Passado um mês da madrugada mais sangrenta da história recente de Belém, o clima de tensão permanece em bairros da periferia como a Terra Firme, onde ocorreu a maioria dos dez assassinatos da noite de 4 de novembro e madrugada do dia 5. Para os familiares das vítimas, restou a saudade e o medo de falar a respeito.
Na tarde de ontem, as famílias definiam detalhes da missa de 30 dias pela morte dos parentes. A dor da perda ainda é forte. Irmão de um dos rapazes assassinados próxima à passagem Ligação na Terra Firme, o vigilante A. M reclama que até o momento não houve qualquer resposta para as perguntas quem matou, por que matou e qual a punição para os culpados.
Ele diz também que a família não foi procurada pelo Estado para receber apoio como prometido dois dias após a chacina pelo governador do Estado, Simão Jatene em entrevista coletiva.
Na Polícia Civil do Pará, o silêncio é total. Pela lei, o inquérito policial deve ser concluído em 30 dias, mas pode ser prorrogado. Ontem, a equipe responsável pela investigação não quis confirmar se haverá pedido de prorrogação. Em nota, a Polícia Civil limitou-se a afirmar que “prosseguem as investigações” e que “o objetivo é identificar e responsabilizar os autores de cada crime, e apurar se existe vínculo entre os casos e se as mortes têm relação com o assassinato do policial militar.
As investigações estão sob sigilo, mas a equipe garante que já foram ouvidas dezenas de testemunhas. Além do inquérito civil, o caso é apurado pela Justiça Militar que tem prazo de 40 dias para concluir o inquérito, mas também pode pedir prorrogação.
O promotor que comanda as investigações, Armando Brasil, disse que certamente pedirá mais prazo em razão da complexidade do caso. Brasil também não quis adiantar os rumos da investigação.
As mortes em série na madrugada na noite do dia 4 de novembro e madrugada do dia 5 começaram com o assassinato do cabo da Polícia Militar Antônio Marcos da Silva Figueiredo, conhecido como Pet. Ele foi executado em frente à casa onde morava no bairro do Guamá.
Em seguida, foram registradas, pelas redes sociais, convocações feitas por supostos policiais para vingar a morte do colega e decretando toque de recolher em bairros de Belém. Ao todo, foram onze mortos (uma pessoa foi levada para o hospital e morreu no dia 6 de novembro). Há suspeitas de que as execuções tenham sido comandadas por grupos de milicianos que já atuavam nos bairros da Terra Firme e Guamá.
Entre os mortos estava o jovem Jefferson Cabral dos Reis, 29 anos. Ele trabalhava na área de serviços gerais de um supermercado em Belém e estava afastado para o tratamento da hanseníase. Havia ido deixar a namorada no bairro da Terra Firme e foi morto quando voltava, de bicicleta, para a casa dele, no bairro do Guamá.
História parecida teve o cobrador de van, Bruno Gemaque, 20 anos, que também havia saído de casa para ir buscar a namorada na escola. Foi executado quando voltava. Com medo, a família ficou trancada em casa e levou horas até poder chegar perto do corpo por temer novas mortes. Os depoimentos das testemunhas indicam que os assassinatos foram cometidos por homens encapuzados que usavam um automóvel preto e motocicletas.
SÍNTESE
1 – Às 19h30, o cabo Pet é assassinado no Guamá
2 – Às 22h, Eduardo Felipe Chaves de 26 anos, é baleado e morto na Terra Firme
3 – Às 22h, Bruno Gemaque, de 20 anos, também foi baleado e morto na Terra Firme
4 – Às 22h, Cezar Augusto da Silva, de 25 anos, foi outro assassinado a tiros na Terra Firme
5 – Às 22h30, Marcos Murilo Ferreira, de 20 anos, foi baleado e morto no bairro do Marco
6 – Às 23h, Jefferson Cabral dos Reis, 29 anos, foi baleado e assassinado na Terra Firme.
7 – 0h30 de 5 de novembro, Nadson Roberto, de 28 anos, foi baleado no Jurunas. Morreu na hora.
8 – Jean Oscar dos Santos, de 33 anos, foi assassinado no Jurunas às 1h30.
9 – Alex dos Santos Viana, 20 anos, foi assassinado no Sideral às 2h.
10 – Ainda às 2h, Márcio Rodrigues dos Santos, foi assassinado no Tapanã. Tinha 22 anos.
11 - Baleado no dia 4, Arlesonvaldo Carvalho Mendes morreu no Metropolitano no dia 6. Ele foi baleado no bairro da Terra Firme
Fonte: Secretaria de Segurança Pública do Pará
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(Diário do Pará)
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