Nas paredes, retratos de família mostram um ambiente onde se coloca muito carinho à mesa. E a ideia de que não são necessários requintes para se degustar um bom prato. O resgate do clima de almoço de família e das lembranças da comida tradicional paraense com muito sabor e qualidade é o novo mantra do chef Thiago Castanho, recém-eleito chef do ano pelo site “Prazeres da Mesa”, e cheio de projetos para reestruturar os restaurantes Remanso do Bosque e Remanso do Peixe, que ele comanda ao lado do irmão Felipe e seus pais Carmem e Chicão.
“Pensando em um contexto aonde o luxo tem sido muito questionado, e diante de uma perspectiva de buscar cada vez mais a cozinha de origem, aprofundando a identidade da gastronomia com a comida do dia a dia, estamos reformulando os cardápios e até um pouco da identidade dos restaurantes. Hoje o cliente busca ser bem atendido, ter preço acessível e produto de qualidade, mas tudo com bastante identidade, e é isso que estamos buscando”, explica Thiago.
O chef até brinca com o famoso meme de internet, o raio gourmetizador, que “transforma” pratos tradicionais em sofisticados, e os vende a preços mais caros. “Acho que é um momento de aplicar o raio desgourmetizador. A comida bem feita é bem feita. Você não precisa mascará-la de algo que ela não é para que tenha valor”, completa o chef.
Muito do discurso de Thiago vem de suas raízes, simples e saborosas, da comida feita na sua casa. Receitas que ele registrou no livro “Cozinha de Origem”, em que ele conta a história e desvenda os pratos de sua família, dos mercados de Belém e das comidas de rua.
“Quando a gente disse que ia fazer o livro, muitas pessoas esperavam algo muito moderno e quando ele saiu, veio essa surpresa. A fase que vivo é essa, de mostrar as nossas origens”, completa o chef, com a pretensão de que a publicação se torne uma referência da gastronomia tradicional paraense que, segundo ele, foi pouco publicada e catalogada.
O momento é mesmo de resgate de memórias, já que o restaurante que suscitou tudo isso em Castanho, o Remanso do Peixe, aonde ainda na infância Thiago viu a comida familiar de seu pai ser servida aos clientes, completa 15 anos em setembro. E já está apostando nessa identidade familiar, desde a casa onde funciona o restaurante e que abrigou a família durante tantos anos. Junto com o ambiente renovado, vem um cardápio mais tradicional, resgatando coisas de quando tudo começou.
“É pegar a culinária tradicional e atualizá-la, reverenciando-a e colocando-a em um ambiente que é nosso, com nosso filtro. Resgatar os pavês que as mães servem no domingo, as receitas mais antigas, do início do restaurante”, pontua Thiago.
Uma das mudanças é o investimento em bebidas específicas para cada restaurante. No Remanso do Peixe, surgirá um carta de cervejas mais interessante e diversificada, e com uma novidade: a parceria com a Amazon Beer para a produção de um rótulo exclusivo para o restaurante.
“Sempre valorizamos a parceria com o produtor local e até vendemos os produtos deles. Agora temos essa novidade de criar esse rótulo feito à base de manga. Vamos ter também um vinho exclusivo para o Remanso do Bosque, feito em parceria com uma vinícola, e assim vamos tecendo essas redes com a nossa identidade. Queremos que o Remanso do Bosque esteja especialmente servindo vinhos para os clientes e o Remanso do Peixe as cervejas”, antecipa.
Thiago acredita que o paraense está, aos poucos, redescobrindo e valorizando as suas raízes, porque há uma moda no ar de reverenciar o que é local. O que ele espera é que isso não passe. “A nossa cozinha está tão pop que 70% dos cardápios de restaurantes que estão na mídia em São Paulo têm elementos paraenses. E a mídia tem dado valor para quem está usando nossos ingredientes”, acredita o chef.
(Diário do Pará)
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