Os pais de Kayo agora convivem com a dor e com a saudade do filho (Foto: Daniel Costa)
Segundo pesquisa do sociólogo Júlio Weiselfiez, autor do Mapa da Violência no Brasil, o número de mortes por arma de fogo em Belém dobrou nos últimos 10 anos. Todos os dias, mais pessoas perdem sua qualidade de indivíduos para se tornarem estatísticas. Hipnotizados pelo ritmo incessante das tragédias (muitas vezes vendidas como entretenimento pela mídia), pessoas naturalizam essas mortes, tratando cada vítima como algo menos que um ser humano. Um caso recente escapou dessa ótica.
Kayo Nixon Gomes Vilas, 16, era atleta das divisões de base do Clube do Remo, e passou também pelo Paysandu. As paixões futebolísticas causaram a curiosidade em conhecer a vítima e a história de um jovem dócil e adorável, fuzilado na frente da casa dos próprios tios, no último dia 11, numa rara comoção. “Acho que, se não fosse pelo futebol, muita gente não ficaria sabendo, nem se importaria com a morte do meu filho”, comenta, de forma melancólica, seu pai, James Nixon Vilas.
A violência ceifa diariamente sonhos, sentimentos e esperanças. E, como foi com Kayo, cada número esconde uma história. Enquanto sua família segue em busca de justiça e a sociedade cobra medidas mais eficazes para esse grave problema social, vamos conhecer de perto a história interrompida desse talentoso aspirante a atleta profissional.
GAROTO EXEMPLAR
Negro, natural de família humilde e morador da periferia. O menino Kayo parecia, aos olhares alheios, o estereótipo da pessoa que se envolve com o crime, o que não poderia estar mais errado. Filho de um relacionamento de 27 anos entre James, 45, e Ane Kelly Gomes, 36, o menino vivia com os pais e seus dois irmãos, Kauan, 8, e Gabriel, 4, com os pais, no bairro da Pedreira. Embora o bairro ainda conviva com problemas de segurança, o trecho sempre foi considerado tranquilo.
Tranquilo também era o jeito de Kayo. Reservado, se soltava mais no meio dos amigos e na hora da bola. “Ele nunca se envolveu em confusão, era até meio medroso. Quando a gente saía, vivia agarrado com a gente e quando tinha alguma confusão era o primeiro a correr e se esconder”, relembra a prima Luana Gomes.
Apesar da cara de garoto, já frequentava o segundo ano do ensino médio na Escola Salesiana do Trabalho. Sua mãe relembra que, além de nunca ter repetido disciplina, ele tinha um curso de informática e mirava, em 2017, começar uma preparação específica para entrar na universidade. “Ele adorava a área de computação e educação física. Queria ser atleta, mas também se preparava para continuar estudando”, comenta a mãe, Ane Kelly.
UM AMIGO PARA TODAS AS HORAS
Em meio a lágrimas e semblantes graves, a cadeira vazia do aluno da sala 204 do ensino médio traz lembranças fortes aos colegas. “Eu até hoje não consigo entender. PAra mim, o meu amigo vai ser sempre sinônimo de alegria, sorrisos, gentileza. Uma pessoa que escutava e apoiava. O melhor amigo que eu poderia ter.
Não consigo aceitar”, comenta, entre lágrimas e soluços, Paola Dias, 16. Remanescente da turma do primeiro ano, era uma das colegas que há mais tempo estudava com Kayo e uma de suas melhores amigas. “Quando uma pessoa tem uma vida tumultuada, se envolve com coisas erradas, o crime... Você meio que imagina que uma hora ela pode morrer por isso. Mas isso não existia com o Kayo. Ele era muito centrado, nem participava de festas e, quando alguém oferecia uma bebida, ele dizia: ‘Não posso, sou atleta’”, relembra Beatriz Tapajós, 16, outra colega de longa data.
“Dentro de uma escola, os professores ficam sabendo quando algum aluno faz algo de errado, como se envolver com drogas, violência... Mas com ele isso nunca existiu. Era um aluno exemplar e representava muito bem o colégio nos esportes”, comenta Andrea Gabrielle Cardoso, diretora do colégio Salesiano.
Kayo Nixon, um garoto que sonhava em ser jogador de futebol, teve o futuro ceifado por um crime que comoveu a cidade neste mês de novembro (Foto: Reprodução)
CRAQUE EM FORMAÇÃO
Torcedor azulino de berço, o encanto pelo futebol começou ainda cedo na vida do jovem, assistindo e acompanhando o time do coração. Com o tempo, além da paixão pelo Clube do Remo, veio a paixão pelo esporte. “Gostava muito do futebol do Cristiano Ronaldo. Batia fotos imitando as comemorações dele e começou a praticar muito o chute a distância por conta disso. Chutava muito bem”, relembra James.
Contagiado pela empolgação do menino, o pai o levou para praticar o futsal num projeto esportivo do colégio, em turno contrário. Segundo o professor Matheus Miranda, 51, ele “sempre se destacou. Dava a sensação que ia se tornar jogador mesmo, como estava se preparando pra ser. Aqui, ainda novo, começou a defender a escola em competições. Mesmo depois que ele começou a treinar no campo ele dava um jeito de conciliar. ‘Não se preocupem, eu dou um jeito’ ele dizia”.
A vida como atleta mudou um pouco a relação com os colegas. “Ele às vezes dava umas broncas, umas chamadas de atenção na gente na quadra. Mas era sempre no sentido de orientar, ajudar a gente a melhorar. Como ele estava convivendo com rotina de atleta e treinos, acabava chegando mais preparado”, relembra o colega João Victor, 17.
NO PAYSANDU
Após alguns anos treinando na Escolinha do Flamengo, onde se solidificou como meio-campista, Kayo teve a oportunidade de fazer um teste aos 11 anos de idade para o sub-13 do Paysandu. O técnico Ronaldo Couto, o lendário Nad, lembra-se do teste e que gostou do que viu no garoto. “Muita habilidade, inteligência demais dentro de campo. Era meio franzino, tanto que até o final ainda tinha cara e jeito de criança, mas tinha muito talento”, relembra o técnico, que o treinou nas categorias sub-13, onde foi campeão, e sub-15.
Sempre acompanhado do pai nos treinos, o garoto encontrou uma barreira na migração do sub-15 para o sub-17. “Pelo tipo físico, ele ainda não estava pronto. Colocamos ele no nosso time sub-16, e íamos prepará-lo para o ano seguinte. Mas ele teve um teste no Remo, foi aprovado e migrou na metade do ano”, relembra Nad.
NO REMO
“Nunca me esqueço do dia que ele fez o teste”, relembra Pedro Henrique, técnico do sub-17 azulino. “Em apenas 20 minutos ele foi aprovado. Era um talento bruto, para ser lapidado”, diz.
Pedro descreve seu atleta como um meio de campo ambivalente, que jogava tanto pelas pontas como cadenciando o jogo. Tinha drible curto e passes muito bons. Na partida contra o Cabanos, teve sua grande chance, entrando em campo e marcando um gol.
“No dia seguinte, ele chegou na escola dizendo ‘gente nós vencemos por 10 a 0 e foi a maior emoção da minha vida! Se Deus quiser contra a Tuna eu entro de novo, vou fazer mais um e vou dedicar pra vocês! Vamos pra final no Mangueirão!’”, relembra a amiga de colégio, Beatriz.
O clássico contra a Tuna Luso, válido pelas quartas de final do torneio sub-17, se tornaria o jogo que ele nunca jogaria.
(Taion Almeida/Diário do Pará)
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