“Nessas brigas tem muita malandragem. Eles sempre se reúnem para combinar os detalhes, às vezes nem chegam a entrar no colégio no dia. Antes de começar, eles usam drogas e consomem bebida. Aproveitam essa ocasião também para roubar outras pessoas”, diz a testemunha. “Nesses grupos há muitas meninas envolvidas, inclusive a briga que acontece entre elas é porque uma está namorando alguém do colégio rival. Aí não tem perdão, não tem amizade. Há uns dois meses, uma menina apanhou de outras quatro por causa disso”, relata um vendedor que trabalha próximo a uma escola estadual, localizada na avenida Almirante Barroso, e que preferiu não ser identificado por medo das constantes ameaças que recebe, caso ele denuncie o que já viu.
A testemunha garante que o episódio mais recente aconteceu na noite do dia 04 deste mês. Houve ainda outro confronto mais recente, no início da última semana, na mesma avenida, onde dois grupos de adolescentes se enfrentaram em via pública motivados por rixas antigas entre eles. “Eram mais de vinte pessoas”, afirma.
O lugar que deveria ser referência de educação, aprendizado e formar cidadãos, depois de família, infelizmente tem se tornado ambiente de pretexto para a prática de vandalismo e violência entre meninos e meninas. “Em nome” da escola, o histórico de rivalidades entre a maioria desses adolescentes de escolas públicas e privadas tem sido constantemente revelado em cenas de brigas e agressões às proximidades das próprias instituições de ensino.
São estudantes de 15 a 17 anos que, por algum desentendimento com outros alunos de escolas do mesmo bairro, criam grupos de vândalos. Trocam as salas de aula por agressões verbais e físicas no meio da rua, algumas vezes em plena luz do dia. Muitos participam desses momentos ainda uniformizados, porém outros estão deixando de se expor através da identificação da farda. “Eles se juntam no canteiro do BRT. Acontece de eles até apedrejarem os ônibus que passam”, conta uma ambulante.
As famosas brigas entre alunos de colégios diferentes sempre são ocasiões marcadas. Segundo o major Walber Queiroz, comandante da Companhia Independente de Policiamento Escolar (Cipoe), “antigamente eram ‘gangues’, hoje estão vestidos de uniformes, mas o perfil é o mesmo”. A maioria se conhece, alguns por terem sido transferidos do colégio “inimigo”. “Eles criam facções, simbologias para cada grupo. Temos conhecimento dessas reuniões que são marcadas, inclusive, pela internet”, revela.
O que chama atenção é que boa parte dos casos noticiados são estudantes da rede estadual, mas se engana quem pensa que essas brigas acontecem apenas entre escolas públicas. O policial garante que “o maior índice são nas escolas particulares. Muitos abafam por conta da exposição e generalizam definindo os colégios estaduais como sendo os mais problemáticos”, afirma.
Para Queiroz, o perfil desses estudantes, em grande parte, é decorrente à questão social que contribui imensamente para a prática de vandalismo. “São vários fatores, mas o principal é a família que não dá o apoio, o acompanhamento necessário. Não impõe regras para os filhos e reflete na segurança pública. É preciso que os demais órgãos funcionem de fato. Caso contrário, esse adolescente que está em formação poderá decair para o lado errado”, avalia.
PM diz que trabalha para evitar confrontos
A Polícia Militar diz que há mais de 20 anos possui a ronda escolar realizadas a partir de um trabalho de inteligência e velado intensivo com o objetivo de evitar esses confrontos. Na avaliação do major Walber, que está há um ano no comando, o índice de ocorrências tem diminuído. De acordo com ele, a ronda é feita a partir de um mapa elaborado em cima de dados estatísticos de ocorrências em áreas consideradas problemáticas, como os bairros do Marco, Nazaré e Guanabara. Além disso, reuniões com gestores da educação são fundamentais no direcionamento do trabalho.
“Esses confrontos são motivados por rivalidade que começa fora da escola. Eles aproveitam horários de saída para marcarem as rixas. Temos percebido que, com o trabalho de inteligência, conseguimos nos antecipar e impedir muitas dessas práticas”.
Segundo Walber, a PM atua com rondas das 6h às 23h em aproximadamente 400 escolas da rede estadual em toda a Região Metropolitana de Belém, porém não tem como ter policiamento permanente nesses colégios.
Queiroz expõe ainda que, de acordo com dados oficiais de ocorrências mais relevantes registradas pelo Cipoe, no primeiro semestre deste ano houve uma queda de 46,21%, em comparação ao mesmo período de 2012. De janeiro a junho do ano passado, foram 303 casos de brigas entre estudantes. Já neste ano letivo, foi registrado 163 situações classificadas em lesão corporal, ameaças, brigas, desordem, furto, porte ilegal, roubo e agressão.
(Diário do Pará)
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