Assim como acontece com os mestres do carimbó, a cozinha tradicional também perde seus ícones a cada dia. Esse é o ponto de partida do projeto “Cata – Cultura Alimentar Tradicional Amazônica”, do grupo de defesa da Floresta Amazônica Iacitata Amazônia Viva. Desde 2009 atuando diretamente com comunidades ribeirinhas e pequenos produtores, a iniciativa busca, por meio da cartografia da cultura alimentar paraense, chamar atenção para a enorme diversidade que compõe esse rico patrimônio e preservar a identidade da cozinha regional.
“Queremos contribuir com as políticas públicas para a proteção e promoção de nossa cozinha ancestral, que hoje está em acelerado processo de desaparecimento, seja pela ampla devastação, seja pela indústria de alimentos ou pela dominação simbólica. Nossas técnicas ancestrais estão sendo substituídas por novidades de mercado, causando uma vulnerabilidade ao nosso conhecimento e estéticas indígenas, ribeirinhas e extrativistas, e provocando a perda de nossa identidade e pertencimento”, explica Tainá Khalarje, uma das responsáveis pelo projeto.
A proposta se desenrola por meio de viagens para cidades, municípios ou regiões paraenses, onde o grupo realiza um levantamento das práticas alimentares locais e sua relação com a cultura da região, como a pesca de borqueio e as comidas dos vaqueiros marajoaras, dentre outros. “O intuito das viagens é a cartografia da cultura alimentar, e também compartilhar conhecimentos e experiências com as comunidades que nos recebem, realizando oficinas e rodas de conversa. Queremos contribuir para resistir como amazônidas, principalmente no que tange à perda dessa identidade pela substituição da cozinha internacional como ‘embalagem’ e ‘evolução técnica’”, explica Tainá.
Para as expedições, o Cata conta com um time de peso: o fotógrafo Emiliano Boccato, prêmio Year Best Book de fotografia em gastronomia; o músico e cozinheiro Carlos Ruffeil; a fotógrafa e artista visual Sylvia Sanchez; e o fotógrafo Marcos Hermes, que em 25 anos de carreira especializada na cobertura de shows e festivais de música e em retratos de artistas, tem no currículo fotos de gente como Stevie Wonder, Paul McCartney, Beyoncé, U2 e vários artistas brasileiros.
“A vinda de profissionais desse nível é especialmente para difundir nossa cultura entre fortes formadores de opinião e parceiros dos povos da floresta, fazendo com que alcancemos dimensões globais, para assim fortalecermos a autoestima, a apropriação local sobre seu conhecimento e preservarmos o meio ambiente, pois compreendemos que a cultura, a comida, a música e o meio ambiente estão interligados diretamente”, discursa Tainá.
O Cata não recebe nenhum apoio ou patrocínio do governo do Pará. “Temos parceiros em toda a cadeia produtiva e sem eles não seria possível realizar nenhuma etapa de trabalho. Em Belém, o trade turístico é fundamental para a nossa logística, parceiros como o Point do Açaí, o Famiglia Sicília e o Slow Food estão conosco desde 2009 atuando diretamente com comunidades ribeirinhas e pequenos produtores. A única parceria oficial que temos é com o Ministério da Cultura, por meio de uma premiação”, diz Tainá, que também lista entre apoiadores comprometidos com a sustentabilidade e o desenvolvimento cultural a loja Ná Figueredo, Libra Design, Instituto Peabiru e o Museu do Marajó, que já está recebendo o material produzido pelo projeto.
Para o empresário Nazareno Alves, do Point do Açaí, o projeto confirma o potencial da gastronomia local: “A gente precisa mostrar tudo que a gente tem não só para o Brasil, mas para o mundo. Nossa comida típica é muito forte e única”, diz.
Do tacacá à lasanha
Na última semana, embalada pela quadra junina, a equipe percorreu vários cantos do Pará, mostrando que a gastronomia está sempre ligada à cultura. “Quando pensamos em arraial juntamente com a quadrilha e o carimbó, prontamente somos remetidos aos sabores e aromas das comidas da época. Um arraial só é completo com mingaus de milho e tapioca, tacacá, vatapá, caruru e bolo de macaxeira.
Mas, hoje, a quadra junina paraense apresenta entre suas comidas típicas lasanhas, crepes, torta alemã, pizza e muitos preparos internacionais tornando cada vez mais raro o aluá e preparos locais”, destaca Tainá, representante da região Norte do Movimento Slow Food Brasil e militante do reconhecimento da comida como cultura.
As visitas aconteceram em comunidades tradicionais como as do Distrito de Outeiro. Lá o Cata conheceu o Cordão de Pássaros Colibri, um dos poucos que ainda preserva as comidas típicas de São João. “Estamos no começo do processo e conhecer o Pássaro Colibri foi muito especial. Como fotógrafo, sempre tento passar despercebido, mas a câmera é grande, as pessoas me acham diferente. Só que lá consegui captar a imagem de uma forma muito natural e instintiva”, revela Marcos Hermes, que tem a missão de “dar um olhar artístico” ao projeto.
Mesmo com tanta experiência atrás das lentes, ele vê o trabalho desenvolvido no Cata como desafiador e diferente de tudo o que já fez. “Eu me envolvo com os projetos em que acredito. O Cata tem um papel social importante e tudo o que envolve a Amazônia é inspiração, sempre foi um lugar fascinante. Estar aqui é mergulhar na cultura e no povo, que é superbacana e amável, me coloca à frente de pessoas de verdade”, conta o fotógrafo carioca, que entre uma expedição e outra editava fotos do seu trabalho pessoal para Djavan e Ney Matogrosso.
Esta foi a segunda vez que Marcos aterrissou em Belém. A primeira foi em 2008, no Círio. Apesar das poucas vindas à cidade, ele diz que já tem o seu lugar preferido. “Se pudesse iria ao Ver-o-Peso todo dia para conhecer um pedacinho. É maravilhoso, uma explosão cultural. Eu experimento tudo: frutas, aromas, ervas”, afirma Marcos, e completa: “A culinária do Pará tem o poder e essa qualidade de representar não só o estado, mas a região Amazônica”.
O material fotográfico e audiovisual produzido ainda não foi finalizado, mas já possui um destino certo. “O nosso maior comprometimento é com as comunidades que nos recebem, e como esse projeto se destina ao resgate e valorização da cultura alimentar tradicional, primeiro esse material retorna para as comunidades e depois é disponibilizado em artigos pelo Núcleo de Estudos em História Oral da Universidade de São Paulo – USP, do qual sou integrante, na página do Iacitatá Amazônia Viva no Facebook, e brevemente estará em nosso blog”, adianta Tainá.
(Diário do Pará)
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