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POLÍCIA

Estudioso fala sobre desmatamento na Amazônia

Criado há 25 anos com a missão de contribuir para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), com sede em Belém, se tornou referência internacional quando estão em pauta as questões sociais, ambien

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Criado há 25 anos com a missão de contribuir para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), com sede em Belém, se tornou referência internacional quando estão em pauta as questões sociais, ambientais e econômicas da região. Sem fins lucrativos, o Imazon reúne pesquisadores que se impuseram o desafio de buscar soluções originais para conciliar preservação ambiental com melhoria das condições de vida das pessoas que moram na região de maior diversidade do planeta. Entre as atividades está o monitoramento do desmatamento na Amazônia e o desenvolvimento de tecnologias que estão ajudando a reduzir o impacto de atividades como a extração madeireira nos estados da Amazônia legal. Fundador e um dos principais pesquisadores do Imazon, Adalberto Veríssimo, 49 anos, acaba de ser escolhido, pelos leitores do jornal O Globo, um dos brasileiros que fizeram a diferença em 2014 - em lista que inclui artistas, esportistas e intelectuais. Atualmente envolvido em pesquisa para reaproveitamento de áreas degradadas e abandonadas, Veríssimo falou ao DIÁRIO sobre pobreza e desenvolvimento na Amazônia. Confira:

P: O que vocês tinham em mente quando criaram o Imazon há 25 anos? R: O Imazon ia ser um centro de referência, de pensamento e ação estratégica para a Amazônia Legal Brasileira. A gente começou a pensar no Imazon em 1988 e a criação foi em 1990. Então, a ideia do Imazon já tem 27 anos. Naquela época, em 1988 a Amazônia estava muito conturbada, tinha grandes incêndios florestais, a morte de Chico Mendes, desmatamento descontrolado, exploração madeireira. Não tinha nenhuma notícia boa. Faltava uma organização que produzisse informação de qualidade, multidisciplinar, que pudesse trabalhar na área social, ambiental e econômica, produzindo informação de relevância para os governos municipal, estadual e federal, e que também pudesse trabalhar com setor privado. A ideia era ser um centro de produção de informação qualificada sobre a Amazônia, para que essa informação pudesse chegar aos atores do setor privado, às lideranças políticas e também a agentes públicos de diferentes esferas.

P: Após 25 anos, houve mudanças nesta missão? R: Não. Continua gerando informação estratégica; divulgar essa informação amplamente para todos os segmentos e fazer isso com a maior isenção possível, buscando soluções que são originais para a Amazônia, não soluções importadas. Em 1990 a região não tinha um só hectare manejado de floresta. Madeira era só ilegal, predatória. Hoje temos 7 milhões de hectares. O que a gente desenvolveu lá atrás em 1990, em Paragominas, serviu para gerar uma mudança. O Imazon continua gerando informações para essa mudança.

P: Como a disseminação da informação contribui para mudar o modelo de desenvolvimento da Amazônia? R: Não basta publicar um artigo científico. É necessário o artigo, para ter a chancela da academia, mas não só isso. Também não basta só dar entrevista. É preciso ir ao madeireiro e fazer um projeto demonstrativo, para que ele vá à mata ver de fato como funciona uma operação manejada. Muitas mudanças acontecem com coisas demonstrativas, mas as pessoas também têm que ter boa informação. Ela tem que ser divulgada. O público faz pressão para que a madeira ilegal saia do mercado.

P: Nessas duas décadas e meia houve mudanças?R: Houve mudanças para melhor, mas isso não quer dizer que a Amazônia está equacionada. A primeira grande conquista foi a redução de 75% no desmatamento na Amazônia de 2004 para cá. Mesmo com os aumentos recentes em 2012 e 2013. Em 2014 caiu de novo. A gente estava no hiperdesmatamento na década passada. Ele caiu para um desmatamento bem menor e está oscilando em torno de 5 mil quilômetros quadrados, mas, não está voltando para 27 mil, que era o desmatamento de 2004. Foi uma grande conquista.

P: O que permitiu isso?R: As lideranças na Amazônia começaram a se preocupar com o desmatamento porque o mercado comprador de carne, de soja, de minério, de madeira, o nacional e sobretudo o internacional, começou a cobrar: ‘Não quero mais produtos contaminados com o desmatamento’. Com a pressão do mercado e da opinião pública as mudanças de políticas fizeram o desmatamento cair de maneira drástica.

P: A pressão sobre a região diminuiu nas últimas décadas? R: Há todo o debate internacional das mudanças climáticas, com esforços na Europa para trocar filtro de chaminé de fábrica, trocar energia fóssil por energia solar, energia eólica. Com todo esse esforço para reduzir as emissões, o desmatamento da Amazônia foi a maior contribuição para a redução dos gases do efeito estufa até hoje feito pela humanidade. É uma conquista muito importante. Mas a Amazônia ainda corre risco? Sim. Temos que ficar atentos: a situação não está resolvida.

P: Quais os desafios atuais à proteção da Amazônia? R: Precisamos reduzir mais o desmatamento e evitar o retorno aos patamares de 2004. Do ponto de vista social, a Amazônia melhorou muito pouco. O índice de progresso social, que a gente lançou agora, mostra que a Amazônia está muito abaixo dos avanços sociais e da economia do resto do Brasil. A participação relativa do PIB da Amazônia continua desde os anos 1980 entre 6% e 8%.

P: É uma contradição grande, levando-se em conta os elementos que ela possui...R: Esses dados são incompatíveis com a importância que a Amazônia tem para o Brasil e para o mundo. Para o Brasil, a Amazônia é fonte de energia. A gente ajuda a bancar o PIB brasileiro, produzindo energia relativamente barata e acaba pagando a tarifa mais cara, por distorções políticas. A Amazônia produz minério e ajuda na balança do Brasil. A Amazônia contribui muito, mas recebe pouco em troca. A gente está com a economia muito aquém da importância que a Amazônia tem para a própria economia do Brasil. Há muita matéria prima, muitos recursos naturais, mas isso está sendo usado hora de maneira predatória, hora sem agregação de valor ou retenção de divisas e geração de empregos. Estudos mostram que parte da chuva do centro-sul é gerada na Amazônia. Os estoques de recursos hidrelétricos e naturais são superlativos na Amazônia, mas ela não entra na agenda central do Brasil. É como se fosse um almoxarifado, onde você pode sacar recursos naturais quando precisa.

P: Como avaliar os projetos hidrelétricos já em implantação e os próximos previstos para a Amazônia? R: São projetos de cima para baixo. Não há problema de a Amazônia produzir energia, mas o Brasil precisa montar os projetos de outra forma, para que os municípios dos empreendimentos sejam de fato beneficiados, para que as economias locais sejam favorecidas e as comunidades tenham suas terras regularizadas.

P: Como avaliar o atual governo nesse cenário?R: Da redemocratização para cá, não houve mudança do ponto de vista de ação estratégica para a Amazônia, para realmente se fortalecer o desenvolvimento da região. O governo Lula teve uma preocupação maior com a redução do desmatamento e isso funcionou bem. Foram implantadas políticas importantes, indicação de unidade de conservação, avanço no combate ao desmatamento, início de regularização de terras. Mas também começaram alguns problemas, como a retomada dos empreendimentos hidrelétricos que se materializaram no governo Dilma. Não é o problema da hidrelétrica em si. Não tenho problema com hidrelétrica, desde que se responda uma série de questões primeiro.

P: Quais questões?R: O custo benefício, por exemplo, do ponto de vista ambiental, social e econômico, e se elas vão gerar oportunidade de desenvolvimento para a região. A Amazônia pode ser produtora de energia. Aliás, para ter sistema hidrelétrico, precisa-se da floresta, que é o que garante água na região. Então, se quiser hidrelétrica, precisa ter rio e floresta. Nas últimas eleições a menção à Amazônia ocorreu em um debate ou outro, mas coisa esporádica, quando mencionava Belo Monte. Mas ninguém falava que a Amazônia precisa ser desenvolvida de maneira sustentável. P: Como tem sido a atuação do Imazon hoje? R: A Amazônia é um grande ativo para o País em termos de recursos naturais. Então, é um pouco do trabalho do Imazon, por exemplo, chamar a atenção do resto do Brasil e do mundo para a importância social, ambiental e econômica que a Amazônia tem. E essas três coisas precisam andar juntas.

Não adianta o Imazon ser uma instituição que vai focar em proteger só a floresta.Isso não vai funcionar. Por isso estamos envolvidos em várias coisas, que têm a ver com a agenda econômica, a agenda social e a agenda ambiental. O Imazon não é uma ONG ambientalista. É uma instituição de pesquisa voltada ao desenvolvimento da região, que pressupõe manutenção da floresta e dos recursos naturais, mas com a melhoria da qualidade de vida das pessoas. A gente tem que produzir tudo, carne, minério, soja, energia, dendê, produtos da agricultura familiar, com a menor pegada ecológica possível. Ou seja , produzir com menos carbono, sem desmatar, aproveitando as áreas que já foram desmatadas. No futuro será inaceitável produzir qualquer coisa com desperdício de água. Sou razoavelmente otimista. Acho que Amazônia tem um papel que não pode ser ignorado pelo tamanho geográfico dela e pela importância crescente dos seus serviços ambientais nacionais e planetários. A gente tem que dar ressonância às necessidades da região, que precisa se desenvolver. Desenvolvimento é necessário para garantir a proteção da floresta.

Isso não é bem entendido por todos. É como se Amazônia tivesse só um papel ambiental. As pessoas não vão proteger a floresta miseráveis, subdesenvolvidas e morando em áreas precárias como as cidades amazônicas, todas com problemas sérios de saneamento, educação, segurança.

(Diário do Pará)

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