No mês natalino, o sentimento mais afetivo entre as pessoas abrange a maioria dos cristãos que comemoraram, em dezembro, o nascimento de um menino que há dois mil anos veio trazer luz à humanidade. Mas, por ironia do destino, numa rua deserta de um bairro nobre de Belém do Pará, um menino de quase dois meses de vida foi abandonado pela própria mãe, uma usuária de drogas, no chão, totalmente desprotegido e com a mala deixada ao lado do cobertor, pronto para ser resgatado.
Essa cena comoveu uma mulher que teve coragem de sair no meio da escuridão da rua e ir rumo ao choro da criança. Jogado na calçada de uma das casas da passagem Ramos, bairro de Nazaré, o pequenino foi encontrado pela podóloga Laudinéia Ferreia. A moradora se sensibilizou com a criança.
“Ele já tinha chorado bastante. Estava todo arrumadinho. Minha mãe correu para pedir ajuda de uma cliente que é delegada e ela orientou os procedimentos que deveriam ser tomados”, contou Núbia Beckman, filha de Laudinéia.
Abandono
De acordo com o cabo Moura, da Polícia Militar, 2ª Área Integrada de Segurança Pública (Aisp), ele foi acionado através do Centro Integrado de Operações (Ciop) por volta das 19h de sábado. Tinha a missão de resgatar a mulher que deixou a criança sozinha no chão daquela rua deserta. Elizabeth do Socorro da Silva, 25, acabou encaminhada para a Central de Flagrantes de São Brás.
Moradora da Ilha Paulista, localizade do município de Limoeiro do Ajuru, a mãe Elizabeth da Silva disse ao DIÁRIO que veio para Belém obter alguns documentos, como carteira de identidade, registro profissional e CPF. Na delegacia, a mulher chorou: admitiu que havia consumido entorpecentes e que estava desnorteada. “Não sei o que deu na minha cabeça. Deixei ele [o bebê] lá e, quando vi uma mulher vindo em direção a ele, saí correndo”, contou.
Segundo o delegado Antonio Marçal, Elizabeth cometeu o crime de abandono de incapaz de forma qualificada, uma vez que ela é a mãe da criança. A infração gera a penalidade que varia de três meses a três anos de detenção. Entretanto, pelo Código Penal, a mulher pode não ficar na prisão: basta pagar a fiança, cujo valor não foi divulgado pelo delegado.
Reginaldo Paixão, conselheiro tutelar do bairro da Marambaia, foi acionado para realizar os procedimentos de proteção ao menino, que possui apenas um mês e 25 dias de nascido. De acordo com ele, nesses casos, o mais aconselhável é que a criança seja amparada por algum parente, visando a permanência no seio familiar - já que a mãe não possui condições para assumir a responsabilidade que lhe é dada.
Absurdo comum
“Essa é uma prática ilegal, mas que infelizmente já se tornou comum, principalmente na época natalina”, admite o conselheiro tutelar. Ele reitera que, num caso onde há a possibilidade de a mãe colocar o menor em situação de risco novamente, ele deve ficar com os avós. “O mais aconselhável é a entrega para doação, e não o abandono. O Ministério Público será comunicado através de relatório”, acrescenta.
O avô do menino, Aderval Costa Diniz, revelou que esse é o quarto filho de Elizabeth. “Cada um é de um pai diferente e mais um que ela vai dar. Nenhum deles ela cria”.
Assim que a criança foi resgatada, passou por avaliação médica no Pronto-Socorro Municipal da 14 de Março. Lá o menino foi medicado pelo pediatra: o choro era por conta de muitos gases que o incomodavam. Enquanto isso, quase todos que tomaram contato com o bebê e ouviram o que aconteceu com ele se tornaram mães e pais de coração. Ele recebeu várias doações de fraldas, mamadeiras, chupetas e leite.
“Essa situação a gente só vê nos jornais, nunca pensa que vai acontecer com a gente. Acho que essas mães agem por impulso, por desespero. Mas nem precisa ser mãe para ter e devolver afeto”, diz Núbia, grávida de três meses.
(Diário do Pará)
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