dos Servidores da Polícia Civil (Sindpol) revelam que nos seis primeiros meses de 2013 foram registrados 1.899 assassinatos no estado. E em contraste com esse número, nesse mesmo período, apenas 94 pessoas foram detidas suspeitas de homicídio, conforme matérias publicadas no DIÁRIO DO PARÁ.
Para o diretor da Divisão de Homicídios de Belém, delegado Gilvandro Furtado, o abismo entre os números de homicídios e o numero de pessoas detidas se deve ao grande número de assassinatos que ocorrem diariamente no estado. “Tanto na Região Metropolitana de Belém como nos municípios do interior nós temos um quadro de homicídio muito intenso e com isso não há como resolver todos de uma vez. O que a Polícia Civil tem feito, e em especial a equipe de Divisão de Homicídios, é trabalhar para que os inquéritos sejam concluídos o mais rápido possível. E isso tem ocorrido em muitos casos, mas a conclusão do inquérito não garante, infelizmente, que todos os acusados sejam detidos”, explica o delegado.
Gilvandro afirma que desde que a Divisão de Homicídios foi criada, os números de inquérito policiais concluídos aumentaram consideravelmente. Mas ele, admite que isso ainda é pouco, principalmente em relação ao numero de prisões efetivadas. “A Divisão de Homicídios surgiu exatamente para intensificar as conclusões de inquéritos policiais. E isso vem dando certo, tanto que nos últimos anos, além de Belém, também foram criadas as Divisões de Homicídios de Ananindeua e Icoaraci. Isso faz com que cada vez mais, a polícia esteja presente nos locais de crime para que esses casos sejam solucionados o mais rápido possível. Mas é claro que, ainda assim, nós trabalhamos com limitação, em relação a efetivo policial, à estrutura, entre outros. Mas mesmo com essa limitação, nós temos mostrado excelentes resultados”, garante.
Em relação à chacina em Santa Cruz do Arari, Gilvandro afirma que o inquérito do caso já foi concluído e que todos os envolvidos já foram identificados pela polícia. “Nós trabalhamos com uma equipe de inteligência e só concluímos o inquérito quando todos os envolvidos são identificados. Mas isso é apenas uma parte do trabalho. No caso de Santa Cruz do Arari, nós reconhecemos os três acusados dos homicídios e já pedimos a prisão preventiva deles. Mas, entendemos também que situação geográfica apresentada pelo Marajó, infelizmente, dificulta o nosso trabalho. Por isso, continuamos com nossas equipes na rua para solucionar de vez o caso, não apenas para a família, mas toda a sociedade”, afirma o diretor da DH.
A angustia de não ter uma resposta definitiva sobre as investigações da polícia é também o que mais atormenta os familiares do prestador de serviços Telmo Casemiro Lopes, 40, executado com três tiros, no último dia 26 de junho, no bairro do Tenoné. A vítima foi morta por um homem que seguia na garupa de uma moto, em uma das vias mais movimentadas do bairro. “A única informação que a gente tem é que o homem desceu da moto atirou no Telmo e depois fugiu com ajuda de um comparsa. Fora isso, ninguém sabe de mais nada. E é isso que a deixa a gente mais inconformado”, afirma a esposa do prestador de serviço, Rita de Cássia.
Segundo ela, as primeiras informações divulgadas pela polícia, que caracterizou o crime como um caso de “acerto de contas”, deixou a família revoltada. “Além do choque que a gente teve com o crime, outra coisa que nos deixou muito revoltados foi a forma como a polícia se referiu ao meu marido, momentos depois do assassinato. Em varias declarações que saíram na imprensa, os policiais sempre se referiram ao crime como mais um caso de ‘acerto de contas’ e isso não é verdade. O Telmo nunca teve envolvimento com a criminalidade, ele era um homem integro e isso não é só a família que fala mas todos os moradores da nossa rua. Por isso, não admitimos que o caso seja tratado como ‘acerto de contas’, o meu marido não era criminoso”, denuncia a mulher.
A família teme que o caso fique esquecido pela polícia e, por isso, se mobiliza com familiares de outras vítimas de homicídio para cobrar da Secretaria de Segurança Pública solução para o caso. “A gente já começou a se juntar com outras famílias que foram vítimas de assassinos para reivindicar pela mesma luta. Não podemos deixar que esses crimes fiquem impunes. A gente quer Justiça! Por isso vamos até a Secretaria de Segurança, até a Delegacia Geral, até o Governador se possível, mas a gente quer uma resposta. Os culpados pela morte do meu pai têm que ser presos”, reivindica o filho da vítima.
O abismo entre o número de homicídios registrados pelo Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp) nos seis primeiros meses do ano e o número de prisões por homicídios divulgados pelo DIÁRIO no primeiro semestre de 2013 não é considerado oficial pela Secretaria de Segurança Pública. A assessoria de comunicação da Segup informa que os números do Sisp precisam ser primeiramente sistematizados para serem divulgados como oficiais. E afirma que os dados oficiais sobre o número de homicídios no estado ainda estão em processo de análise e que só serão divulgados durante uma coletiva de imprensa, ainda sem data para acontecer.
(Diário do Pará)
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