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CASO RARO

O que é o câncer transmissível, descoberto pela 1ª vez em peixes

Pesquisadores identificam câncer transmissível em peixes-gato no Lago Memphremagog, na fronteira entre Estados Unidos e Canadá.

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Imagem ilustrativa da notícia O que é o câncer transmissível, descoberto pela 1ª vez em peixes camera O caso foi estudado por pesquisadores das Universidades de Washington, Vermont e Utah. | (Reprodução/ University of Washington / University of Vermont)

Antes de ser considerada um fenômeno exclusivo de alguns mamíferos e moluscos, a transmissão natural de células cancerosas acaba de ser identificada também em peixes. Pesquisadores dos Estados Unidos descobriram um tipo de câncer transmissível em peixes-gato da espécie brown bullhead (Ameiurus nebulosus), encontrados no Lago Memphremagog, na fronteira entre os estados de Vermont (EUA) e Quebec (Canadá).

O achado, conduzido por cientistas da Universidade de Vermont, da Universidade de Washington e da Universidade de Utah, representa o primeiro caso documentado de câncer transmissível em peixes e também o primeiro registrado em um ecossistema de água doce. A descoberta amplia o conhecimento sobre esse raro fenômeno biológico e levanta novas questões sobre seus impactos ambientais e ecológicos.

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Câncer transmissível é extremamente raro

Até agora, apenas três tipos de câncer transmissível de ocorrência natural haviam sido identificados em animais: o tumor venéreo transmissível em cães, o câncer facial que afeta os diabos-da-Tasmânia e uma doença que acomete algumas espécies de bivalves. Com o novo registro, os peixes-gato passam a integrar esse grupo restrito.

Diferentemente dos cânceres convencionais, que surgem a partir de mutações nas células do próprio organismo, o câncer transmissível se espalha quando as próprias células tumorais passam de um indivíduo para outro, funcionando como um agente infeccioso.

Nos cães, esse tipo de tumor costuma ser tratável, enquanto nos diabos-da-Tasmânia a doença já provocou um forte declínio populacional. Os pesquisadores afirmam que ainda não é possível prever quais serão os efeitos da enfermidade sobre a população de peixes do Lago Memphremagog.

Alta incidência chamou atenção dos pesquisadores

Os primeiros indícios surgiram em 2012, quando biólogos observaram um número incomum de melanomas nos peixes-gato, caracterizados por lesões pretas e elevadas na pele.

Entre 2014 e 2017, levantamentos apontaram que entre 23% e 37% dos exemplares analisados apresentavam sinais da doença, levando os cientistas a investigar a origem dos tumores.

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Sequenciamento genético confirmou transmissão

Para determinar se o câncer era realmente transmissível, a equipe realizou o sequenciamento completo do genoma das células tumorais.

Os resultados mostraram que os tumores de diferentes peixes eram geneticamente muito mais semelhantes entre si do que aos próprios hospedeiros. Além disso, foram identificadas centenas de milhares de variantes genéticas compartilhadas entre os tumores, ausentes nos tecidos saudáveis dos animais.

Os pesquisadores destacam que esse padrão difere dos cânceres convencionais. Em humanos, por exemplo, cerca de 94% das mutações encontradas em tumores são exclusivas de cada indivíduo. Já nos peixes analisados, a maioria das alterações genéticas era praticamente idêntica entre os animais infectados, indicando uma origem comum das células cancerosas.

Outra evidência importante foi a ausência de vírus, bactérias ou qualquer outro microrganismo capaz de explicar o surto, reforçando a hipótese de que as próprias células do câncer são responsáveis pela transmissão.

Como a doença pode se espalhar

Embora o mecanismo exato ainda esteja sendo investigado, os pesquisadores apontam algumas hipóteses para explicar a disseminação da doença.

Uma delas envolve o período de reprodução, quando os peixes se concentram em áreas reduzidas do lago, aumentando o contato físico entre os indivíduos.

Outra possibilidade é que as células tumorais sobrevivam temporariamente na água ou nos sedimentos e entrem em novos hospedeiros por meio das guelras, da boca ou de pequenas lesões na pele.

Os cientistas também investigam se fatores ambientais, como poluentes químicos e alterações hormonais durante a desova, podem enfraquecer o sistema imunológico dos peixes e facilitar a infecção pelas células cancerosas.

Descoberta reforça monitoramento ambiental

O brown bullhead é considerado uma espécie indicadora da qualidade da água, o que torna a descoberta ainda mais relevante para estudos ambientais.

O Lago Memphremagog abastece com água potável mais de 175 mil pessoas, e a ocorrência do câncer nos peixes pode servir como um importante indicador para o monitoramento de contaminantes e das condições ecológicas do ecossistema.

Segundo os pesquisadores, novas investigações serão necessárias para compreender a origem da doença, sua forma de transmissão e os possíveis impactos sobre a biodiversidade e o equilíbrio ambiental da região.

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