Acena é, ao mesmo tempo, assustadora e lamentável. Um grupo de pessoas espanca um jovem franzino, que aparenta ter 18 anos ou menos. Seria, portanto, um adolescente. São chutes, socos, joelhadas e outros tipos de agressão praticados por três, quatro, cinco desconhecidos contra apenas um garoto. Após dez minutos de espancamento, dois policiais militares chegam e salvam a vida do rapaz.
É quando ficam sabendo o motivo da selvageria: junto com outros dois homens, o rapaz teria tentado cometer um assalto, no bairro do Paar, em Ananindeua, região metropolitana de Belém. E as vítimas seriam um policial militar e o irmão dele.
O rapaz que apanhou teria tentado atirar no PM mas a arma falhou duas vezes. Os dois outros supostos ladrões fugiram e ele ficou, sendo alvo da fúria de moradores do bairro, que quase o lincharam. Toda a ação ocorreu no bairro do Paar, em 23 de fevereiro desse ano. E o que aconteceu com os agressores do acusado? Nada. Cada um voltou para sua casa, o rapaz foi levado à Seccional Urbana da Cidade Nova onde foi reconhecido pelo policial militar que teria sofrido o crime e a “normalidade” voltou ao local, após uma quase consumada sessão de “justiça pelas próprias mãos”.
O caso acima já se tornou corriqueiro, tanto em Belém quanto no interior paraense. E por que acontece? O que leva cidadãos comuns a, de um momento a outro, se revestirem de poderes “justiceiros” e tomarem para si a tarefa de punir outra pessoa que comete um crime?
“As pessoas só fazem isso porque ninguém mais tem confiança na justiça. Hoje a polícia prende e no outro dia o cara está solto”. A opinião é do empresário Carlos Raposo, 47 anos. Essa sensação de descrença é compartilhada por outras pessoas. É o caso da também empresária Rosana Araújo, 54 anos, para quem o ato de “justiçar” uma pessoa indefesa é intolerável. “Não concordo mesmo. Mas acontece que a insegurança é muito grande e a população está no seu limite. As pessoas estão com medo de tudo e muitas vezes acabam se excedendo”, diz Rosana Araújo.
EXTRAPOLOU
Nesse extrapolar pela “justiça”, nem sempre as vítimas do espancamento suportam os suplícios. No dia 7 de março de 2015 a cena voltou a se repetir, dessa vez em Marituba, na região metropolitana de Belém. Dois rapazes apanharam e um deles morreu, sendo que o outro foi socorrido e hospitalizado.
A acusação: teriam cometido um assalto em Marituba. Um dos suspeitos levou vários chutes nas costas, dentre muitos outros golpes. Morreu no local. O segundo suspeito, também muito machucado, foi levado por policiais militares ao Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência, em Ananindeua.
Ele recebeu atendimento médico e sobreviveu. Os acusados de espancar os dois rapazes não foram presos. O horário em que as cenas bárbaras aconteceram: 15h30, em plena luz do dia e diante de crianças, adultos e idosos, que testemunhavam, indiferentes, a atrocidade.
A insegurança nas ruas leva o cidadão comum à perda da confiança na segurança pública e, por consequência, estimulado por outros cidadãos cansados de ser vítimas da criminalidade, se torna protagonista da “barbárie”. Assim que, na ótica do cidadão, falham os mecanismos de segurança que ele ajuda a manter ao pagar tributos, entra em campo uma espécie de “tribunal de júri”, onde o linchamento é a pena máxima para o crime praticado. Essa é a visão do sociólogo e professor Aiala Colares, da Universidade do Estado do Pará.
“Os linchamentos hoje demonstram que as infrações assumiram uma proporção que as definem como crime que se baseia na ‘vingança privada’, ou seja, um total descontrole do Estado Democrático de Direito que fragilizam os meios de controle social que, por sua vez, se apresentam ineficazes para harmonizar o convívio da sociedade de forma geral. Eu diria que isso é uma resposta do cidadão à insegurança”, complementa Aiala. Em meio a esse quadro sombrio de descrença no sistema de segurança pública, há cidadãos que dão voto de confiança às instituições que zelam pela proteção do direito à segurança. É o caso do açougueiro Abdon Nery Pinheiro, de 65 anos. Para ele, que admite estar vivendo em meio a um caos de violência, ainda há muita gente “que não perdeu a credibilidade na polícia. Mesmo assim quando algumas pessoas pegam o bandido, querem fazer justiça com as próprias mãos”. Pinheiro diz ser radicalmente contra esse tipo de atitude.
(Sérgio Augusto/Diário do Pará)
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