Já chega a dez o número de mortos relacionados ao assassinato do cabo da Rotam, o PM Figueiredo, mais conhecido como “Pety”, ocorrido na última terça-feira. A 10ª vítima foi identificada como Arlesonvaldo Carvalho Mendes, 37 anos, que foi alvejado com cinco tiros na Terra Firme, durante a onda de ataques nos bairros periféricos de Belém, cometidos por suposta retaliação pela morte do PM.
De acordo com familiares, a vítima era portadora de déficit cognitivo, que causa alterações em funções mentais. Por esse motivo, Arlesonvaldo tinha dificuldade de memorização, de aprendizagem e apresentava problemas na fala. Mesmo assim, não foi dispensado pelos executores. Ele estava próximo a sua residência, na passagem Freijó, por volta das 23h, quando foi abordado por vários homens encapuzados a bordo de motocicletas. “Eles foram desumanos e covardes ao tirar a vida de um homem de 37 anos, mas que tinha a mentalidade de uma criança”, criticou Anderson Mendes, irmão da vítima.
Apesar dos disparos, Arlesonvaldo não morreu na hora. Ele era uma das três vítimas que sofreram ferimentos em consequência dos ataques que aconteceram na noite sangrenta de terça-feira (4) e foram socorridas e levadas com urgência ao Hospital Metropolitano. De acordo com relatos de familiares, o jovem deu entrada no hospital por volta de 2h30 da madrugada de quarta-feira, porém, só recebeu atendimento por volta das 7h. Ele chegou consciente ao hospital e algumas horas depois foi operado, mas não resistiu aos graves ferimentos e acabou vindo a óbito no início da noite do mesmo dia.
“Ele morava com os pais dele em Ananindeua, mas gostava muito da Terra Firme porque nasceu lá e também tinha os amigos e familiares no bairro. Então, na terça-feira, ele alugou um kit-net e à tarde foi pegar a chave. Ele estava muito feliz, a mãe dele ainda disse para ele não ir, mas era o que ele queria. Como ele tinha esse problema, a mãe dele conseguiu aposentar e ele recebia um benefício. Com esse dinheiro ele alugou o quarto. Durante o dia, ele trabalhava como ajudante de pedreiro e fazia bicos em um depósito. Todo mundo gostava dele e ele não tinha envolvimento com droga nem com crime. Não fazia nada de errado”, afirma um parente da vítima.
Os familiares que estavam com Arlesonvaldo ainda chegaram a pedir para ele não sair para a rua naquela noite, pois já haviam recebido informações sobre o que estava ocorrendo na periferia da cidade. “Ele não era de sair de casa, mas quando foi à noite ele disse que ia na esquina comprar um churrasco. Pedimos para ele não ir, mas ele disse que ia rápido. Quando chegou no canto da rua, ele viu uma moto e saiu correndo, com medo, e a moto foi atrás dele. Ele pulou um muro baixo, da casa de um vizinho, deram um tiro na perna dele, e ele caiu. Depois deram mais quatro tiros e ele se fingiu de morto, bateram foto dele e foram embora”, relata o parente de Arlesonvaldo.
CASO BÁRBARO
“Esse caso foi bárbaro, entraram nas baixadas matando quem vissem pela frente”, concluiu Anderson Mendes. A vítima recebeu um tiro na perna, uma na nádega, um no pescoço, um no tórax e um no abdômen, totalizando cinco disparos. Segundo os familiares, além de Arlesonvaldo, mais um jovem foi baleado naquela rua. “Quando fomos socorrê-lo, apareceu um celta preto que parou e do carro gritaram que iam matar todos que estivessem socorrendo. Estamos sofrendo ameaças”, disse um familiar da vítima que preferiu não se identificar.
O crime chocou também toda a comunidade da escola que Arlesonvaldo frequentava. Três professoras da vítima esperavam a chegada do corpo do jovem para ser velado em uma igreja localizada na avenida Duque de Caxias. Izete Martins era professora de Educação Especial e ensinou Arlesonvaldo a ler e a escrever. “O comportamento dele era excelente, era participativo, querido por todos, e apesar da dificuldade, ele era muito inteligente. A gente conhece a integridade, era um aluno de boa índole. Ele falava como uma criança. Ele fazia pequenos textos e depois que ele foi à escola ele ficou mais desinibido. Paralisamos as aulas hoje, pois toda a escola está de luto”, lamenta a professora Izete.
(Diário do Pará)
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