A perda gestacional acontece, na maioria das vezes, ainda no primeiro trimestre da gravidez, período considerado o mais delicado para o desenvolvimento do embrião. Alterações genéticas e cromossômicas estão entre as principais causas dos abortos espontâneos e, justamente por esse risco ser maior nas primeiras 12 semanas, muitas mulheres optam por esperar esse período antes de compartilhar a notícia da gestação. O assunto voltou a repercutir após a influenciadora Isabella Arantes, esposa do surfista Gabriel Medina, revelar que sofreu uma perda gestacional, reacendendo discussões sobre um tema comum, mas ainda cercado de desinformação e silêncio.
Embora seja uma experiência vivida por milhares de mulheres todos os anos, a perda gestacional ainda costuma ser acompanhada por dúvidas, culpa e medo. Muitas mães se perguntam se poderiam ter feito algo diferente, enquanto especialistas reforçam que, na maioria dos casos, o aborto espontâneo acontece por fatores que fogem completamente ao controle da gestante.
Segundo o ginecologista obstetra Matheus Gaspar de Miranda, o próprio organismo interrompe a gestação quando identifica alterações importantes no desenvolvimento do embrião. “A primeira semana é um período muito delicado da formação do bebê. Nessa fase, o organismo avalia se a gestação está se desenvolvendo de forma adequada. Quando existe alguma alteração importante, principalmente genética, a gravidez pode não evoluir. É um evento relativamente comum e, na maioria das vezes, acontece sem que a mulher tenha feito algo para causar isso. Mutação genética é uma das causas mais comum de aborto, muitas vezes as pacientes abortam e nem sabiam que estavam grávidas.”

Alterações genéticas estão entre as principais causas
De acordo com o médico, a maioria das perdas no início da gestação está relacionada a alterações cromossômicas que acontecem de forma espontânea.
“A principal causa são alterações cromossômicas no embrião, que acontecem por acaso e geralmente não podem ser prevenidas. Também existem fatores que aumentam o risco, como idade materna mais avançada, doenças como diabetes ou problemas na tireoide sem controle, tabagismo, uso de álcool, algumas infecções e trauma de alto impacto. Por isso, manter um bom acompanhamento pré-natal e hábitos saudáveis ajuda a reduzir riscos, embora nem todas as perdas possam ser evitadas.”
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Essa maior incidência nos primeiros meses também explica por que tantas famílias preferem manter a gravidez em sigilo até o fim do primeiro trimestre.
“Como o risco de perda gestacional é maior no primeiro trimestre, principalmente depois do morfológico do 1º trimestre, muitas famílias preferem esperar esse período para compartilhar a notícia. É uma decisão muito pessoal, que busca preservar a intimidade do casal caso ocorra alguma complicação. Não existe certo ou errado: cada família deve fazer o anúncio quando se sentir confortável.”
Quando procurar atendimento médico?
Durante o início da gestação, alguns sintomas não devem ser ignorados. “Sangramento vaginal, dor abdominal forte ou persistente, febre, saída de secreção com odor forte são sinais que merecem avaliação médica. Nem todo sangramento significa perda gestacional, mas é importante investigar para garantir a segurança da mãe e do bebê.”
Após uma perda, o tempo para tentar engravidar novamente depende das condições físicas e emocionais da mulher. “Isso varia conforme cada situação. Em muitos casos, após a recuperação física e emocional da mulher, uma nova gestação pode ser tentada já nos meses seguintes, eu recomendo 3 meses no mínimo, desde que ela aceite também. O mais importante é identificar se houve alguma causa que precise ser tratada antes de uma nova tentativa.”
O obstetra ressalta que, embora nem todos os casos possam ser evitados, alguns cuidados reduzem os fatores de risco. “Antes de iniciar o pré-natal ter bons controles pressóricos, dieta controlada, atividade física diária são formas de deixar o corpo receptivo à concepção; quanto iniciar o pré-natal, fazê-lo de forma mais breve possível, usar suplementação vitamínica conforme orientação médica, controlar doenças como diabetes e hipertensão, evitar cigarro, álcool e outras drogas, não usar medicamentos por conta própria e manter uma alimentação saudável são medidas que contribuem para uma gestação mais segura.”
“Eu ainda esperava por um milagre”
A dor da perda gestacional é algo que uma mãe, que preferiu não ser identificada, jamais esqueceu. Ela contou ao DOL que descobriu a gravidez sem planejamento, mas conta que, conforme os dias passavam, o amor pelo bebê crescia.
“Foi um sentimento muito triste, até porque era algo que não estava nos meus planos, mas aconteceu. No início, eu sentia que não estava preparada para colocar alguém no mundo. Porém, conforme as semanas foram passando, fui criando um amor por um ser que ainda nem sequer estava formado. É um amor muito difícil de explicar.”

A notícia já havia sido compartilhada com familiares e amigos próximos. “Preparei um almoço para compartilhar essa notícia com eles. Também contei para alguns amigos mais próximos, mas preferi não publicar nada nas redes sociais. Decidi compartilhar apenas com pessoas próximas porque sabia que precisaria do apoio delas, principalmente para me acompanhar às consultas médicas e me ajudar durante o período de muitos enjoos. Minha família me apoiou desde o início e todos já estavam fazendo muitos planos para a chegada do bebê.”
A gestação foi interrompida quando ela estava com apenas sete semanas
O primeiro sinal de que algo estava errado surgiu durante uma prova na faculdade. “Eu estava na faculdade, fazendo uma prova, quando, de repente, senti uma dor muito forte e minha pressão caiu. Fui ao banheiro e percebi um sangramento. Corri para o hospital para entender o que estava acontecendo.”
Depois dos exames, veio a tentativa de preservar a gravidez. “Ao chegar, fiz diversos exames e foi constatado que eu estava sofrendo um aborto espontâneo. A médica especialista me receitou um medicamento na tentativa de preservar a gestação e orientou que eu fosse para casa, permanecesse em repouso absoluto e retornasse em três dias.”
Mesmo seguindo todas as orientações, o sangramento continuou. “Durante esses três dias, continuei perdendo muito sangue, mesmo seguindo o repouso recomendado. Quando retornei, a médica explicou que eu provavelmente havia sofrido um aborto espontâneo e orientou que eu aguardasse duas semanas para realizar um novo exame e confirmar se a gestação ainda estava evoluindo.”
Apesar das suspeitas, ela não perdeu a esperança. “Mesmo já acreditando que havia perdido meu bebê, eu ainda esperava por um milagre. Tinha esperança de que ele ainda estivesse vivo, principalmente porque toda a minha família estava muito feliz com a notícia da gravidez.”
A confirmação trouxe um luto profundo. “Quando finalmente recebi a confirmação de que realmente havia perdido o bebê, entrei em uma tristeza profunda. Não queria comer, não queria conversar com ninguém. Só queria ficar isolada.”

Ela conta que, antes de viver essa experiência, desconhecia que o risco de aborto espontâneo era maior nos primeiros meses da gravidez.
“Como era a minha primeira gestação, eu não conhecia os riscos existentes nos primeiros meses. Também não sabia da importância do repouso durante esse período. Como tenho uma rotina de trabalho muito corrida, às vezes me pergunto se isso pode ter contribuído para a perda. No entanto, sei que não tenho como afirmar que essa tenha sido a causa.”
Após a perda, recebeu orientações para uma futura gestação. “Minha médica me orientou sobre as possíveis causas da perda gestacional, os cuidados necessários para minha recuperação e também me explicou como poderia me preparar para uma futura gestação.”
Apesar do impacto emocional, a perda gestacional não significa, necessariamente, dificuldade para engravidar novamente. O acompanhamento médico adequado antes da concepção e durante o pré-natal é essencial para identificar fatores de risco, orientar cuidados e oferecer suporte físico e emocional às famílias.
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