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SAÚDE MENTAL

Estresse e burnout no trabalho: o desafio que afeta cada vez mais paraenses

Crescimento das buscas por informações sobre equilíbrio emocional reflete aumento da preocupação da população e maior procura por atendimento especializado.

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Imagem ilustrativa da notícia Estresse e burnout no trabalho: o desafio que afeta cada vez mais paraenses camera O aumento dos casos de estresse e esgotamento emocional tem acendido o alerta para a importância dos cuidados com a saúde mental entre trabalhadores de diferentes áreas. | Reprodução/Unsplash/Vitor Galiev

Em meio à correria das cidades, aos desafios econômicos e às transformações aceleradas do mundo digital, um tema tem ocupado cada vez mais espaço nas conversas, nos consultórios e nas pesquisas na internet: a saúde mental. No Pará, o aumento da busca por informações relacionadas ao estresse, ansiedade, depressão e burnout revela uma preocupação crescente da população com o equilíbrio emocional e a qualidade de vida.

Dados observados nas tendências de pesquisa do Google mostram que termos ligados à saúde mental aparecem com frequência entre os assuntos mais procurados pelos brasileiros. O movimento reflete uma realidade percebida por profissionais da área, que relatam um aumento na procura por atendimento psicológico e psiquiátrico nos últimos anos.

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"PARTE DA POPULAÇÃO VIVE EM ESTADO PERMANENTE DE ALERTA"

A psicóloga Juliana Cerbino avalia que o crescimento dos casos de estresse, ansiedade e esgotamento emocional está diretamente relacionado às transformações ocorridas nas condições de vida e trabalho da população. Segundo ela, a intensificação das demandas sociais e profissionais, associada à redução de fatores como reconhecimento, estabilidade e previsibilidade, contribui para o agravamento do quadro emocional. "Hoje, grande parte da população vive em estado permanente de alerta. A sensação de que é preciso produzir mais, responder rapidamente e estar disponível o tempo todo gera desgaste físico e emocional", destaca.

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A especialista acrescenta que houve um aumento expressivo de estímulos aversivos no cotidiano, como pressão por produtividade, insegurança financeira, excesso de cobranças e sobrecarga de informações impulsionada pelo uso constante das tecnologias digitais. "O aumento dos quadros de estresse, ansiedade e esgotamento emocional observado nos últimos anos pode ser compreendido como resultado direto de mudanças nas contingências ambientais às quais os indivíduos estão expostos. Há uma intensificação das demandas sociais e profissionais associada à redução de condições adequadas de reforçamento positivo, como reconhecimento, estabilidade e previsibilidade", explica.

Juliana ressalta ainda que a dificuldade crescente de conciliar vida profissional e pessoal tem reduzido o contato das pessoas com atividades fundamentais para o equilíbrio emocional, como lazer, descanso e convivência social. Além disso, ela lembra que a pandemia da Covid-19 deixou impactos importantes na saúde mental coletiva, tornando muitas pessoas mais suscetíveis a quadros de ansiedade, depressão e exaustão emocional.

PROFISSIONAIS DA SAÚDE E EDUCAÇÃO ENTRE OS MAIS VULNERÁVEIS

Embora qualquer trabalhador possa desenvolver transtornos relacionados ao estresse, algumas categorias aparecem com maior frequência nos registros de adoecimento mental. Entre elas estão profissionais da saúde, professores, agentes de segurança pública, trabalhadores do comércio, atendentes de telemarketing, motoristas de aplicativos e servidores públicos.

De acordo com Juliana Cerbino, esses grupos costumam atuar em ambientes caracterizados por elevada demanda emocional, pressão constante e alto grau de responsabilidade. "Quanto maiores forem as questões negativas presentes no ambiente de trabalho, como alta exigência, baixo controle sobre as atividades desempenhadas e escassez de reforçamento positivo, maior será a vulnerabilidade dos trabalhadores", observa.

O QUE ESTÁ POR TRÁS DOS CASOS DE BURNOUT

A psicóloga destaca que a ausência de reconhecimento profissional, a imprevisibilidade das demandas e a pressão permanente por resultados aumentam significativamente o risco de adoecimento. Ela observa ainda que metas consideradas inalcançáveis, punições frequentes e pouca autonomia favorecem o surgimento de comportamentos marcados por exaustão, desmotivação e distanciamento emocional, fatores que podem evoluir para a síndrome de burnout.

Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um fenômeno associado ao trabalho, a síndrome é caracterizada por sintomas como exaustão extrema, perda de motivação, sensação de incompetência e dificuldades de concentração.

PROFESSORA RELATA IMPACTO DO ESTRESSE NA ROTINA ESCOLAR

Sob condição de anonimato, uma professora da rede pública estadual relatou que os episódios de estresse e ansiedade se tornaram mais frequentes nos últimos anos, especialmente diante das dificuldades enfrentadas em sala de aula. Segundo ela, a rotina é marcada por cobranças constantes, acúmulo de tarefas burocráticas e desafios relacionados ao comportamento dos alunos. "Há dias em que chego à escola já preocupada com tudo o que preciso resolver. Além de ensinar, muitas vezes precisamos lidar com conflitos, problemas familiares dos estudantes e situações que extrapolam o papel do professor. Isso gera um desgaste emocional muito grande", afirma.

A docente também destaca que a realidade das turmas do ensino fundamental e médio tem exigido cada vez mais dos educadores. De acordo com ela, a dificuldade de manter a atenção dos alunos e a influência das redes sociais sobre a aprendizagem aumentaram a pressão sobre os profissionais da educação. "Muitos colegas convivem com ansiedade, insônia e sensação de esgotamento. Eu mesma já precisei buscar ajuda para conseguir administrar o estresse. Gostamos do que fazemos, mas a sobrecarga acaba afetando nossa saúde mental", relata.

CRESCE A PROCURA POR TERAPIA E ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO

Outro aspecto observado pelos especialistas é a mudança na forma como a sociedade encara os cuidados com a saúde mental. Se em décadas anteriores a busca por atendimento psicológico era cercada por preconceitos, atualmente há uma compreensão mais ampla sobre a importância do acompanhamento profissional.

Para Juliana Cerbino, o crescimento das pesquisas sobre terapia, ansiedade, burnout e saúde emocional pode ser interpretado como um sinal de maior conscientização da população. "O aumento nas buscas por temas relacionados à saúde mental pode, sim, ser interpretado como um indicativo de maior conscientização sobre a importância do cuidado psicológico. Isso demonstra ampliação do acesso à informação e maior capacidade de reconhecer sinais de sofrimento emocional", avalia.

A especialista ressalta que as mudanças culturais também contribuíram para reduzir o estigma historicamente associado à procura por ajuda psicológica. Apesar do avanço, ela alerta que o fenômeno possui duas leituras importantes. "Além de indicar maior acesso à informação, esse crescimento também pode refletir uma intensificação das condições que geram sofrimento psicológico, o que é bastante preocupante", observa.

ONDE BUSCAR ATENDIMENTO NO PARÁ

Quem precisa de apoio psicológico ou psiquiátrico pode procurar atendimento por meio da rede pública de saúde. Entre os serviços disponíveis estão as Unidades Básicas de Saúde (UBSs), os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e os ambulatórios especializados vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Também é possível buscar orientação em hospitais públicos e universidades que oferecem atendimento psicológico supervisionado.A principal referência é a Universidade Federal do Pará (UFPA), por meio da Clínica de Psicologia vinculada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

O serviço atende comunidade acadêmica e público externo, oferecendo:

  • Psicoterapia;
  • Atendimento psiquiátrico;
  • Avaliação psicossocial;
  • Acompanhamento psicológico;
  • Atendimento para crianças, adolescentes e adultos.
  • A universidade informa que pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica têm prioridade no atendimento. A clínica funciona no Campus Guamá, em Belém.
  • A unidade responsável pelos atendimentos é a Psychology Clinic. Também existe o Espaço de Acolhimento Universitário - UFPA, voltado ao acolhimento psicológico da comunidade universitária.

Faculdades particulares de Belém:

Algumas instituições privadas mantêm clínicas-escola que costumam oferecer atendimento gratuito ou com valores sociais:

  • CEPSI - Clínica Escola de Psicologia Unifamaz
  • Serviço Escola de Psicologia - Faculdade Estácio de Belém
  • CESUPA - Para University Center (o curso de Psicologia desenvolve atividades de clínica-escola e extensão, sujeitas à disponibilidade de vagas).

O MAIS IMPORTANTE É PROCURAR AJUDA

A psicóloga reforça que sintomas persistentes de tristeza, ansiedade, irritabilidade, insônia ou exaustão não devem ser ignorados. "Quanto mais cedo a pessoa procurar ajuda, maiores são as chances de recuperação e melhora da qualidade de vida", enfatiza.

Em um cenário marcado por pressões constantes e mudanças aceleradas, cuidar da saúde mental deixou de ser apenas uma necessidade individual para se tornar uma questão coletiva, capaz de impactar famílias, ambientes de trabalho e toda a sociedade.

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