O que era uma pacata cidade de interior, lugar adequado para criar os filhos com segurança e contato direto com a vida rural, se tornou um local de medo e insegurança. Com aproximadamente 60 mil habitantes, no município de Igarapé-Miri, região nordeste do Estado, o clima tenso de cidade grande ronda entre os moradores. Hoje, a população não tem mais o tradicional hábito de conversar na porta de casa e o lugar mais seguro é atrás de suas próprias grades.
Depois de diversas denúncias de casos de violência, a reportagem do DIÁRIO esteve na cidade nos últimos dias para confirmar as informações repassadas pelos próprios moradores. “A situação aqui está crítica. As pessoas morrem do nada e os bandidos matam brincando. Igarapé-Miri já é terra sem lei. As gangues tomaram conta da cidade e ninguém faz nada. A polícia fecha os olhos para os descasos, enquanto isso, pessoas inocentes estão morrendo e os pais enterrando crianças que poderiam estar brincando”, lamentou a professora Rosa Cunha (nome fictício).
No último dia 16, um adolescente de 13 anos brincava com outras crianças na porta de sua casa, no bairro Padre Emílio, quando foi surpreendido por disparos de armas de fogo, provocado por integrantes de gangues rivais que estavam brigando entre si. Um dos tiros acertou o jovem, que foi encaminhado para o Hospital de Urgência e Emergência Metropolitano, em Belém. Após sete dias internado, ele não resistiu e morreu.
Um familiar do adolescente conversou com a reportagem, mas por motivos de segurança preferiu se manter no anonimato. “Ele estava na rua da casa dele, brincando com os amiguinhos, enquanto vários bandidos trocavam tiros e um deles matou um inocente, uma criança adorável. Depois do que aconteceu, a polícia não fez absolutamente nada. Os criminosos estão à solta. Eles andam com arma na cintura e todos ficam de cabeça baixa pra eles, com medo de morrer”, contou.
IMPOTENTES
De acordo com a testemunha, os autores dos disparos foram identificados apenas como “Marcelo” e “Jacó”, moradores do bairro Cinco Bocas, na região periférica da cidade. Eles são conhecidos por praticarem assaltos constantes na região. “Depois que eles atiraram, foram embora na maior tranquilidade e até agora não foram presos. Todo mundo viu que eles foram os responsáveis. Mas, o que podemos fazer se não ir à delegacia? Estamos impotentes. Com medo de qualquer momento levar um tiro na cabeça, sem nenhum motivo. Precisamos de proteção, não podemos mais viver assim, inseguros”, questionou.
O corpo do adolescente foi enterrado no último dia 25 de agosto, no cemitério da cidade. No cortejo fúnebre, dezenas de pessoas levaram cartazes e faixas com pedido de paz e justiça no caso. Em estado de choque, a mãe não aguentou ir ao enterro do filho. “Ela está muito mal, pensa que é um sonho e que depois vai acordar ao lado dele. Apenas o pai acompanhou o enterro, sofrendo muito. A família não vai superar a dor e o mínimo que esperamos é um pouco de justiça”, completou.
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(Diário do Pará)
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