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Após reconhecimento, capoeira luta por espaço

Quando Mestre Mundico arriscou seus primeiros passos de capoeira, ele não tinha muita consciência da representatividade daquele jogo, uma das expressões mais significativas do patrimônio afrobrasileiro, elemento constitutivo da identidade nacional e també

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Quando Mestre Mundico arriscou seus primeiros passos de capoeira, ele não tinha muita consciência da representatividade daquele jogo, uma das expressões mais significativas do patrimônio afrobrasileiro, elemento constitutivo da identidade nacional e também símbolo de resistência cultural e de batalha contra a opressão. Hoje, Mundico comemora o fato de a capoeira ter se tornado patrimônio cultural imaterial da humanidade com orgulho e poesia, ciente da importância deste jogo para a sua vida e para o país.


“A capoeira levantou poeira/Foi além de sua mãe nação/Ajudou o negro em verdes campos a fugir da escravidão (...)” recitou o mestre durante as comemorações organizadas pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Pará para celebrar o reconhecimento que veio de Paris durante evento da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), 9ª Sessão do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural, que anunciou decisão favorável na última quarta-feira. Enfim, a capoeira é patrimônio da humanidade.


“Lutamos muito para chegar a este ponto tão alto. No Brasil ainda sentimos muita discriminação sobre a capoeira e esperamos que este momento mude isso”, anseia o mestre genuinamente paraense. “A capoeira é muito significativa porque é um bem que referencia a memória afrobrasileira e está presente em todo país. Este reconhecimento fortalece a visibilidade e reforça as políticas federais, reafirmando o compromisso de assegurar a reprodução e as condições de transmissão desta manifestação”, disse Maria Dorotéa de Lima, superintendente do Iphan Pará.


A roda de capoeira e o ofício de mestres de capoeira já são bens culturais reconhecidos pelo Iphan como Patrimônio Cultural Nacional desde 2008, mas agora recebem as honras internacionais, o que garantirá mais investimentos em prol de quem se dedica a esta manifestação cultural há tanto tempo. Para o antropólogo do Iphan Pará, Cyro Lins, o reconhecimento deve servir de incentivo a ações de valorização do bem por parte das diferentes esferas do poder público, seja a nível federal, estadual ou municipal.


“Desde o seu registro como Patrimônio Cultural brasileiro, a capoeira vem sendo objeto de diversas ações de salvaguarda. Atualmente, o Iphan é responsável por ações conduzidas pelas suas superintendências estaduais. A tendência é que agora essas ações se intensifiquem e passem a contar também com o envolvimento de outros órgãos”, explicou Cyro, enumerando algumas dessas iniciativas. “As ações já em curso no Iphan envolvem a realização de mapeamentos e pesquisas sobre a capoeira nos diversos estados, a criação de coletivos deliberativos, como Conselhos de Mestres e comitês de salvaguarda, para atuar na gestão compartilhada das ações juntamente com o Iphan, assim como a realização de chamamentos públicos para o financiamento de projetos e ações.

O mapeamento e cadastro de mestres e praticantes vem sendo realizado por meio Cadastro Nacional da Capoeira, onde os detentores podem apresentar suas informações on-line no site eletrônico do Iphan, e também por meio de uma empresa de pesquisa para realizar o levantamento in loco nos diversos municípios do país”.


De posse dessas informações, Dorotéia diz que serão definidas medidas de forma coletiva. “A partir dessas definições, o Iphan constrói editais públicos e que são abertos e direcionados aos grupos para que eles acessem esse recurso. Isso já vem sendo construído em outros estados e, no Pará, este processo se iniciou no ano passado. Agora, com o reconhecimento, as políticas devem avançar. Em Belém já temos os grupos de capoeira identificados, mas em outros municípios esse processo deve começar através de encontros para promover a articulação, envolvendo-os para que eles também sejam contemplados”, completou.


E é isso que os grupos realmente desejam, como bem expressou Mundico. “Espero que o Ministério da Cultura tenha uma nova visão da capoeira e incentive as associações e as atividades que elas realizam. Além disso, esperamos apoio financeiro para que os mestres e professores continuem repassando esse conhecimento. Nós é que somos a salvaguarda, o amparo legal, a sabedoria, o conhecimento da capoeira, e só através de nós é que ela sobreviverá”, enfatiza o mestre.

RECURSOS


Segundo Cyro, o Iphan já vem disponibilizando estrutura física para a realização de reuniões entre os chamados detentores da cultura e fará reuniões específicas com órgãos dos poderes públicos para sensibilizá-los a respeito do valor da roda de capoeira, sua salvaguarda e a importância de participação nos encaminhamentos de políticas públicas. Ele antecipou também que o MinC disponibilizará, em 2015, recurso financeiro no valor de aproximadamente R$ 1,4 milhão para o segmento, já previsto no Fundo Nacional de Cultura, e um diálogo com o Ministério da Educação deverá incorporar a capoeira nas atividades escolares de todo o país, uma oportunidade para que esta cultura seja ainda mais difundida.


O antropólogo esclareceu que ações serão realizadas a curto, médio e longo prazo, e o primeiro passo é a mobilização dos atores envolvidos no processo, principalmente os mestres. “Salvaguardar a roda de capoeira é, a partir de seus aspectos tradicionais, considerando a herança dos africanos escravizados, preservar sua função de sociabilidade e solidariedade.

Esta é uma estratégia fundamental para garantir a permanência da difusão de sua origem histórica e promover a ampliação da visibilidade que não desconsidere esses valiosos aspectos. Muitos ainda não conhecem essas ações e, por isso, queremos realizar esse envolvimento com todo estado do Pará através de encontros regionais, esclarecendo sobre os processos de salvaguarda. Esperamos sair com sugestões de ações, mas já sabemos que o deve ser feito imediatamente é a valorização dos mestres, que são a razão de ser da capoeira, transmissores desta cultura”, disse.

Na roda, os grandes mestres


Para Cyro Lins, na roda de capoeira são transmitidos conhecimentos, técnicas e valores baseados no legado de segmentos outrora marginalizados. Isso desperta na pessoa que a pratica uma noção de respeito à ancestralidade e à diversidade cultural humana.


“A roda de capoeira pode agregar pessoas de diferentes credos, classes sociais, nacionalidades, idades, gêneros, contribuindo, assim, para o diálogo entre diferentes povos, comunidades e grupos sociais”, acredita o antropólogo do Iphan.


Nesse “respeito à ancestralidade” está, inevitalmente, o reconhecimento dos grandes mestres, aqueles responsáveis por passar adiante a filosofia de cultura e resistência presente nos movimentos cadenciados.
Conheça a seguir dois grandes exemplos de mestres vivos que são uma verdadeira lição de vida e de amor à capoeira.

Mestre Mundico


Ainda em 1970 Mestre Mundico aprendeu os primeiros passos da luta marajoara com o pai, Marcelino Araújo, e ali estava apenas começando um projeto que reuniria muitos seguidores. “Eu não entendia nem dava muita importância à luta marajoara e depois até à própria capoeira, que já estava no meu sangue, pois sou bisneto de negros. Eu tinha apenas 14 anos quando aprendi e hoje posso dizer que a capoeira é minha vida”, disse o mestre.


Ele, que foi até perseguido pelos militares por causa do jogo, naquele momento entendeu ainda mais o símbolo de resistência da capoeira e a importância dela para a cultura negra. “Para quem um dia foi perseguido, ser reconhecido é uma honra. Fiquei muito feliz quando a Câmara Municipal de Belém me concedeu honrarias pelo trabalho que faço nas minhas comunidades”, acrescentou.


Além de disseminar a capoeira, ensinando de forma gratuita a diversos jovens de Belém (agora principalmente no bairro da Sacramenta), Mundico já compôs centenas de musicas e criou seu próprio instrumento, o “caximbó”, uma mistura de caxixi (instrumento tradicional da capoeira) com o curimbó.
“A gente vive da venda desses instrumentos, do artesanato e de alguns eventos que participamos. Perdi minha perna recentemente, mas isso não me tirou o desejo de jogar e a alegria de ver esse momento. Mesmo se todo o mundo parasse de jogar capoeira eu continuaria”, disse o mestre apaixonado e visivelmente feliz em ver o esforço de toda uma vida no local em que sempre deveria estar.

Mestre Bezerra


Reconhecido como uma dos 100 mestres de capoeiras do Brasil pelo seu notório saber, Mestre Bezerra é uma figura que representa bem a capoeira do Pará. E ele se orgulha disso já que, dos 70 anos de idade, 51 dedicou integralmente à causa.


“Tenho orgulho de ter sido um dos primeiros da cidade de Belém a repassar a capoeira para outras pessoas. Comecei a estudar no Maranhão, quando cheguei a Belém continuei e acredito que agora vamos valorizar ainda mais a capoeira”, disse, feliz, o mestre.


Ele, que já foi presidente de entidades de representação de capoeira no estado e tem se engajado junto com o Iphan para concretizar o Conselho de Mestres do Pará na busca da valorização do esporte, acredita que ainda há muitos passos a serem dados.


“Estive em Toronto, no Canadá, para um evento que envolvia diversas artes de diversas culturas e os participantes poderiam escolher entre fazer uma oficina de capoeira comigo ou aprender outros esportes. Para minha surpresa, as pessoas se interessavam mais pela capoeira, o que me deu orgulho. Espero que um dia nossos filhos e netos possam ver a capoeira valorizada, sendo ensinada nas escolas, como já prevê a lei 10.639 e que precisa ser colocada em prática na cidade e no estado”, anseia o mestre.

(Diário do Pará)

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