O canal Água Cristal, que começa no Entroncamento e termina na Avenida Júlio César, no bairro Marambaia, em Belém, é o importante local de destinação final de esgoto gerado pelos moradores do bairro. Apesar dessa importância, os moradores da área do canal vivem amedrontados com o alto índice de violência que toma conta da localidade, sobretudo o número de homicídios.
O medo é materializado em fatos. Por exemplo, na última terça (9), feriado do Carnaval, Marcos Junior Soares Chagas, 23 anos, e Matheus Belém dos Santos, 18 anos, foram assassinados a tiros no local. Além desse caso, o entorno do canal já foi palco de outros homicídios, como do cabeleireiro Roberto Claudio Costa Torres, que foi morto dentro do próprio salão de beleza, em dezembro passado, localizado na passagem Samaritano, esquina com o canal, entre outros casos.
Em função disso, a reação dos moradores é de medo. Relatos de violência são comuns entre eles. “Já virou uma rotina a insegurança aqui no canal. São constantes assaltos, mas a coisa só tem piorado porque têm acontecido muitas mortes, então, imaginamos que a próxima vítima pode ser a gente ou alguém da nossa família”, disse Paulo Roberto, aposentado e morador das margens do canal Água Cristal.
O amontoado de lixo no entorno e a falta de mureta de proteção tornam o canal Água Cristal, na Marambaia, ainda mais vulnerável para ação de criminosos, que o utilizam para desovar cadáveres. (Foto: Mauro Ângelo)
Para a população da área, a insegurança à falta de policiamento para combater a criminalidade. “Não vemos viaturas policiais fazendo ronda pelo canal, só aparecem quando alguma coisa já aconteceu. Aqui existe muito a venda e consumo de drogas, e acredito que isso contribua para que a insegurança só aumente, já que dívida no tráfico termina sempre em morte. Enfim, se essas coisas não forem combatidas, vão só piorar”, opinou Antônio Lopes, 54 anos.
Se a segurança não é garantida por quem deveria promovê-la, restou aos moradores garantirem a si próprios. “As grades aqui na minha casa não são enfeites, e sim, proteção. Como dizem, nós que somos presos e os criminosos estão soltos. Se não temos a nossa segurança garantida, temos que abrir mão da nossa liberdade de sentar em frente de nossas casas por causa da criminalidade e nos fechar em casa”, concluiu Tereza Lobo, 77 anos, aposentada.
ABANDONO
A violência não é o único problema sofrido pelos moradores do canal Água Cristal. O abandono soma-se com a insegurança e complica ainda mais as condições do local. Em toda sua extensão, amontoados de entulho compõe o cenário à beira do canal, além de alta vegetação e a deterioração da maior parte da mureta de proteção e a falta de iluminação durante a noite.
Para a população, o descaso com o canal reflete as causas do alto índice de ocorrências policiais no canal. “Esse descaso favorece os crimes, já que torna o local escuro e de difícil tráfego de carro, principalmente para as viaturas da Polícia. Desse jeito, não tem como a violência diminuir por aqui”, disse Laurene Pantoja, 22 anos, universitária.
A melhoria nas condições do canal e, consequentemente, a diminuição da insegurança parecem ser um sonho distante de ser realizado. “O problema do entulho, do mato e da mureta destruída do canal são antigos e nunca o poder público resolveu. É um problema simples de ser resolvido, mas nunca se importaram e muito menos da violência que tem tirado o sossego de quem mora no canal Água Cristal”, desabafou Paulo Antunes, 38 anos, pedreiro.
Procurada pela reportagem, a assessoria de comunicação da Polícia Militar não deu respostas aos questionamentos, até o fechamento dessa edição.
(Alexandre Nascimento/Diário do Pará)
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