Para temperar o jantar, conhecimento. Adotado por instituições ou grupos que buscam destacar a cultura associada ao alimento – seja de uma etnia, religião ou país –, um jantar cultural permite uma expansão sensorial e de informação aos seus participantes. “Nele, você experimenta a cultura que lhe é apresentada. Não é um jantar em que você vai sentar e ouvir música enquanto come uma chapa mista”, afirma Tainá Marajoara, do Instituto Iacitatá, ponto de cultura alimentar paraense.
A temática do alimento fruto da agricultura familiar, de receitas nascidas em comunidades de diversas regiões da Amazônia, foi utilizada pelo Iacitatá na inauguração de sua sede, no bairro do Reduto. “O jantar cultural te propicia conhecer a cultura do alimento, ouvir sobre seus ingredientes, conhecer o caminho que eles percorreram até chegar à sua mesa, quem são os produtores e qual a importância deles para a floresta e ainda todo o lado místico desta relação”, explica Tainá.
Enquanto isso, o chef Carlos Ruffeil, também fundador do Iacitatá, mostra um dos pratos do jantar. “As pessoas vão apreciar e saber um pouco mais, por exemplo, desse baião de dois, montado com alimentos vindos de três comunidades”, anuncia.
O baião em questão é feito com feijão manteiguinha de Santarém, linguiça, bacon, costelinha e outros embutidos produzidos pelas cozinheiras da Comunidade Chicano, de Santa Bárbara, e o arroz produzido no assentamento Expedito Ribeiro, próximo à Ilha de Mosqueiro. Tudo é levado ao prato – ou melhor, à cuia paraense – e apresentado como um produto que vai além da comida, porque tem responsabilidade social e contribui para a preservação do meio ambiente.
Ao longo do jantar, os convidados ainda apreciam iguarias como o beiju chica, produzido por dona Margarida, pequena produtora de Santarém Novo – de onde também vem o tacacá de caranguejo. Para esquentar, mingaus de mucajá e de jerimum, feitos por mestre Vavá, do município de Ourém.
“O Pará reconhece culturas internacionais quando fala de alimento. É comum, por exemplo, você falar com uma pessoa sobre vinho e ela reconhecer Baco como o deus da uva. Mas, quando a gente está falando das nossas encantarias, poucas pessoas sabem que, para ter um bom queijo do marajó, ele depende de um bom rebanho e quem ajuda o vaqueiro a manter esse rebanho é o Quem Dera, o vaqueiro encantado”, comenta Tainá, adiantando um pouco uma das histórias que seriam contadas durante o jantar.
Outras modalidades de jantar cultural são aquelas que unem o alimento de uma região à sua música – servir pratos típicos paraenses enquanto se apresenta o carimbó, o lundu e a marujada, por exemplo, relacionando prato e ritmo ao seu município de origem. Em 2015, o Iacitatá desenvolve pesquisa através da Bolsa de Criação, Experimentação, Pesquisa e Divulgação Artística da Casa das Artes (antigo IAP), o que deve se desdobrar em muitos jantares como esse.
“Vamos viajar para recolher narrativas voltadas a essas encantarias amazônicas, relacionando-as ao alimento”, diz Tainá. A iniciativa é um desdobramento do Projeto “Cata - Cultura Alimentar Tradicional Amazônica”, desenvolvido desde 2009 pelo instituto, que realiza a cartografia do alimento em seu contexto cultural, para promover políticas públicas de manutenção dessas relações culturais.
CONHEÇA
Instituto Iacitatá
Onde:Tv. Benjamin Constant, 609, entre Aristides Lobo e Ó de Almeida – Reduto.
Informações: (91) 99359-8451
(Diário do Pará)
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