O dia 17 de novembro de 2012 caiu num sábado. Era o dia em que Thúlio Vale da Silva Pinheiro, 20 anos, iria pela última vez ao cursinho preparatório para o concurso público almejado por ele. Das 15h às 19h, Thúlio repassou os conteúdos para a prova. Técnico em agrimensura pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), antiga Escola Técnica Federal do Pará, ele não queria mais ter de trabalhar em municípios do interior do Estado, como vinha fazendo até então. Filho único, esperava ficar perto dos pais. Às 19h10, já de saída, percorreu a Rua 14 de Março em direção à Mundurucus. Como sempre fazia, parou para um lanche, no mesmo local onde sempre costumava ir, entre a Conselheiro Furtado e Mundurucus. Às 19h20, uma moto trazendo duas pessoas estacionou perto de Thúlio. De costas para a rua, o estudante nem se deu ao trabalho de voltar o olhar: o homem que estava na garupa se aproximou e disparou dois tiros de pistola contra a nuca de Thúlio.
Um ano depois, familiares e amigos percorreram o centro da cidade numa pequena caminhada de protesto. Os disparos dados por engano em Thúlio não resultaram em justiça. O pouco que se sabe é que as balas estavam endereçadas a alguém da lanchonete, dono ou funcionário, cujas semelhanças físicas com o estudante deixam margem a enganos. Ambos negros, jovens, cabelos curtos e fortes. Involuntariamente, Thúlio entrou para a estatística da violência contra jovens negros.
“Meu filho era estudioso, tinha tudo para vencer na vida”, chora Luzemira Vale da Silva Pinheiro, 60 anos, na pequena casa de conjunto do Geraldo Palmeira. O quarto de Thúlio permanece sem ser ocupado. Era o refúgio dele quando passava as temporadas em Ananindeua. Thúlio havia passado o ano anterior ao da morte exercendo a profissão em municípios como Tomé-Açu, Acará e Bragança.
Decidido a morar em tempo integral com os pais, Thúlio ia encarar uma prova no dia 18 de novembro. A revisão de conteúdo na véspera, o dia em que foi assassinado, era o último esforço antes do exame. Thúlio saiu para a aula se despedindo do pai, José Marçal dos Santos Pinheiro, 51 anos. Foi ele quem recebeu a ligação da polícia informando sobre o crime. O relógio no celular marcava 22h45. “Tenho uma triste notícia para lhe dar”, disse o policial civil do outro lado da linha. O corpo de Thúlio já estava no Instituto Médico Legal.
A mãe Luzemira estava no aniversário de um parente. Inquieta, com algo espezinhando internamente. Ligou quatro vezes para saber de Thúlio. Marçal havia feito a mesma coisa, estranhando a demora do filho. “Fiquei atordoado quando soube”, conta o pai.
Luzemira e Marçal perderam o rumo da própria vida. “Fica uma revolta tão grande. A gente luta tanto, cria com tanto carinho”, diz Luzemira. Até hoje ela consulta médicos e psicólogos. “Vivo porque tenho de viver, mas acabou tudo, sai metade da gente, vai embora”, lamenta.
Uma parte da revolta é por conta das resoluções do crime. Sabe-se que foi por engano, mas ninguém foi preso, mesmo com a conclusão do inquérito. A última ida de Luzemira para obter informações sobre o caso na Polícia Civil coincidiu com o dia seguinte ao tiro sofrido pelo delegado-geral de Belém. Em menos de 48 horas o caso do delegado foi resolvido.
Morto duas vezes
Morto e condenado depois de assassinado. É assim que Elaine Monteiro, 42 anos, vê a morte do filho, Júnior (a mãe pediu para preservar o nome completo dele) quatro anos atrás. Júnior foi morto em Icoaraci, no conjunto da Cohab, a facadas por três jovens que lhe queriam roubar a moto. Era o dia 21 de novembro, domingo do Círio de Icoaraci. Seis da manhã.
A noite anterior havia sido de vigília para Elaine Monteiro. Sem conseguir dormir, na intuição materna de que algo estava errado, tentava se apegar ao nome do bairro-invasão onde morava desde que saíra da Terra Firme. “Fé em Deus” era o que a mantinha.
Às sete da manhã, quando bateram à porta dela, Elaine orava. A televisão já havia sido ligada e desligada várias vezes. “Achei que era meu filho voltando”. Não era. O que Elaine viu depois não deseja a ninguém. “Nem ao pior inimigo”. O corpo de Júnior estava coberto por um jornal, repleto de facadas, de peito para cima, sem marcas de sangue. Tinha 17 anos. A mãe se agarrou ao filho, assim como no enterro quis se jogar na mesma cova. O filho foi morto duas vezes, segundo ela. A outra morte veio da imprensa, imputando ao adolescente negro um passado criminoso.
Elaine tentou tirar a própria vida em cinco ocasiões. Quatro anos depois, ensaia novo capítulo. Casou novamente, com uma pessoa da mesma igreja que passou a frequentar. A união gerou um filho, Yossef Emanoel, ou ‘enviado por Deus’ ou ‘árvore frutífera’. Elaine voltou a comer, a dormir, a amar. Durante dois anos foi amparada por psicólogos e remédios. Alguém tinha de estar sempre perto dela. O problema é que não era Júnior.
(Diário do Pará)
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