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POLÍCIA

Delator de massacre diz que policiais não queriam "ninguém vivo”

Um delegado e um investigador da Polícia Civil que participaram da operação em Pau d’Arco fizeram delação premiada ao Ministério Público do Estado do Pará e estão colaborando para esclarecer as ocorrências da operação, que resultou na morte de dez pessoas

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Um delegado e um investigador da Polícia Civil que participaram da operação em Pau d’Arco fizeram delação premiada ao Ministério Público do Estado do Pará e estão colaborando para esclarecer as ocorrências da operação, que resultou na morte de dez pessoas identificadas como agricultores.

Na delação, os policiais civis citaram episódios da operação que indicam que houve crime de execução. Segundo os delatores, os policiais militares fizeram um cerco aos agricultores e realizaram perseguição por uma mata fechada localizada dentro da fazenda.

CONFIRA LISTA DOS POLICIAIS PRESOS

Estava chovendo durante a perseguição. Ao chegarem ao local do crime, os policiais civis encontraram cadáveres no chão e pessoas feridas. Algumas delas estavam algemadas e ainda vivas.

“Quando os policiais civis chegaram ao local do crime, foram abordados pelos policiais militares, que diziam: ‘E aí, delegado, como é que vai ser? Não pode sair ninguém vivo daqui’, num claro sinal de intimidação”, contou o promotor de justiça Alfredo Amorim, que coordena o processo investigatório. “A intimidação era para que os policiais civis aderissem aos crimes ou poderiam se tornar vítimas também”, completou.

O promotor de justiça Leonardo Caldas reforçou a tese de execução ao informar que a prova técnica produzida até o momento caminha neste sentido. “Os tiros dados nas vítimas não foram à distância. Parte dos tiros foi dada à queima-roupa”, ressaltou..

Chacina: Justiça manda prender 13 policiais

A Justiça do Pará expediu 13 mandados de prisões temporárias contra policiais que participaram da chacina que vitimou dez pessoas na Fazenda Santa Lúcia, no município de Pau d’Arco, sudeste do Pará. Os crimes ocorreram no dia 24 de maio, após mandados de prisão, busca e apreensão na fazenda. Na época, o Governo do Estado alegou que houve confronto entre policiais e os ocupantes da área.

Os mandados de prisão foram expedidos na última sexta-feira (7), pelo juiz de Redenção, Haroldo Silva da Fonseca, a pedido do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA). Os promotores de Justiça de Redenção, Alfredo Martins de Amorim, José Alberto Dantas e Leonardo Lima Caldas, assinaram o pedido de prisão temporária com base na delação de dois policiais civis, sendo um investigador e um escrivão.

Entre os presos está o comandante da operação, coronel da PM Carlos Kened de Souza, além dos dois policiais civis e 11 policiais militares, entre os quais dois oficiais e nove praças. Os mandados surpreenderam a cúpula da segurança pública no Estado, já que os dois inquéritos abertos sobre o caso, tanto pela Polícia Civil como pela Polícia Federal, ainda estão em andamento.

O secretário de Estado de Segurança Pública, Jeannot Jansen, afirmou não saber dos motivos que levaram o MPPA a expedir os mandados agora, nem mesmo o porquê de pedir a reclusão de apenas 13 dos 29 policiais envolvidos na operação. “Deve haver razões contundentes para esse pedido”, disse o secretário.

Jansen informou ainda que os policiais se apresentaram voluntariamente após serem notificados pelo Comando Regional de Redenção. As prisões só foram efetuadas ao longo do dia de ontem, já que os mandados foram expedidos na sexta-feira à noite e os policiais estavam dispersos por vários municípios do sudeste do Estado e em Belém, necessitando do apoio logístico de duas aeronaves para trazê-los para Belém. Os policiais militares estão custodiados no Comando Geral da PM, enquanto os civis foram levados para o Comando do Corpo de Bombeiros da capital.


TEMPORÁRIA

Segundo a lei, a prisão é por 30 dias, pois trata-se de crime hediondo, podendo ser prorrogada por igual período. Após esse prazo, os policiais podem ser liberados ou ter pedido de prisão definitiva decretada.

No último domingo (9), a Polícia Federal concluiu, em Pau d’Arco, a reprodução simulada da chacina, por ordem do Ministério da Justiça. O superintendente da PF no Pará, Walame Machado, informou que o laudo conclusivo sairá nos próximos dias. Ele não quis revelar se há outras delações em curso nem mesmo se há colaboradores sob a proteção da Justiça, mas adiantou que situações como estas são normais em investigações dessa natureza. “Pode ser que haja delações no processo de investigação, mas se houver serão sigilosas”, declarou.

A Segup afirmou que só vai se posicionar após a conclusão dos laudos para tentar individualizar as condutas. O de balística deve ficar pronto ainda esta semana e o inquérito que investiga as razões e circunstâncias da chacina, até o fim de julho.

Por outro lado, a secretaria disse que ainda não foi detectada relação direta entre as mortes na Fazenda Santa Lúcia e o assassinato, na última sexta, do agricultor Rosenilton Pereira de Almeida, no município de Rio Maria. A vítima liderava um grupo de camponeses que havia ocupado a fazenda após a chacina.

Os participantes do ataque já estão em Belém deste ontem

Uma parte dos presos vindos de Redenção desembarcou no fim da tarde de ontem em Belém, em duas aeronaves modelo Caravan. A primeira, do Governo do Pará, com quatro policiais militares presos, taxiou no hangar do Estado às 17h40.

A segunda, da Polícia Federal, trazendo mais quatro policiais militares e um civil, pousou cerca de 15 minutos depois. A demora se deu porque o avião da PF parou em Marabá para abastecimento.

Para despistar a imprensa, os helicópteros e aeronaves estacionados dentro do grande galpão foram colocados nas laterais da entrada, justamente para que as aeronaves com os presos pudessem entrar e os policiais fossem rapidamente transferidos para as várias viaturas colocadas em locais estratégicos.

Cada um dos policiais foi submetido a exame de corpo de delito ainda no local. A primeira viatura da Policia Civil saiu do local com um policial, que escondia o rosto por um pano branco, por volta das 18h50.

O último comboio com o restante dos policiais militares presos só saiu da área dos hangares às 19h45.

A chegada dos presos em Belém envolveu um fote aparato militar no hangar do Estado. (Foto: Maycon Nunes)

Operação envolveu até crime de falsidade ideológica

Falsidade ideológica é apenas um dos crimes por trás da chacina ocorrida no município de Pau d´Arco. Passados 45 dias da operação policial desastrosa que resultou na morte de dez ocupantes da Fazenda Santa Lúcia, o DIÁRIO DO PARÁ teve acesso a documentos que comprovam que a operação foi executada passando por cima de todos os protocolos de segurança exigidos para o caso, começando pela solicitação das equipes de policiais ao Grupamento Tático Operacional (GTO), protocolada às 15h do dia 23 de maio, ou seja, 14 horas antes da realização da diligência que, no próprio ofício assinado pelo delegado Valdivino Miranda da Silva Junior, já estava marcada para as 5h do dia seguinte. No entanto, o planejamento militar da operação só começou a tramitar um dia depois da chacina, mas com data retroativa ao dia 23 de maio.

O documento que configura o crime de falsidade ideológica, segundo o artigo 312 do Código Penal Militar, foi inserido no Sistema Integrado de Gestão Policial (Sigpol) às 9h40 do dia 25 de maio, com o assunto “remessa de documentos”, em referência ao ofício 344/17 assinado por Valdivino Junior.

O planejamento inserido com data posterior é assinado pelo tenente-coronel Artur Daniel Dias da Silva, com uma observação de “ordem” do coronel Marco Antonio de Oliveira Cidon, mas sem a sua assinatura, mesmo porque, na ocasião, segundo os autos da investigação, o coronel Cidom estava ausente do comando para um compromisso militar em Belém.

PREPARAÇÃO

O planejamento em questão, feito após a operação, é o que quantifica o efetivo por especialização, o tipo de armamento que será usado, os veículos e combustível necessários e até a logística de deslocamentos das equipes, bem como os pedidos de diárias.

No caso de Pau d’Arco, o registro do Sigpol confirma que a operação foi feita da tarde para a madrugada e somente dois dias depois é que o planejamento foi anexado.

Juristas ouvidos pelo DIÁRIO apontam que, como a data de emissão é de dois dias anteriores à operação, quem o inseriu no sistema dois dias depois com data retroativa cometeu crime de falsidade ideológica, pela manipulação proposital das datas.

(Diário do Pará)

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