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Automedicação cresce e especialista alerta para riscos à saúde

Pesquisa revela alta busca por remédios sem receita na internet; especialista explica os riscos de usar medicamentos sem orientação.

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Imagem ilustrativa da notícia Automedicação cresce e especialista alerta para riscos à saúde camera Farmacêutico alerta: automedicação cresce e traz riscos à saúde. Entenda os perigos e a importância da orientação médica. | jcomp/Freepik

Comprar medicamentos sem receita ou, pelo menos, pesquisar se isso é possível, faz parte da realidade de milhões de brasileiros. Segundo levantamento do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), nove em cada dez pessoas já recorreram à automedicação em algum momento da vida. Agora, outro dado chama atenção: a internet tem se tornado a principal porta de entrada para quem busca medicamentos controlados sem prescrição, o que pode ser um enorme risco à saúde.

Um ranking elaborado pela plataforma Olá Doutor, com base nas pesquisas realizadas no Google Brasil nos últimos 12 meses, mostra que Sibutramina, Mounjaro, Sertralina, Amoxicilina e Ozempic lideram as buscas por medicamentos "sem receita". Também aparecem na lista remédios de uso controlado, como Ritalina e Venvanse, além de testosterona, Roacutan e Prosoy.

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Para o diretor-secretário-geral do Conselho Regional de Farmácia do Pará (CRF-PA), Juarez de Sousa, os números refletem uma combinação preocupante entre dificuldade de acesso aos serviços de saúde e desconhecimento da população sobre os riscos da automedicação.

"Grande parte da população ainda busca a automedicação como forma de tratamento. Muitas vezes existe dificuldade para conseguir atendimento médico ou demora nas consultas, mas também percebemos que muitas pessoas não conhecem os riscos associados ao uso inadequado desses medicamentos. A divulgação constante desses produtos acaba despertando interesse, mas nem sempre as pessoas recebem informações sobre os efeitos adversos que eles podem causar."

Segundo o farmacêutico, esse cenário evidencia a necessidade de ampliar tanto o acesso aos serviços de saúde quanto às ações de educação em saúde.

"Precisamos facilitar o acesso da população ao atendimento profissional e, ao mesmo tempo, reforçar orientações sobre os riscos da automedicação. O uso inadequado desses medicamentos pode trazer consequências importantes para a saúde."

Canetas para emagrecer impulsionam interesse dos brasileiros

Os medicamentos destinados ao emagrecimento concentram boa parte das pesquisas realizadas pelos brasileiros. Sozinha, a Sibutramina registrou mais de 102 mil buscas, seguida por Mounjaro (81,4 mil) e Ozempic (36,1 mil).

Para Juarez de Sousa, apesar de todos serem associados à perda de peso, eles pertencem a classes diferentes e exigem cuidados específicos.

diretor-secretário-geral do Conselho Regional de Farmácia do Pará (CRF-PA), Juarez de Sousa.
📷 diretor-secretário-geral do Conselho Regional de Farmácia do Pará (CRF-PA), Juarez de Sousa. |Divulgação/CRF-PA

A sibutramina, por exemplo, atua no sistema nervoso central, reduzindo o apetite, mas teve o controle sobre sua comercialização endurecido justamente pelos riscos cardiovasculares associados ao uso.

"A sibutramina mudou de categoria de receituário porque diversos estudos demonstraram aumento do risco de complicações cardiovasculares, como infarto. O paciente obeso já possui maior predisposição para esse tipo de problema e, quando utiliza o medicamento de forma inadequada, esse risco aumenta ainda mais."

Já as chamadas "canetas emagrecedoras", como Ozempic e Mounjaro, pertencem ao grupo dos agonistas dos receptores de GLP-1 e GIP. Embora tenham revolucionado o tratamento da obesidade e do diabetes, também apresentam efeitos adversos que exigem monitoramento.

"Os efeitos podem variar desde náuseas e constipação intestinal até complicações mais graves, como pancreatite. Além disso, muitas pessoas utilizam esses medicamentos sem saber qual é a dose correta, por quanto tempo devem usar ou mesmo se realmente têm indicação clínica."

Outro fator que preocupa o especialista é o aumento da entrada de produtos importados sem garantia de procedência.

"Hoje não vemos apenas os medicamentos comercializados oficialmente no Brasil. Muitas pessoas estão adquirindo produtos importados de forma irregular, sem qualquer garantia de qualidade ou segurança."

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Emagrecimento saudável vai muito além da medicação

Embora os medicamentos tenham espaço no tratamento da obesidade, Juarez reforça que eles representam apenas uma parte do processo.

"Nós queremos que as pessoas percam peso, reduzam o risco de desenvolver diabetes e doenças cardiovasculares, mas principalmente de forma saudável. O medicamento sozinho não resolve. É preciso orientação médica, acompanhamento farmacêutico e mudanças no estilo de vida."

Segundo ele, o farmacêutico tem papel fundamental tanto na orientação quanto na identificação precoce de efeitos adversos.

"As farmácias funcionam praticamente durante todo o dia e contam obrigatoriamente com um farmacêutico. Esse profissional está preparado para orientar, identificar possíveis reações e encaminhar imediatamente o paciente ao médico quando necessário."

Uso de antidepressivos e estimulantes sem receita preocupa

Depois dos medicamentos para emagrecimento, os remédios voltados ao tratamento de transtornos mentais aparecem entre os mais pesquisados.

A Sertralina, antidepressivo amplamente utilizado no Brasil, soma mais de 47 mil buscas, enquanto Ritalina e Venvanse, indicados principalmente para o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), ultrapassam juntos 38 mil pesquisas.

Segundo Juarez, existe uma falsa percepção de que esses medicamentos podem aumentar a produtividade de qualquer pessoa.

"Quem não possui indicação clínica acredita que esses medicamentos vão melhorar o desempenho nos estudos ou no trabalho. Mas as pesquisas mostram que esse benefício não acontece para quem não tem o diagnóstico adequado."

Além da ausência de benefícios comprovados, o uso indiscriminado pode trazer sérias consequências.

"Esses medicamentos podem provocar dependência, alterações comportamentais, problemas cardiovasculares e diversas modificações no sistema nervoso central. Não são medicamentos inofensivos."

No caso da sertralina, o farmacêutico ressalta que o tratamento não deve se limitar ao uso do remédio.

"O antidepressivo faz parte do tratamento, mas o acompanhamento psiquiátrico e multiprofissional é indispensável. Também é importante monitorar possíveis efeitos adversos e avaliar continuamente a necessidade da medicação."

Em situações de uso inadequado, doses elevadas podem desencadear quadros graves, como a síndrome serotoninérgica.

Redes sociais ampliam o risco da automedicação

O crescimento da influência digital também tem impactado diretamente a forma como muitas pessoas escolhem medicamentos.

Segundo Juarez, recomendações feitas por amigos, familiares ou influenciadores digitais jamais devem substituir a orientação de um profissional da saúde.

"Qualquer medicamento, até mesmo um simples paracetamol ou ibuprofeno, pode provocar efeitos colaterais. O problema é que hoje circulam inúmeras informações nas redes sociais e muitas delas levam as pessoas a acreditar em soluções milagrosas, sem qualquer respaldo científico."

Ele alerta que interesses comerciais costumam estar por trás de muitas recomendações.

"É preciso desconfiar de quem promove produtos sem conhecimento técnico ou visando apenas ganhos financeiros. Estamos falando da saúde das pessoas. A melhor recomendação sempre vem de um profissional habilitado."

Nem medicamentos considerados simples estão livres de riscos

O especialista destaca que a automedicação não representa perigo apenas quando envolve medicamentos controlados.

Segundo ele, remédios vendidos livremente também podem causar complicações importantes quando utilizados de forma inadequada.

"Nenhum medicamento é totalmente seguro. Até um simples paracetamol, quando usado em doses elevadas, pode provocar lesões graves no fígado."

Por isso, o farmacêutico reforça que a população deve procurar orientação antes de iniciar qualquer tratamento.

"O farmacêutico consegue avaliar se aquele problema pode ser tratado com orientações clínicas, se existe necessidade de algum medicamento ou se o paciente precisa ser encaminhado imediatamente ao médico. Esse acompanhamento reduz riscos e melhora os resultados do tratamento."

Os 10 medicamentos mais buscados sem receita no Brasil

Ranking baseado nas buscas realizadas no Google Brasil nos últimos 12 meses, segundo levantamento da plataforma Olá Doutor.
📷 Ranking baseado nas buscas realizadas no Google Brasil nos últimos 12 meses, segundo levantamento da plataforma Olá Doutor. |Gerado por IA

A orientação é unânime

Embora o acesso à informação nunca tenha sido tão fácil, Juarez de Sousa reforça que pesquisar na internet não substitui a avaliação profissional. Para ele, diante do crescimento das buscas por medicamentos sem prescrição, o caminho mais seguro continua sendo procurar orientação médica e farmacêutica antes de iniciar qualquer tratamento.

"A automedicação não deve ser encarada como solução. Todo medicamento oferece riscos e precisa ser utilizado com indicação correta, acompanhamento e responsabilidade. O farmacêutico é um dos profissionais mais próximos da população e está preparado para orientar, prevenir complicações e garantir um tratamento mais seguro."

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