Recentemente, um vídeo de curiosidades que viralizou nas redes sociais e contou com a participação da influenciadora digital Sachii gerou dúvidas entre os internautas ao associar os altos índices de câncer gástrico registrados na Região Norte ao consumo frequente de alimentos tradicionais da culinária amazônica derivados da mandioca, como tucupi e farinha.
Embora a relação apresentada no vídeo tenha despertado questionamentos, os números sobre a incidência da doença na região são reais. De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) de 2025, o câncer gástrico é o segundo tipo mais incidente na Região Norte, ficando atrás apenas do câncer de próstata. Além disso, o levantamento mostra que a região apresenta a maior taxa de ocorrência da doença no país.
No entanto, especialistas alertam que esses índices não possuem ligação direta com os alimentos derivados da mandioca. Segundo o doutor Pablo Pinto, docente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará (UFPA) e médico do Hospital Universitário João de Barros Barreto, a discussão exige uma análise mais ampla dos fatores que realmente influenciam o surgimento das doenças digestivas e, em especial, do câncer de estômago.
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Alimentos regionais aumentam o risco da doença?
De acordo com o especialista, não existe comprovação científica de que a mandioca, o tucupi, a farinha ou qualquer outro alimento tradicional da região por si só sejam responsáveis pelo desenvolvimento do câncer gástrico. Segundo ele, o que influencia o surgimento da doença são os padrões alimentares adotados ao longo da vida, especialmente aqueles marcados pelo consumo frequente de produtos industrializados e ultraprocessados.

O médico destaca que dietas com excesso de sal, conservantes, aditivos químicos e alimentos defumados estão associadas ao aumento do risco de diversas doenças digestivas. Da mesma forma, a baixa ingestão de frutas, verduras e legumes, o sedentarismo, a obesidade, o tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas também contribuem para esse cenário.
"É o padrão alimentar como um todo que é o nosso problema. Não necessariamente uma ou outra comida em específico, muito menos uma comida regional em específico", ressalta.
De acordo com ele, embora o Pará esteja entre os estados com maior incidência de câncer gástrico no Brasil, o fenômeno não é exclusivo da região. Países asiáticos, como China, Coreia do Sul e Japão, apresentam taxas ainda mais elevadas da doença, mesmo possuindo hábitos alimentares completamente diferentes dos observados do Norte do Brasil.
Segundo o especialista, o principal fator de risco conhecido atualmente é a infecção pela bactéria Helicobacter pylori, a "H. Pylore", responsável por provocar inflamações crônicas na mucosa do estômago. Entretanto, o especialista ressalta que a presença da bactéria não significa que uma pessoa necessariamente desenvolverá câncer.

"Ela é um fator de risco que tem que se juntar a outros fatores ambientais, alimentares e à prática de atividade física para que você tenha o desenvolvimento do câncer gástrico", explica.
Para o médico, outro aspecto fundamental para compreender os números da Região Norte está relacionado às condições socioeconômicas da população. Segundo ele, comunidades com menor renda costumam enfrentar mais dificuldades para acessar alimentos frescos e nutritivos, recorrendo com frequência a produtos industrializados, embutidos e conservas por serem opções mais acessíveis.
Ao mesmo tempo, a falta de saneamento básico adequado favorece infecções e outras doenças gastrointestinais. Já as dificuldades de acesso aos serviços de saúde podem retardar tanto o diagnóstico da bactéria Helicobacter pylori, principal causa de condições como gastrite e úlceras pépticas e um importante fator de risco para o câncer de estômago, quanto o início do tratamento adequado.
Ele reforça que o cenário é resultado de um conjunto de fatores que se acumulam ao longo dos anos e não pode ser explicado por um único hábito alimentar ou por um alimento específico consumido pela população.
Hábitos saudáveis ajudam a prevenir doenças gastrointestinais
Quando o assunto é prevenção, Pablo Pinto explica que as principais medidas estão relacionadas ao estilo de vida. Segundo ele, uma alimentação baseada em alimentos mais naturais, com frutas, verduras, legumes e menor consumo de produtos industrializados, contribui diretamente para reduzir o risco de diversas doenças digestivas.
"Uma alimentação que de preferência seja espaçada durante o dia, um dia com quatro, cinco, seis refeições diárias, aonde você tem as principais refeições intercaladas com refeições intermediárias e adequado. Não comer comidas extremamente gordurosas, salgadas, embutidas e defumadas, isso também faz parte", destaca.
De acordo com ele, a prática regular de atividade física também desempenha papel importante. Além de auxiliar no controle do peso, ela melhora o funcionamento do trato gastrointestinal e ajuda a reduzir sintomas como refluxo e desconfortos digestivos.
O especialista também recomenda evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, abandonar o tabagismo e manter acompanhamento médico regular, especialmente para pessoas que apresentam fatores de risco ou histórico familiar de doenças gastrointestinais.
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Quando os sintomas se tornam um sinal de alerta?
Muitas pessoas convivem durante anos com azia, refluxo, dores no estômago e prisão de ventre sem procurar atendimento médico. No entanto, Pablo Pinto alerta que esses sintomas não devem ser considerados normais.
"Todo mundo tem que viver sem nenhum tipo de dor, nenhum tipo de refluxo, nenhum tipo de constipação. O trato gastrointestinal é para funcionar normalmente e não causar nenhum tipo de dor, refluxo, azia ou constipação para o indivíduo", afirma.
Segundo ele, qualquer sintoma gastrointestinal persistente merece avaliação médica. Contudo, alguns sinais em específico exigem atenção imediata, como sangue nas fezes, vômitos com sangue, perda de peso sem explicação, dores intensas na região abdominal e constipação prolongada.
"Todo sintoma gastrointestinal, seja ele a menor dor possível, uma azia recorrente, necessita de uma avaliação médica adequada", reforça.
Para o especialista, o diagnóstico precoce continua sendo uma das principais ferramentas para evitar complicações e aumentar as chances de sucesso no tratamento de doenças digestivas, incluindo o câncer de estômago.
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