Segundo a delegada da DRFV, o esquema de roubo de veículos envolve pelo menos seis pessoas e acontece em várias etapas: duas ou três pessoas cometem o assalto na rua, em seguida, o carro ou moto que não possuem GPS (Rastreamento Via Satélite) é guardado em lugar escondido em via pública no prazo de 48h no intuito de perceber se há ou não rastreador, se houver, o proprietário acredita que encontrou o carro abandonado, mas na verdade, ele estava sendo testado e ninguém é preso. O terceiro passo, caso o dono não o recupere após o prazo, é a adulteração, a placa, chassi, motor, vidro e documentos são modificados, às vezes a cor do veículo também é mudada.
Com o automotor totalmente modificado, entra em ação o integrante do bando que é responsável por vendê-lo. O destinatário final, aquele que compra e circula, pode ser que saiba ou não sobre o crime que está cometendo, o de receptação.
CAMINHOS
Quando o destino é o receptador, os veículos roubados na capital são levados para o interior do Estado, como a Ilha do Marajó, ou mesmo na transamazônica, onde a fiscalização é menos ou quase nula, pois esse é o objetivo. Se a quadrilha tiver a intenção de vender em fora do território paraense, os Estados do Maranhão e Piauí possuem os maiores índices de receptadores de carros e motos roubados no Pará, e cada região dessas existe um integrante a mais da quadrilha especializada. As fiscalizações são realizadas nas estradas federais e estaduais, porém, as quadrilhas encontraram caminhos de acesso entre alguns municípios ainda da Região Metropolitana de Belém para “furar” as barreiras e não serem descobertos. “A única razão para o clone é se tiver com registro de roubo. Mas em qualquer parte do país, a polícia identifica que há o roubo, furto ou ainda o dublê”, acrescenta Leal.
Outro destino é o desmanche. Se for esse o objetivo, dificilmente o veículo é levado para outro Estado, já que a ideia é vender todas as peças, exceto aquelas que possuem identificação como motor, chassi, vidro e placa. “Esses lugares onde são realizados os desmanches são escondidos, mas só existem por que há quem financie”, explica. “Eles tiram apenas as peças que tem a numeração original justamente para não conseguirmos realizar o flagrante durante as fiscalizações”. Esses galpões são descobertos a partir das denúncias.
Ainda segundo a delegada, os veículos destinados para desmanche, são populares, já que o objetivo é fornecer peças para a massa. Carros das marcas e modelos Palio, Celta e Gol, de maior circulação, são os veículos mais visados, inclusive cores como branco, preto e prata também influenciam. Dificilmente carros importados chegam nesses locais, nesse caso eles são transformados em dublê.
Flávia Leal acredita que para tentar prevenir esse patrimônio material, o rastreamento via satélite ou proteção das seguradoras podem ser caminhos viáveis, por outro lado, mudar esse quadro, é necessário um trabalho mais intensificado, a longo prazo, que atinja vários setores da sociedade, um trabalho não apenas da polícia, mas de outros órgãos e, sobretudo, de políticas públicas.
No caso do aposentado Nonato Oliveira, 62 anos, ele teve o carro roubado no dia 24 de outubro do ano passado no bairro do Curió - Utinga. Ele foi resgatar o filho, 33, que estava no ‘prego’ em plena avenida João Paulo II, por volta das 23h, quando foi surpreendido por dois assaltantes armados. Os bandidos obrigaram o homem entregar o veículo, exatamente com as características mais procuradas por eles: popular – Fiat Uno prata.
Sem seguro e nenhuma informação que pudesse ajudá-lo a encontrar o carro, Nonato registrou o roubo na DRFV. Mas somente no mês de fevereiro deste ano, durante uma operação feita pela Polícia Civil na Ilha do Marajó – um dos destinos desses veículos – o automóvel do aposentado foi localizado de posse de uma quadrilha especializada nesse tipo de crime. A placa do Uno foi clonada, pertencia a outro carro que circulava em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. Nonato teve o carro de volta.
(Diário do Pará)
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