Como faziam as avós. É assim que sete mulheres da Comunidade Chicano, de Santa Bárbara, no Pará, aprenderam a cozinhar os pratos tradicionais da culinária paraense. Seu maior orgulho é a maniçoba, que começa pelo porco ainda vivo até o processo de defumação dos ingredientes.
O jeito antigo de cozinhar foi resgatado por meio de oficinas trazidas pelo Slow Food, movimento internacional cujo princípio básico é o direito ao prazer da alimentação, utilizando produtos artesanais feitos com respeito ao meio ambiente e aos produtores.
“Nós temos uma relação muito legal com a Comunidade Chicano. Teve um dia que cheguei lá e elas estavam se organizando para fazer uma feira. Perguntei o que elas iam produzir para vender e elas disseram que fariam suco de cupuaçu e bacuri. E eu perguntei: ‘e o tucumã, o araçá, o murici? Tudo isso que tem aqui nas árvores, por que vocês não aproveitam?’ Então a gente começou a trabalhar junto com elas a valorização da biodiversidade”, conta Tainá Marajoara, facilitadora do Slow Food Brasil no Norte.
O projeto começou com um curso sobre a produção de embutidos, o que acabou se tornando a especialidade do grupo de mulheres. “A diferença do que é produzido por nós está no defumado. Tudo o que a gente coloca na maniçoba, por exemplo, somos nós que produzimos. Para colocar a linguiça de porco, a gente mata o porco, prepara a linguiça, defuma, para poder ser usada. Assim como o toucinho e outros ingredientes. Com certeza é mais gostoso”, garante Maria de Nazaré dos Santos, 48, uma das cozinheiras Chicano.
Além de ajudar no preparo, Maria de Nazaré cede sua casa como local de reunião e preparo dos alimentos. “Minha casa é bem grande e é lá que elas reúnem para fazer os defumados, a maniçoba, o frango no tucupi. Ali a gente se reúne também para conversar, definir cardápios, trocar conhecimento, se articular para o fornecimento de produtos”, revela.
Além dos pratos típicos, elas também vendem frutas colhidas na comunidade. Elas já procuram por um novo local, que funcione como um polo para agrupar e dar formação para mais mulheres.
SLOW FOOD À MODA CHICANA
Além das encomendas, elas realizam uma feira gastronômica, uma vez por mês, no espaço Chicano Clube, dentro da comunidade, onde passaram a adotar o nome de Convivium Slow Food Chicano. “Convívio” é o nome dado aos grupos locais do Slow Food, que articulam relações com os produtores e fazem campanhas para proteger alimentos tradicionais. Atualmente existem 46 convívios em todo o país. No Pará, só existem as cozinheiras Chicano e o Convivium Amazônia, do chef Fábio Sicilia.
Quem também apoia as mulheres Chicano é o chocolatier César De Mendes. “Eu moro na comunidade e tenho uma fábrica de chocolates finos lá dentro. Existe certas solidariedades entre nós – elas colaboram com o meu trabalho e eu com o delas. Antes mesmo do slow food, a gente já pensava essa preocupação com a natureza. Na verdade foi só um encontro de filosofias”, declara. Alguns dos ingredientes para seus chocolates, como o cupuaçu, são fornecidos pelas mulheres Chicano.
A dificuldade delas era se articular fora da comunidade; e Mendes, que já tem uma grande rede no ramo gastronômico, foi atraindo parceiros, como os institutos Paulo Martins e Iacitatá. “A gente está trazendo uma série de cursos de empreendedorismo, de técnicas gastronômicas, para que elas possam dinamizar um pouco mais o conhecimento delas, trazer renda, tudo a partir de algo básico, que é o alimento bom, justo e limpo – que é o que prega o slow food”, explica Mendes.
O nome “Chicano” que continuam a usar, segundo contam as mulheres, foi do homem que chegou e limpou a área onde hoje existe a comunidade. Ali, ele teve nove filhos que foram ficando e lhe dando netos e tataranetos, o que formou a comunidade, acostumada a ver todos os seus moradores como parte de uma única família.
Algo que pode influenciar e muito no sabor do que é feito ali, como declara Marli Malcher, 27, uma das cozinheiras do Convivium Chicano. “A gente fica feliz em incentivar as pessoas a preparar seu alimento, buscar coisas saudáveis. Eram apenas nossas avós que sabiam fazer aquela comida típica desde os ingredientes. A gente já estava acostumada a se alimentar muito mais do industrializado – pior, já estava passando isso para os filhos. Eu adoro cozinhar. Faço com vontade para que as pessoas sintam prazer naquele alimento, como eu sinto. Somos um grupo do interior, mas com muita garra, gosto pelo que faz e prazer em fazer junto, como uma família”, ela define.
CONHEÇA
Colônia Chicano - Santa Bárbara do Pará
Contato: (91) 3656-2001
chicano@slowfoodbrasil.com
(Diário do Pará)
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