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Bolsonaro é "sem alma nem ideal", diz ex-ministro

Um mês depois de pedir demissão, Ernesto Araújo diz que presidente "penhorou o coração do povo ao sistema"

sábado, 01/05/2021, 17:29 - Atualizado em 01/05/2021, 17:30 - Autor: Com informações de Folhapress


O agora ex-ministro Ernesto Araújo se diz angustiado e inconformado com as mudanças de rumo tomadas por Jair Bolsonaro
O agora ex-ministro Ernesto Araújo se diz angustiado e inconformado com as mudanças de rumo tomadas por Jair Bolsonaro | Valter Campanato/Agência Brasil

Muitos ministros que passaram pelo governo de Jair Bolsonaro não escondem a frustração em relação às atitudes do presidente do país. Não raro eles têm feito desabafos públicos, como uma tentativa de se distanciar do que consideram uma mudança de rumos diferente do que havia sido a eles prometido. 

Cerca de um mês após pedir demissão do cargo de ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo publicou neste sábado (1º) em seu perfil em uma rede social uma sequência de postagens de tom crítico ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

"Um governo popular, audaz e visionário foi se transformando numa administração tecnocrática sem alma nem ideal. Penhoraram o coração do povo ao sistema. O projeto de construir uma grande nação minguou no projeto de construir uma base parlamentar", diz uma das postagens.

"Assisti a esse processo com angústia e inconformidade, e fiz o que pude, até onde pude, para preservar a visão original. Nisso estive quase sozinho. Vi confiscarem ao presidente seu sonho, anularem suas convicções, abafarem sua chama. (Não deixei que abafassem a minha.)", escreveu o ex-ministro.

Após dois anos como chanceler, Ernesto pediu demissão sob pressão da cúpula do Congresso e em meio a desavenças com diferentes setores da sociedade, como empresários, lideranças do agronegócio e até outros setores do governo. Ele foi substituído pelo embaixador Carlos Alberto Franco França.

Acusado de omissão no combate à pandemia, o ex-chanceler queixou-se no texto de sua carta de demissão, publicada no fim de março, de "uma narrativa falsa e hipócrita, a serviço de interesses escusos nacionais e estrangeiros, segundo a qual minha atuação prejudicaria a obtenção de vacinas".

Em suas postagens, Ernesto afirmou ainda que o governo de Jair Bolsonaro fez avanços, porém em 2020 "a reação do sistema, cavalgando a pandemia, começou a desmantelar essa esperança". O ex-chanceler também fez comentários sobre reformas e privatizações, alguns dos temas políticos estratégicos para o governo, que rendeu apoio do mercado e a marca de liberal a Bolsonaro em sua eleição.

"Leilões, privatizações, reformas tributária e administrativa? Se não for combatida a essência do sistema, estas serão reformas 'Gattopardo': mudanças para que tudo permaneça igual. Nenhuma 'articulação política' vai mudar o Brasil. Somente a pressão popular", afirmou na postagem.

Em uma das mensagens, porém, Ernesto adota um tom mais conciliatório e afirma que continua apoiando o presidente. "Muitos desprezam o sonho do PR [presidente da República] de mudar o Brasil. Eu, ao contrário, sempre acreditei, sempre estive e estarei com ele no seu amor pela liberdade e sua luta para libertar o povo de um sistema opressor. Com o apoio popular estou certo de que ele terá a força necessária para vencer."


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