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POLÍCIA

Em menos de dois anos, Pará tem 8.245 mortes violentas

Diante da avenida Perimetral pouco movimentada, tudo contribui para aumentar o medo. A parada de ônibus diante de um terreno baldio é cercada por um matagal. O ônibus aguardado demora mais do que o normal. À volta, nenhum outro passageiro surge para fazer

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Diante da avenida Perimetral pouco movimentada, tudo contribui para aumentar o medo. A parada de ônibus diante de um terreno baldio é cercada por um matagal. O ônibus aguardado demora mais do que o normal. À volta, nenhum outro passageiro surge para fazer companhia. “A gente já tem medo de ficar sozinha na rua porque estão assaltando a qualquer hora, em qualquer lugar”.

O temor resumido em uma frase pela dona de casa Audélia Ferreira, 34 anos, não se manifesta à toa. A violência no Estado do Pará disparou em 2016 e não parou de crescer também em 2017. Números do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que utiliza como fonte informações das secretarias de segurança pública dos estados, apontam que nunca se matou tanto no Pará como no período de janeiro de 2016 a novembro de 2017.

Em apenas 23 meses foram registradas 8.245 mortes violentas, sendo 7.091 homicídios, 420 latrocínios, 87 lesões corporais seguidas de morte e 647 mortes por intervenção policial.

Durante a própria atuação profissional, o mototaxista Kleber Oliveira, 35 anos, já foi exposto diversas vezes a situações que exemplificam os números levantados pela FBSP. Rodando pelas ruas de Belém, o trabalhador já presenciou inúmeros casos de assalto e até mesmo um homicídio. “O trânsito estava engarrafado na Antônio Barreto e um cara tentou roubar outro que estava num carro. Mas o cara do carro saiu com uma arma e matou o assaltante”.

Distante cerca de cinco metros da cena, também parado no trânsito, Kleber foi tomado pelo sentimento que já é muito conhecido pela maioria das pessoas que circulam pelas ruas da capital paraense. A primeira preocupação do motorista foi com a própria vida, já que por qualquer descuido a bala disparada pelo homem poderia ter atingido qualquer outra pessoa que estava no local no momento.

Não apenas por esse, mas por todos os outros episódios de violência já presenciados por Kleber, não resta dúvidas de que a insegurança é companhia diária de quem vive na cidade. “Eu tento fazer o possível para me precaver. A gente fica com medo até mesmo quando pega um passageiro porque nunca sabe qual é a verdadeira intenção dele”, considera. “Infelizmente, depois que a pessoa senta na moto, só nos resta rezar”.

A apreensão causada pela insegurança também acompanha o trabalho do pedreiro Vicente Rodrigues, 56 anos. Quando precisa trabalhar na via pública - pintando um muro, por exemplo – qualquer aproximação de pessoas ou carros já é suficiente para deixá-lo tenso. “Todo mundo vive apavorado. Ninguém tem mais paz”.

Os motivos que levam à desconfiança de Vicente são muitos. O pedreiro já foi assaltado quatro vezes quando trabalhava em uma vã do transporte alternativo. Seu filho também já foi vítima de assaltantes por três vezes, sendo que em duas delas deve duas motos roubadas. Da mesma forma, a filha de Vicente também já foi assaltada dentro do próprio carro. Por fim, a esposa do pedreiro já teve relógio, celular e bolsa roubados por criminosos. “Eu cheguei a pensar que era só com a gente que estava acontecendo isso, mas depois que percebi que essa situação é geral em Belém”.

Fora a perda financeira, o pedreiro destaca um dos principais prejuízos sofridos por quem é vítima da violência. “O pior é a humilhação que a gente é obrigado a passar. Os caras ficam armados e a nossa vida na mão deles”.

A insegurança bateu à porta do aposentado Cândido João Soares, 67 anos, também de forma frequente neste ano. Em janeiro ele e o filho estavam sentados na calçada de casa, no bairro da Terra Firme, quando assaltantes em uma moto pararam e anunciaram o assalto, levando o celular do jovem. Para atender às necessidades do filho, um novo aparelho foi comprado, mas, em meados de agosto, o novo celular também foi roubado. “Eu mesmo nem tenho celular porque é a primeira coisa que eles procuram pra roubar”.

Cândido fala com orgulho que é morador da Terra Firme há 22 anos, mas lembra que, no passado, a insegurança não era tão grande. Hoje, para que consiga manter um pequeno comércio de frango assado em casa, ele precisa se proteger atrás de grades. De qualquer modo, o aposentado lembra que a violência não se restringe ao seu ou a outros poucos bairros da periferia, mas a toda a cidade. “A minha tia mora na Campina – que é um bairro que fica no centro de Belém – e já foi assaltada duas vezes lá”.

(Cintia Magno/Diário do Pará)

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