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SAÚDE MENTAL MASCULINA

"Homem não chora": Os impactos de reprimir emoções desde a infância

Especialistas e homens de diferentes histórias mostram como a repressão das emoções ainda afeta relacionamentos, trabalho e qualidade de vida.

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Imagem ilustrativa da notícia "Homem não chora": Os impactos de reprimir emoções desde a infância camera A saúde mental masculina ainda é atravessada por padrões culturais que ensinam meninos a esconder emoções desde a infância, impactando a vida adulta e os relacionamentos. | ( Reprodução/ Depositphotos )

“Engole o choro.” “Homem não chora.” “Seja forte.” Essas frases, repetidas por gerações dentro de casa, nas escolas e entre amigos, parecem apenas conselhos, mas carregam um peso que acompanha milhares de homens ao longo da vida. Em meio à campanha de conscientização sobre a saúde mental masculina, especialistas alertam que reprimir emoções não fortalece ninguém. Pelo contrário, pode abrir caminho para ansiedade, depressão, isolamento, abuso de álcool, dificuldades nos relacionamentos e até aumentar o risco de suicídio.

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Embora o assunto ainda seja cercado por preconceitos, os números e os relatos mostram que a dor masculina existe apenas costuma ser vivida em silêncio.

Curiosamente, esse silêncio desaparece em alguns contextos. Em 2025, imagens de torcedores brasileiros chorando após derrotas importantes no futebol viralizaram nas redes sociais. Para muitos, era apenas paixão pelo esporte. Para a psicologia, havia algo mais profundo.

Um estudo publicado na revista científica Frontiers in Psychology, conduzido pela pesquisadora Heather J. MacArthur, do Hamilton College, nos Estados Unidos, mostrou que homens podem chorar até quatro vezes mais por futebol do que pelo fim de um relacionamento amoroso. A explicação está no contexto, o esporte é socialmente entendido como um espaço “permitido” para a expressão emocional masculina, enquanto demonstrar tristeza por questões pessoais ainda costuma ser associado à fragilidade.

A pesquisa ajuda a explicar um comportamento presente na vida de muitos brasileiros: homens sentem, sofrem e choram, mas frequentemente escolhem momentos considerados “aceitáveis” pela sociedade para demonstrar essas emoções.

O peso de uma frase que atravessa gerações

Consultor comercial e músico por hobby, Mardyson Paz cresceu ouvindo exatamente aquilo que muitos homens escutaram na infância. “Minha avó dizia muito: ‘deixa de choro que tu é homem’. Na visão dela, homem não podia demonstrar fraqueza.”

A frase moldou sua maneira de lidar com os próprios sentimentos. Hoje, ele admite que ainda sente dificuldade para demonstrar vulnerabilidade. “Fui criado na década de 90, quando homem que demonstrava fragilidade era alvo de apelidos e preconceitos. Ainda hoje não consigo enxergar como algo natural um homem chorar.”

Consultor comercial e músico por hobby, Mardyson Paz
📷 Consultor comercial e músico por hobby, Mardyson Paz |( Reprodução / arquivo pessoal )

Essa dificuldade cobrou um preço alto após o fim de um relacionamento. “Quando me separei, sentia muita falta dos meus filhos. Preferia me isolar para que ninguém me visse chorando. Me afastei dos amigos e evitei novos relacionamentos por um tempo.”

Apesar disso, ele reconhece pequenas mudanças. “Hoje consigo conversar mais sobre o que sinto com minha esposa, algo que eu nunca fazia no casamento anterior.”

Há quem tenha aprendido que chorar também é força

A história do empreendedor e professor Heitor Palermo, de 36 anos, seguiu um caminho diferente.

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Ele também ouviu, ainda menino, frases como “homem não chora”. A diferença foi que encontrou dentro de casa alguém que desconstruiu essa ideia. “Minha mãe sempre dizia que, quando desse vontade de chorar, eu deveria chorar. Nunca tive vergonha de mostrar meus sentimentos.”

O empreendedor e professor Heitor Palermo, de 36 anos
📷 O empreendedor e professor Heitor Palermo, de 36 anos |( Reprodução / arquivo pessoal )

O resultado aparece na vida adulta. “Sou um cara muito emotivo. Choro mesmo e isso não me faz menos homem. Homem de verdade chora, sim.”

Ao contrário de muitos homens, Heitor afirma nunca ter reprimido seus sentimentos. “Se eu sentir vontade de chorar, vou chorar, independente de onde eu esteja.”

Para ele, ser homem significa justamente não esconder quem se é. “Ser homem é poder mostrar seus sentimentos sem vergonha.”

O silêncio que adoece

O empreendedor Tiago Spinoza, de 38 anos, conhece bem o efeito da repressão emocional.

A frase “engole o choro”, repetida durante a infância, tornou-se um gatilho. “Passei a reprimir minhas emoções para manter essa imagem de homem forte e imbatível.”

Segundo ele, essa postura afetou praticamente todos os aspectos da vida. “Guardar tudo prejudicou minha saúde mental, meus relacionamentos e até meu trabalho.”

O empreendedor Tiago Spinoza, de 38 anos
📷 O empreendedor Tiago Spinoza, de 38 anos |( Reprodução / arquivo pessoal )

Hoje, Tiago acredita estar desconstruindo esse comportamento, ainda que aos poucos. “Consigo falar sobre meus medos e dores, mesmo que ainda seja difícil. É um processo.”

Ele também chama atenção para outro problema: a dificuldade das pessoas em acolher homens vulneráveis. “Muita gente ainda não sabe lidar quando um homem resolve desabafar.”

O que acontece quando um homem aprende a esconder o que sente?

Para o escritor, terapeuta e estudante de Psicologia Fernando Ataliba, a ideia de que homem não deve demonstrar emoções foi consolidada ao longo dos últimos séculos e continua produzindo consequências importantes.

“A supressão emocional leva a uma dificuldade de expressão que pode evoluir para irritabilidade, isolamento, alcoolismo, ressentimento e outros quadros bastante comuns na clínica.”

O escritor, terapeuta e estudante de Psicologia Fernando Ataliba
📷 O escritor, terapeuta e estudante de Psicologia Fernando Ataliba |( Reprodução / arquivo pessoal )

Segundo ele, nem sempre o sofrimento masculino aparece como tristeza. “Muitos homens chegam extremamente irritados, emocionalmente distantes, com insônia, dores constantes, tensão muscular e um isolamento progressivo.”

Nos relacionamentos, o impacto também costuma ser significativo. “O problema não é simplesmente o homem não chorar. É não conseguir comunicar o que sente. Isso gera distanciamento, insegurança e conflitos.”

No ambiente profissional, o cenário não é diferente. “O excesso de pressão emocional favorece quadros de burnout, perda de produtividade e adoecimento físico, já que mente e corpo funcionam juntos.”

Por que tantos homens evitam procurar ajuda?

Na avaliação de Fernando Ataliba, ainda existem barreiras culturais importantes.

Entre elas estão a crença de que fazer terapia significa fracassar, a ideia de que homens devem resolver tudo sozinhos e o estigma construído em torno da saúde mental.

"Homem não chora": Os impactos de reprimir emoções desde a infância
📷 |( Reprodução/ Depositphotos )

Por isso, ele acredita que incentivar alguém a procurar ajuda exige cuidado. “Dizer simplesmente ‘você precisa de terapia’ pode soar como uma acusação. O caminho mais eficiente é a empatia, o acolhimento e o exemplo.”

Masculinidade saudável não significa ausência de emoções

Na visão do terapeuta, existe um equívoco recorrente quando se fala sobre masculinidade.

“Ter uma masculinidade saudável é ser emocionalmente estável, seguro, capaz de demonstrar afeto e também de receber afeto.”

Ele ressalta que isso não significa viver em constante exposição emocional. “Ninguém precisa chorar por qualquer situação. Mas comunicar o que sente ajuda tanto na própria regulação emocional quanto na construção de relações mais saudáveis.”

Romper o silêncio também é um ato de coragem

Os relatos dos três entrevistados mostram que não existe uma única forma de viver a masculinidade. Enquanto alguns homens ainda carregam a ideia de que demonstrar emoções representa fraqueza, outros encontraram espaço para viver seus sentimentos sem culpa.

O que une essas histórias é uma constatação simples: homens também sofrem.

A diferença é que muitos aprenderam, desde pequenos, que sentir deveria permanecer escondido.

Talvez esteja justamente aí o maior desafio da saúde mental masculina, ensinar às novas gerações que coragem não é suportar tudo em silêncio. Coragem também é pedir ajuda, falar sobre a dor e entender que lágrimas nunca diminuíram a força de ninguém.

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