O combate ao tráfico de drogas é uma guerra impossível de vencer pela repressão, no Pará, no Brasil e no mundo. Pelo menos é isso o que pensam especialistas de diversas áreas ao mergulharem profundamente nesse assunto. A terceira atividade ilícita mais rentável do planeta, que segundo estimativa da ONU movimenta cerca de R$ 500 bi por ano, perdendo apenas para o tráfico de armas e tráfico de pessoas, provoca mazelas em todas os setores da nossa sociedade, em todos os municípios e nenhum esforço para reprimir nas últimas décadas provocou qualquer efeito significativo ao ponto de ao menos diminuir o consumo. No Pará, essa “derrota” provoca principalmente muitas mortes.
O Brasil possui 15 mil quilômetros de fronteira, com muita terra, muita água e muita desproteção ao longo de todo esse percurso. O jornalista Rafael Godoi e o analista de sistemas Sérgio de Castro percorreram todo esse caminho e relataram a completa falta de proteção na maior parte dele e registraram tudo isso no livro-reportagem “Fronteiras Abertas”, publicado pela editora Sindireceita. Para se ter a dimensão do que isso significa, quase 100% de toda cocaína produzida no mundo está localizada em plantações de Colômbia, Peru e Bolívia, ambos países fronteiriços ao Brasil, mais particularmente à Amazônia brasileira.
Ultrapassada essa barreira, que deve ser vigiada pela Polícia Federal e as Forças Armadas, o Governo do Estado do Pará através dos órgãos de segurança pública tem a atribuição de fiscalizar a entrada desses produtos em nossas terras. Porém, o vasto acesso por rio, terra e ar faz com que essa tarefa seja um desafio longe de ser superado. Os municípios de Marabá, Santarém e Óbidos, que fazem conexão com outros estados amazônidas, são rotas já conhecidas das autoridades.
Segundo dados fornecidos pela Delegacia de Repressão aos Entorpecentes (DRE), ligada à DRCO, de 2007 a 2011, foram apreendidos cerca de 2,5 mil quilos de entorpecentes, incluindo maconha beneficiada, cocaína e derivados dela. Provavelmente a mesma quantidade que entra em nossas terras em cerca de dois meses, segundo a própria delegacia. Uma Divisão de Narcóticos está para ser criada pela segunda vez no Pará, como já houve na década de 80, mas há formadores de opinião, cientistas e policiais que contestam esse tipo de investimentos. Para eles é melhor investir na prevenção do que na repressão.
Enxugar gelo
De lados opostos, o biólogo Carlos Renato (nome fictício) e Antônio José, chefe de operações da Delegacia de Polícia da Cabanagem já em fim de carreira convivem há décadas com o mundo das drogas. Carlos consome cocaína há mais de 20 anos e durante um tempo chegou a vender. O policial, por sua vez, é exímio investigador e já perdeu a conta de quantos casos de homicídios ajudou a elucidar cuja causa estava ligada ao tráfico. Embora o primeiro lide com o vício de forma discreta e o segundo dedique parte do seu tempo livre para dar palestras em escolas sobre os perigos do consumo, ambos responderam algo semelhante quando perguntados se são otimistas que um dia o tráfico será vencido: “Não.”
“Depois de tantos anos como titular da DRE eu cheguei à conclusão que não devemos centrar esforços na repressão, e sim na prevenção. Se o dinheiro que é gasto pra proteger barreira fosse revertido para educação e saúde, teríamos melhores resultados”, se posicionou Henison Jacob Azevedo. Para ele, se a maior potência do mundo que só possui fronteira física com o México, com policiais mais bem treinados, e com muro físico em toda extensão da área fronteiriça, ainda assim o problema lá está longe de acabar, então o Brasil tende a não conseguir. “Enquanto a droga for proibida ao invés de se ter diálogo com quem pode usar ou usa, prevalecerá a curiosidade e as consequências dela”, argumentou.
“Eu não sei a quantidade de barrilha, de solução de bateria, nem sei os efeitos que essa nossa composição provoca de reação ao usuário. No laudo é tudo cocaína”, desabafou. Há quase um ano enviei para um laboratório da UFPA avaliar. Até hoje não me responderam”, cutucou.
Traficantes ricos “se dão bem” na impunidade
Para a coordenadora do curso de extensão universitário “Drogas e AIDS, questões de Direitos Humanos” da UERJ, Gilberta Acselrad, as drogas sempre existiram em todas as civilizações humanas. Somente nas últimas décadas esse problema ficou mais agudo e virou caso de polícia, não de saúde pública. Ela defende que para reverter a batalha contra as drogas, devemos buscar novos paradigmas sociais e existenciais. Buscar corrigir as causas estruturais que conduzem ao vício que alimenta o tráfico. “Ao invés de esconder, proibir, propor debates, rodas de conversas sobre a questão. Afinal de contas, enquanto houver usuário querendo comprar, haverá quem venda”, resumiu.
Em seu artigo “A construção social do ‘problema’ das drogas” ela recordou a história da Bela Adormecida. “O rei e a rainha não quiseram receber no palácio as ‘bruxas’ consideradas feias, desagradáveis – referindo-se a conflitos que, de fato, fazem parte da realidade. Estas, irritadas, rogam uma praga: a princesinha, mais tarde, irá ferir-se com um fuso. Em vez de ensinar a princesinha a lidar com o fuso, seus pais preferem bani-los do reino. Com a razão entorpecida pelo medo, a descuidada princesa acaba encontrando um fuso esquecido no sótão e se fere, caindo num torpor, após cometer a transgressão de mexer no que era proibido”, narrou.
Em seguida ela questiona: Não teria sido melhor prepará-la para lidar com o fuso, de forma clara, sem mitificações e mistificações? Não teria sido mais pedagógico educar, em vez de tentar evitar o problema erradicando os fusos do reino? Educar para a autonomia – ‘ajudar o outro, esse feixe de pulsões e imaginação, a tornar-se um ser humano, capaz de governar e ser governado’?
Impunidade
Uma característica dos grandes traficantes do Pará é a forma como utilizam o dinheiro conseguido de forma ilícita como investimento. Há quem construa kit-nets, quem guarde no banco, e até mesmo quem invista em roubos a banco. Caso emblemático é o de José Carlos Barbosa Lacerda. Condenado à quase 30 anos de prisão por homicídio fez fortuna de dentro do presídio vendendo drogas. Ele, inclusive, foi um dos mentores da fuga em massa ocorrida na última quarta (11) no PEM I, em Marituba, segundo a Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará (Susipe). José ainda encontra-se foragido.
Segundo o delegado Henison, de 2007 a 2011 foi possível prender mais grandes traficantes, sobretudo por conta da utilização de tecnologia. “Atualmente eles se comunicam por outras redes sociais, não com telefonemas. Infelizmente no Brasil o governo não tem peito de exigir como os órgãos de segurança pública monitorarem articulações modernas. Só se pensa no lucro”, revoltou-se o titular da DRE.
O delegado André Costa, titular da Delegacia de Repressão a Roubos de Banco (DRBB), há outra dificuldade encontrada por todos os delegados da Divisão de Repressão ao Crime Organizado .
“Nos EUA, por exemplo, o cidadão preso precisa comprovar como conseguiu adquirir todos os bens. Aqui, é a polícia que precisa provar que objetos, casa e tudo eram dele, mas no Brasil é o delegado quem ainda prova que o ladrão, o traficante, ou o que comprou algo com dinheiro roubado. Aí nós não conseguimos materializar as denúncias como gostaríamos”, pontuou.
O “playboy”
Mora em condomínios horizontais ou verticais, frequenta boas escolas e possui acesso a bens materiais mais caros. Este se não exagerar passa boa parte da vida anônimo, e os fornecedores deles estão nas próprias escolas. Consomem principalmente maconha e cocaína em pó. A mais cara e a menos prejudicial em relação aos derivados dela. Compra nas festas, na própria escola, no próprio trabalho ou no mesmo prédio frequentados por ele. Também compra na boca. Há casos de pessoas que por consumirem drogas praticamente natural convivem sadiamente por muito tempo consumindo sem maiores prejuízos à saúde do que provoca a cerveja e o cigarro, por exemplo.
O “vidaloka”
Mora na periferia sem políticas públicas, isso quando não mora na rua. Nas décadas de 1980 e 1990 basicamente consumia cola para enganar a fome e maconha. Atualmente consomem no Pará aquilo apresentado pela Polícia Militar como “pasta base de cocaína”, que produzem dependência com muito mais velocidade e causam uma sensação de confiança e poder seguida por um período de depressão, paranoia com alucinação e delírios. Tornam o usuário suicida ou homicida em potencial. Essas pessoas, em geral sem conhecimento dos próprios direitos são alvos fáceis da extorsão de policiais corruptos.
Em comum: Apenas 30% dos dependentes conseguem superar por mais de cinco anos sem recaídas a dependência. Em ambos os casos, jovens em estado avançado pegam coisas dentro de casa para dar ao vendedor. Porém, o filho de classe média quase sempre tem pra dar, e na periferia quase nunca consegue, portanto é o viciado pobre quem mais morre, é o traficante pobre que é mais preso, e é o usuário pobre quem consome a droga de pior qualidade.
(Diário do Pará)
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