Uma multidão gritava ansiosa pelo show de uma banda. Fato até comum no meio musical. Mas há algo diferente nesses gritos. Os jovens são católicos, em sua maioria, e eles estão em busca de rock, mas um rock diferente. No palco, a banda que é um dos principais nomes da música cristã da atualidade e que trouxe para a 11ª edição do Círio Musical, dentro da programação cultural do Círio de Nazaré em Belém, a turnê do seu mais recente CD, “Cartas ao Remetente”. Trata-se do Rosa de Saron, que lotou a Praça Santuário de jovens entusiasmados por aquela música que, só a uma audição mais atenta, revela-se feita para evangelizar.
A turnê, que iniciou no último dia 10 de agosto, apresenta um trabalho novo, feito quase que colado no DVD “Latitude Longitude”, lançado há um ano durante a Jornada Mundial da Juventude, evento para jovens católicos que foi realizado no Brasil. A banda, formada por Guilherme de Sá (voz), Eduardo Faro (guitarra), Rogério Feltrin (baixo) e Grevão (bateria), surgiu em 1988 na cidade de Campinas, interior de São Paulo, dentro do movimento de Renovação Carismática da Igreja Católica, na busca de disseminar mais rock cristão aos que amam o gênero.
“A música sempre foi plataforma de mensagem e o rock principalmente. Houve épocas em que o rock era usado como protesto, ou no movimento hippie com mensagens de paz e amor, ou no punk-rock nas questões políticas. No nosso caso não seria diferente. Utilizamos desse meio para levar uma mensagem de fé, esperança e amor para as pessoas”, explicou Rogério Feltrin, baixista e fundador da banda, minutos antes de subir ao palco para fazer a alegria católica daquela juventude em êxtase.
Mensagens diferenciadas
A banda, que não se considera de música gospel nem faz músicas litúrgicas, canta rock com mensagens diferenciadas e arrebata multidões, inclusive entre cristãos não praticantes. No dia do show em Belém, alguns fanáticos pela banda esperava desde a manhã na Praça Santuário, para conseguir um lugar privilegiado para assisti-los.
Julli Serrão era uma dessas pessoas. Ela participa do fã-clube Aurora, que reúne mais de 50 paraenses que idolatram a banda, e sabia que valia a pena estar naquela praça desde às 6 horas da manhã para um show que começaria apenas às 20h30. Para ela, estar perto do artista que ama era mais do que uma obrigação de fã com sua banda - era uma retribuição.
“Eles não são uma banda gospel, são uma banda de rock, algo que agrada a juventude e que nos inspira. Se for um rock cristão, melhor ainda, com músicas de qualidade e capazes até de salvar as pessoas, curar de uma depressão...”, disse a jovem estudante.
O próprio Rogério acredita que o som que eles fazem é mais de um contexto existencial sob uma ótica cristã. “As músicas refletem um período que estamos vivendo e este novo trabalho está mais emotivo, sentimental e fala sobre a dificuldade de busca de equilíbrio entre fé e a vida pessoal e profissional de cada um. Fala sobre as dificuldades enfrentadas frente às pressões que sofremos da sociedade e como podemos fazer para nos mantermos coerente na fé”, explicou.
Jéssica Bianca assistiu a todos os shows da banda em Belém e lá estava ela para mais um deles, juntamente com seu fã-clube, Nação Rosariana, também desde as primeiras horas da manhã para conseguir um bom lugar.
“As músicas deles mudaram muito a minha vida, me deram uma esperança e uma fé em Deus. Para mim, o mais importante, é a qualidade das mensagens”, disse a jovem.
Mesmo com uma multidão gritando por eles, o grupo não se considera uma celebridade do rock, mas acredita que a carreira que construíram os trouxe até aqui. “Não podemos negar a vocação que temos: somos artistas. Mas não significa que temos vida de celebridade. Usamos a arte a serviço das coisas que acreditamos”, explicou Rogério.
Enquanto o público aumenta na frente dos palcos a cada novo show, os artistas do rock a serviço de Deus acreditam que é tudo resultado de um árduo trabalho. “A banda tem 26 anos e a coisa não aconteceu da noite para o dia. Não estávamos dentro da comunidade e de repente veio uma multidão, foram conquistas gradativas. Isso não permitiu que a gente se deslumbrasse ou se encantasse, na verdade o que aumenta é a sensação de responsabilidade, porque você sabe que o que você comenta e o que você canta ou até o que vive influencia na vida das pessoas”, finalizou Rogério.
Um dos pioneiros nos palcos e programas de TV
Padre Marcelo Rossi sabe da sua importância para a música católica. Antes dele, poucos padres se aventuraram no mundo artístico de forma tão engajada, até que Rossi entendeu que a música poderia ser um importante instrumento de evangelização e investiu nela. No ano em que ele completa 20 anos como padre, alcança a marca de 12 discos lançados e 16 milhões de cópias vendidas. No último dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, em pleno Círio de Nazaré, lançou o mais novo CD, “O Tempo de Deus”, no qual assina as 12 faixas do álbum e, pela primeira vez canta em todas elas, em um trabalho que é resultado importante da sua luta contra a depressão.
“Esse trabalho foi a cura de uma depressão. Eu estava doente, cheguei a pesar 60kg e vivi na pele uma experiência que achei que não passaria. Vivemos em um mundo de ansiedade e todos podemos chegar a este quadro, mas acredito que Deus permitiu que eu passasse por isso para chegar também a este trabalho que saiu do meu coração como um presente de Deus”, diz o Padre Marcelo, em entrevista exclusiva ao Você.
O objetivo do padre é que a música, que ele acredita ser terapêutica, chegue a todos e, por isso, abriu mão de sua parte como intérprete e autor para tornar o trabalho ainda mais acessível. “Negociamos com a gravadora para que o CD chegue ao público a um valo justo de R$ 10 e, assim, mais pessoas poderão ter acesso. Depois, vamos lançar na internet para que ele se dissemine ainda mais”, completa.
O padre sabe que depois dele muitos outros cantores católicos conquistaram mais e mais públicos e, em sua visão, isso é apenas a multiplicação da palavra de Deus. “O Padre Fábio de Melo é um grande exemplo de alguém que, como eu, faz sua evangelização através da música. Temos estilos diferentes, mas pregamos unidos na diversidade. Nós dois somos instrumentos de Deus, com certeza”, esclarece Marcelo Rossi.
Ele relembra que investir na diversidade musical fez a diferença no início de sua carreira, incluindo, por exemplo, músicas evangélicas nos trabalhos. E em poucos álbuns ele compôs tantas músicas como em “O Tempo de Deus”. “Não me considero artista. Não tenho vida de celebridade. O que eu quero é que as pessoas tenham acesso às obras de Deus e, com este trabalho, voltar à mídia para compartilhar essa experiência que vivi e que foi real”, completa.
Mas a música não entrou na vida de Marcelo Rossi só pela religião. Ele revela que foi vocalista em uma banda de rock antes de aderir à batina, e utilizar a música é apenas uma das formas de expressão artística que ele usa para disseminar a instituição que representa. “Somente o livro ‘Ágape’ vendeu mais de 10 milhões de exemplares. Assim como eu fui a todo Brasil divulgar este livro, irei também com o novo CD e com o livro que virá depois dele”, antecipa.
Mais do que escrever livros e fazer música, o padre é figura conhecida na mídia. Ao longo de todos estes 20 anos de carreira e sacerdócio, esteve incontáveis vezes em programas de televisão, rádio, jornais. A mais recente de suas aparições foi justamente durante o Círio de Nazaré, quando ele gravou o quadro “Repórter por um Dia” para o “Fantástico”. “Achei fantástica a experiência do Círio e, como fui chamado para a reportagem, pude ir pela primeira vez e conhecer melhor. O que vemos é uma verdadeira prova de fé do povo”, analisa.
Porém o padre sabe que tanta irreverência e aparições midiáticas sempre será alvo de críticas, inclusive dentro do próprio Vaticano, que o investigou por quase dez anos graças a uma denúncia feita por religiosos brasileiros, que o acusavam de exibicionismo. A investigação foi comandada pela Congregação para a Doutrina da Fé, liderada pelo cardeal Joseph Ratzinger, que mais tarde se tornaria o papa Bento 16.
“Soube dessa investigação bem depois e que bom que foi assim, porque eu estava fazendo apenas o obra de Deus e sabia que esse era um desejo do Papa João Paulo II. Eu sabia que seria criticado pelas minhas escolhas, mas fiz e faço tudo em comunhão com a Igreja. Depois, o próprio Bento XVI me deu sua anuência e reconhecimento”, esclarece.
Ainda assim ele não se considera uma celebridade, mas reconhece que pela exposição tem uma vida diferenciada e muito mais “vigiada” que os demais padres. “Claro que essas escolhas me fizeram perder muitas coisas e qualquer deslize que eu possa vir a cometer pode se transformar em algo muito maior”, finaliza.
Uns padres cantam para Deus; outros são ousados demais
Ela foi irreverente. Entrou no reality show “The Voice” na Itália e venceu. A irmã Cristina Sciuccia não está preocupada em cantar as coisas de Deus, tanto que o single que escolheu para lançar o novo álbum é “Like a Virgin”, da Madonna. Escolha surpreendente que já tem até videoclipe, no qual a freira canta em alguns templos religiosos de Veneza, a mesma cidade do clipe original da pop star, de 1984.
Para entender a audácia da freira, basta lembrar a polêmica que foi o lançamento da música na década de 1980. A comunidade religiosa e a conservadora crítica não gostaram nada do que viram Madonna fazer, mas a irmã Cristina acredita que a canção não precisa chocar.
“Eu escolhi a música sozinha. Sem qualquer intenção de provocar ou chocar. Lendo a letra, sem ser influenciada pela original, percebe-se que é uma música sobre a capacidade do amor fazer as pessoas se redimirem do seu passado. E é assim que eu quis interpretar a canção, completamente diferente da faixa pop-dance que conhecemos, transformando em uma balada romântica que lembra Amos Lee. A música está mais parecida com uma oração secular do que uma canção pop”, disse a freira ao site Avvenire, da Itália.
No próximo dia 11 de novembro vamos conhecer mais do primeiro e inovador álbum da Irmã Cristina que promete outras versões como “Try”, da Pink, “Somewhere Only We Know”, do Keane, “Fix You”, do Coldplay, “True Colors”, da Cyndi Lauper, e “No One”, da Alicia Keys.
(Diário do Pará)
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