Devidamente escondido no fundo da bolsa ou entre o cós da calça e o corpo, o celular começa a tocar. Imediatamente, o instinto e a curiosidade levam a mente a se questionar: Quem será? E se for urgente? É neste momento que se estabelece o impasse pelo qual já passou muita gente que anda pelas ruas e nos transportes coletivos de Belém. Levar o aparelho à orelha e dar sentido à razão para qual o telefone móvel foi inventado é também um ato que pode colocar em risco a própria segurança.
Vencida pela necessidade de atender a uma ligação importante, a autônoma Keila Farias, 29 anos, não conseguiu concluir a conversa antes que dois homens montados em uma moto a abordassem em plena via pública. Forçada pelo uso de uma arma de fogo a entregar o celular recém-comprado, a mulher se viu, pela terceira vez, diante do trauma de ser ameaçada por assaltantes em decorrência de um aparelho eletrônico que cabe na palma da mão. “Não tem mais o que fazer pra evitar assalto. Nada adianta!”.
Já tendo perdido três aparelhos da mesma forma, as experiências de Keila são o reflexo de uma realidade estampada, ironicamente, por um aplicativo desenvolvido justamente para celulares. Sem que se tenha conhecimento de dados oficiais que apontem a realidade, através do site ‘Onde fui roubado’ – que possibilita que vítimas de assaltos de cidades de todo o Brasil registrem o local, a data, o horário e os objetos que foram levados – é possível identificar que, de todos os crimes registrados por usuários, o objeto mais visado pelos criminosos é exatamente o celular, seguido por carteiras e bolsas e mochilas. Somente em Belém, já são 311 registros de celulares roubados, desde janeiro de 2012, quando a plataforma foi criada.
Se considerarmos que nem todas as vítimas de roubos e assaltos chegam a fazer a inscrição no aplicativo ou mesmo a procurar os meios oficiais para registrar um Boletim de Ocorrência, não é difícil deduzir que o número de aparelhos furtados ou roubados seja, na verdade, muito maior. Ainda que ela própria nunca tenha sido abordada por assaltantes, a cozinheira Nazaré Ferreira, 49 anos, conhece bem a realidade de quem já foi vítima. “Meu filho já foi assaltado três vezes. Em todas as vezes foi a mesma coisa: eles chegam armados e vão logo pedindo o ‘aparelho’”.
Quem já sofreu assaltos, certamente já conhece o significado do termo evidenciado por Nazaré. Independente do que se tenha dentro da bolsa, na primeira abordagem, geralmente a exigência é pelo dito ‘aparelho’. “É só o tal do ‘aparelho’ que eles querem. É o principal alvo deles”, acredita Nazaré.
Delegado da Polícia Civil do Estado do Pará e titular da Delegacia da Cidade Nova, em Ananindeua, Adelino Souza acredita que o foco dos criminosos nesses objetos de ‘pequeno’ valor está diretamente relacionado ao consumo de drogas. “Não é uma criminalidade organizada, então, buscam pequenos valores para pagar a sua droga, ir para festas nos finais de semana...”.
MAIOR VALOR
O delegado aponta que, diferente da realidade enfrentada anos atrás, os celulares são, normalmente, os objetos de maior valor carregados pela população nas ruas hoje. A rapidez com que eles conseguem ser roubados e a facilidade que os criminosos teriam para revender esse produto também poderia influenciar a ‘preferência’ dos criminosos. “Eles roubam celulares que custam R$900, R$1.000 e conseguem vender por preços bem mais baratos e com retorno rápido”.
Sem desconsiderar que as ocorrências de assaltos ainda estão muito altas, o delegado destaca que a polícia tem atuado em busca de identificar quem são os compradores desses objetos roubados, parte fundamental neste tipo de comércio criminoso e que dá condições para o crime continuar. Independente disso, ao sair na rua é preciso estar sempre atendo aos riscos. “O crime em via pública se oportuniza pela ocasião. O indivíduo fica aguardando uma oportunidade, então há mais chance de uma pessoa ser vítima se estiver sozinha, do que se estiver em grupo”, relaciona Adelino Souza.
Após ter sido vítima de três tentativas de assalto – todas sem êxito para os criminosos -, o estudante universitário, Wanderley Júnior, 20 anos, não deixa de praticar os cuidados mais básicos quando está em via pública. “Agora dificilmente eu atendo o celular na rua e quando preciso muito atender, sempre olho pra trás e pros lados primeiro. Infelizmente pra quem já passou por isso fica sempre o trauma”.
RECEPTAÇÃO
Comprar ou portar objetos roubados também é considerado crime. O indivíduo que compra um objeto sem buscar e confirmar a devida documentação pode infringir nas penas do crime de receptação. Se autuada em flagrante, a pessoa abordada com objeto de origem ilícita pode ser penalizada com um a quatro anos de prisão. Nos casos em que a pessoa tomou todas as cautelas e, mesmo sem saber, adquiriu um produto roubado, deverá responder culposamente pelo crime. Nestes casos, a pena é de até dois anos, podendo responder em liberdade.
BELÉM
CRIMES MAIS COMETIDOS
1º - Roubo - 239 ocorrências registradas.
2º - Furto - 105 ocorrências registradas.
OBJETOS MAIS ROUBADOS
1º - Celulares - 311 registros
2º - Carteiras - 155 registros
3º - Bolsas ou mochilas - 136 registros
4º - Documentos - 133 registros
5º - Cartões de crédito - 85 registros
6º - Relógios - 41 registros
7º - MP4 ou Ipod - 14 registros.
ANANINDEUA
CRIMES MAIS COMETIDOS
1º - Roubo - 31 ocorrências registradas.
2º - Furto - 14 ocorrências registradas.
| OBJETOS MAIS ROUBADOS1º - Celulares - 46 registros2º - Bolsas ou mochilas - 17 registros3º - Carteiras - 15 registros4º - Documentos - 15 registros5º - Cartões de crédito - 11 registros6º - Relógios - 6 registros7º - Dinheiro - 4 registros |
(Fonte: Crimes registrados no "Onde Fui Roubado")
(Cintia Magno/Diário do Pará)
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