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Uma noite para nunca mais esquecer

domingo, 09/11/2014, 10:03 - Atualizado em 09/11/2014, 11:03 - Autor:


Para moradores das áreas centrais e condomínios fechados da grande Belém, o que se sobressaiu na noite da última terça-feira pode ter sido apenas a boataria amplificada pelas redes sociais dando conta de uma matança pelas ruas da cidade.


Para os moradores da periferia, o pânico foi real e cercado de motivos. O dia 5 de novembro será uma noite difícil de esquecer e, para as famílias das vítimas, ficaram cicatrizes ainda mais profundas.


Dona de um pequeno mercado no bairro da Terra Firme, G. S. F, 36 anos, acordou com o barulho de tiros e os burburinhos que vinham da calçada. Abriu de mansinho a janela dos altos da casa ainda a tempo de ver Jefferson Cabral dos Reis, 27 anos, dar os últimos suspiros.


Do lado de fora, moradores temiam se aproximar do corpo. Um grupo de motoqueiros armados, encapuzados teria sido o autor do crime. A poucos metros dali, estavam a mulher de Jefferson, Diana, e a sogra, Marilene Brandão; a primeira a ter coragem de sair de casa e ir ver o que tenha acontecido.


Marilene encontro Jefferson ao lado da bicicleta que usava para levar a namorada da escola no Guamá até a Terra Firme. “Parecia um animal”, conta emocionada. “Quando eu já estava pegando a bicicleta, vi um grupo de motoqueiros passar chutado.


Eu e três rapazes que estavam lá, saímos correndo e entramos num beco. Só voltamos para ver o corpo depois que uma vizinha ligou e chegou um carro da Polícia”, relatou Diana.


Jefferson morava em uma casa de apenas um cômodo no bairro do Guamá, nos fundos de um terreno cheio de pequenos barracos. Trabalhava em um supermercado e há oito meses, estava afastado para o tratamento da hanseníase, doença típica da falta de saneamento, que passa longe do quarto e banheiro onde Jefferson morava.


À noite, costumava ir à escola Francisco da Silva Nunes, no Guamá, apanhava a namorada e a levava de bicicleta até a Terra Firme onde Diana voltara a viver com os pais, após uma crise conjugal.


Na terça-feira, Jefferson não chegou de volta ao Guamá. A mãe dele, Maria das Graças já tinha ouvido informações de que a cidade àquela noite estaria mais violenta que de costume após a morte de um cabo na Terra Firme.


Ainda ligou para o filho pedindo que ele dormisse na casa da namorada, mas Jefferson prometeu ir rápido e direto para casa. “Meu filho era um trabalhador, não era vagabundo”, repete Maria do Carmo, mostrando o uniforme de trabalho de Jefferson para quem chega à casa dele.


A preocupação da mãe com a boa imagem do filho é perfeitamente justificável. Na noite dos crimes, comentários nas redes sociais, louvavam a possível “limpa” que estaria sendo feita pela Rotam como vingança pela morte do Cabo, hipótese que ainda está sendo investigada. 

Bruno Gemaque, 20 anos, cobrador de van costumava acordar cedo, antes das 5 da manhã. Fazia o primeiro turno, voltava para casa por volta de 11 horas e à tardinha voltava para o trabalho.


Na terça-feira, estava de folga e resolveu ir buscar a mulher, Luana, na escola. Eles viviam juntos havia poucos meses. Antes, Bruno morava com uma tia. Natural do Acará, ele chegou a Belém ainda adolescente para procurar trabalho e estudar. Na noite de terça-feira foi executado.


Testemunhas disseram ter ouvido quatro tiros. Luana estava com Bruno. Homens com carapuças avisaram para ela se afastar e começaram a atirar. “Não perguntaram nada. Não deixaram ele se defender”, diz a prima do rapaz que não quis ter o nome publicado no jornal.


Na tarde de quinta-feira, durante a visita do Diário, a família estava trancada em casa. Os vizinhos evitavam falar do assunto e mesmo os que moravam ao lado diziam não saber onde ficava a casa da tia do rapaz.


A prima de Bruno conta que tão logo a notícia de que a vítima dos quatro tiros ouvidos na rua era Bruno, a família entrou em desespero, mas não saiu de casa temendo novas mortes. “Quando a gente estava para sair, vimos um carro passar e corremos de novo para casa. Só depois o pessoal criou coragem de ir lá”.


Eduardo Chaves, 16 anos, estudava e trabalhava na Ceasa três vezes por semana. Na noite da terça-feira, teve a infelicidade de sair de casa. Ia encontrar a namorada, mas mal saiu e foi alvejado. Novamente os mesmos relatos de que motoqueiros encapuzados seriam os autores dos disparos.


“Ele era um rapaz bom. Perder alguém jovem assim. A família está abalada” conta Lucas Rodrigues, tio de Eduardo.


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(Diário do Pará)

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