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Apresentação marca volta do Concertos Didáticos

“Quando toco, sinto o som perto do meu peito, numa cadência parecida com a do meu coração. Ouvir esse som encorpado, bonito, é o que me faz querer me profissionalizar, estudar fora e ser um mestre da viola”, diz Thiago Andrade Santos. Aos 16 anos, o rapaz

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“Quando toco, sinto o som perto do meu peito, numa cadência parecida com a do meu coração. Ouvir esse som encorpado, bonito, é o que me faz querer me profissionalizar, estudar fora e ser um mestre da viola”, diz Thiago Andrade Santos. Aos 16 anos, o rapaz que faz parte de uma família de tocadores de violão, envolvidos com diversos ritmos em Ananindeua, integra a Orquestra Jovem da Fundação Carlos Gomes e contagia com sua paixão pela música.

Ele, que começou a estudar viola há apenas seis meses, chegou na Fundação aos sete anos. “Meus pais queriam que eu tocasse violão, mas eu não gostava, Vim pra cá e aprendi violino, mas a viola me tocou de uma forma diferente. Se eu ficasse surdo, enlouqueceria. Música é minha vida, e para mim está em todo o lugar”, define o jovem instrumentista.

Na última segunda, ele e mais 34 meninos e meninas da Orquestra Jovem deram início a mais um dia de ensaios. Tudo para fazer bonito hoje, às 10h e 16h no Theatro da Paz. Eles se apresentam no projeto Concertos Didáticos, que retorna após um hiato de cinco anos para promover a troca de informações entre alunos da rede pública estadual e futuros profissionais da música clássica.

Thiago se concentra e ensaia para um concerto onde a educação através da música é levada a sério. Afinal, são jovens ensinando outros jovens. De um lado, aqueles familiarizados com os instrumentos e rituais. De outro, aqueles que pouco ou nenhum contato tiveram com a música, querendo sobretudo aprender.

O projeto ressoa no auditório da Fundação, onde a confluência de metais convida a dar uma espiada. A porta se abre e vemos o sorridente maestro Rodrigo Santana regendo a Orquestra Jovem da Fundação Carlos Gomes. “É a primeira vez da nossa orquestra no Da Paz, e eles estão ansiosos e trabalhando muito, ensaiando cerca de duas horas durante três vezes na semana. Vamos executar um repertório amplo de música clássica, com Beethoven, Weber e uma cantata barroca de Sergei Firsanov, um russo que é radicado aqui no Pará” esmiuçou Santana.

Contente pelo fato dos seus alunos começarem este mês a receber uma bolsa auxílio da FCG, para se dedicarem aos estudos e à Orquestra Jovem com mais “estrutura”, ele enfatizou a importância do projeto. “Essa orquestra foi criada há três anos apenas com cordas, e há três meses, introduzimos os instrumentos de sopro com êxito. Já tocamos para diversas escolas e temos a expectativa de levar o projeto para dentro das salas de aula daqui e do interior, onde os alunos têm a chance de tocar para quem nunca ouviu antes a música clássica”, explicou o regente.

Aos 14 anos, Ana Carla Amaral Cavalcante diz ter se encontrado graças à música. “Eu era hiperativa e um pouco dispersa. Estudar música me ajudou a acalmar e ter foco, e hoje toco o instrumento que sempre quis tocar”, frisou ela, que trocou o violino pelo fagote.
Segundo Santana, a ideia é colocar um aluno de cada naipe – como Ana Carla e seu fagote - para falar do seu instrumento.

“Esses meninos estão aqui por que querem a música para as vidas deles, ela lhes mostrou novos horizontes”, enfatizou Santana, que se formou em música na UFPA e há sete anos está lecionando na FCG. “Às vezes vejo pais chegarem dizendo que o filho não pode ter aula certo dia por que tem compromisso, mas a questão é que eles também não devem enxergar a música como hobby, pois essa aqui é uma escola profissionalizante. Já fui da Orquestra Jovem e cheguei onde estou hoje”, opina.

“Sem música, o mundo seria vazio”
E se é através da educação que qualquer pessoa tem a oportunidade de ter a vida que sempre sonhou, travar contato com a música em idade escolar é algo que pode mudar o caminho a ser trilhado. “Foi a maneira que encontrei de crescer, foi através do dom que Deus me deu que pude me tornar uma pessoa diferente”, frisou a trompetista Laura Santos.

Bacharel no instrumento de sopro pela UEPA, ela lembra que, quando tocava na bandinha municipal de Conceição do Araguaia há cinco anos, teve um encontro que mudaria sua vida: “o maestro Levino Alcântara, um dos fundadores da escola de música de Brasilia, visitou minha cidade e falou que, se nós estudássemos música, íamos ser pessoas melhores. Eu cheguei em casa e falei pra minha mãe e pai que queria ir pra Belém estudar música. Aqui estou”.

Para ela, as idas em escolas carentes, em comunidade mais necessitadas, que puderam ter contato com a música clássica, foram dos momentos mais marcantes que já viveu. “As crianças ouviam e ficava quietas, todos ficavam muito tranquilos e calmos ouvindo a música. Aprendi não só técnica como também a exercitar minha sensibilidade”, resumiu Laura, que saia apressada do auditório em direção a mais uma aula. Passando pelo corredor onde a estudante desaparecia, paramos em uma das salas de ensino para encontrar ao piano o professor Felipe Silva.

Lecionando há mais de 20 anos na instituição, ele vê com o otimismo a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas públicas estaduais, lei que começa a vigorar este ano. “O objetivo da Fundação sempre foi o de prover educação musical ao maior número de pessoas possível. Só no conservatório, são mais de 1.700 alunos, mas destes são poucos os que vão se formar músicos, então, se de fato o ensino de música for implantado nas escolas, todas as crianças terão direito a inicialização musical e aquelas que gostarem e quiserem seguir uma carreira, vêm ao conservatório estudar um instrumento”, citou Felipe, que coordena as turmas de 1º e 2º grau da instituição. Na escola da rede municipal onde Tiago Carneiro, 15 anos, estuda, a música já faz parte da grade curricular.“começamos a ter aulas há alguns meses, e acho muito interessante por que posso ajudar os colegas dando dicas e repassando um pouco do que sei. E aqueles que demonstrarem aptidão, podem querer conhecer mais esse mundo, que me tornou diferente. Sem a música, meu mundo seria chato e vazio e eu não seria quem eu sou”, frisou, emocionado o jovem violinista.

PRESTIGIE
Projeto Waldemar Henrique apresenta Concertos Didáticos com a Orquestra Jovem da Fundação Carlos Gomes. Hoje, 14 de março, às 10h e 16h, no Theatro da Paz. Entrada Franca. (Diário do Pará)

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