Sem dinheiro, a estudante de Psicologia Lia Sophia começou a cantar nos barzinhos de Belém em meados da década de 2000, porque, segundo ela mesma, era a única coisa que sabia fazer na vida. Mas para a própria surpresa, o negócio deu tão certo que os fãs que já acompanhavam a artista de bar em bar pediram para que ela gravasse suas próprias composições, que já tocava nos shows, mescladas ao repertório cover. Eles queriam ouvir em casa, no carro, mostrar para os amigos. Foi assim que nasceu “Livre”, trabalho lançado em 2005 para dar liberdade ao repertório que incluía bossa nova, baladas e até disco music. Dez anos depois do primeiro disco, Lia Sophia não se esquece do banquinho, do violão e dos shows em churrascarias e aniversários.
Com quatro CDs lançados e uma carreira que contagia não só paraenses, mas o público brasileiro, Lia apresenta dois shows especiais em homenagem à sua história e aos muitos artistas que hoje vivem as mesmas dificuldades que ela já viveu. As duas apresentações vão ser realizadas amanhã e domingo, no Teatro Margarida Schivasappa. Segundo a cantora, serão noites com um clima mais acústico, em que as pessoas poderão reviver histórias das músicas que os fãs sempre pediam nos bares, das primeiras composições e dos parceiros que acompanharam o início da carreira dela.
Em entrevista exclusiva ao Você, Lia Sophia relembra os primeiros passos como cantora, as dificuldades e o que aprendeu com a própria música, que se revelou como sua verdadeira profissão:
Como foi teu início de carreira, saindo dos barzinhos e entrando nos estúdios? Quais eram teus medos e sonhos nesse período?
Tudo começou sem pretensão nenhuma. Nem cantora eu queria ser. Era uma questão de necessidade financeira. Era a única coisa que eu sabia fazer. De repente, comecei a compor música brasileira e a ter contato com artistas, com grandes medalhões da bossa nova, por exemplo. Quando comecei a compor, meu amigos começaram a ouvir e dar algumas dicas. Foi assim que surgiu o “Livre”, com composições minhas, da Débora Vasconcelos, que assina uma música que todo mundo conhece hoje, “Boca”, e músicas de outros artistas. Teve “Velhos Sonhos”, parceira do Mapyu com Nilson Chaves que foi meu primeiro grande sucesso e alavancou a minha carreira. E nesse disco teve “Eu Só Quero Você”, minha primeira composição num disco.
E como surgiu “Livre”?
Eu tocava em vários bares e já tinha um público seguidor. Então já apresentava várias composições minhas e o público cantava junto. As pessoas começaram a dizer “Lia, eu preciso ter isso em casa, mostrar para não sei quem...”. Tinham essa coisa de “quero ouvir no meu carro”. Meus amigos começaram a cobrar também. Aí, inscrevemos um projeto na Lei Semear e a Eliane Moura começou a me produzir. Nós éramos sócias num bar, o Carpe Diem, e crescemos juntas com a produção desse trabalho.
O que o “Livre” te proporcionou e como encaminhaste a carreira depois daí?
Tive muitas alegrias nesse disco, mesmo sem nenhuma pretensão com ele. Fiz muitos shows em Belém e São Paulo. Fiz várias parcerias com outros artistas. Então, a música começou a me levar de uma forma que não controlei. Quando comecei a perceber que a coisa estava indo para frente, comecei a planejar melhor. O disco “Livre” tem esse nome justamente para isso. Porque a proposta era para ter muita liberdade. Eu não tinha um caminho. Eu era uma cantora de bar, então sempre fiz um apanhado de muita coisa diferente. No disco tem um sambinha, uma bossa nova, uma balada, tem até um disco. Mas mostra um pouco de como era a minha vida. Os outros discos também são bem assim, a cara do momento que eu estava vivendo.
E o disco é o grande marco no meu aprendizado. A gente não sabia o que era fazer um projeto de incentivo cultural, como era buscar um patrocinador, como produzir um show, as necessidades de produção, cenário, figurino etc. Nós viajamos pra São Paulo, fizemos uma pequena turnê. Foi uma nova realidade que encarei. Depois respiramos. E passaram-se quatro anos para eu lançar o próximo disco. Dei uma freada e fui aprender isso, de produzir música direito. Comecei a compor muito mais, fazer parcerias e fazer muito show pra aprender essa coisa de ser artista, de músico.
Como vai ser a comemoração dessa importante data?
A gente vai ter abertura da Yanna Cardoso. Eu quis convidá-la justamente para lembrar da minha trajetória. Eu era uma batalhadora da noite, assim como a Yanna Cardoso, trabalhava de segunda a domingo para me sustentar. Uma das pessoas a quem eu mais tenho a agradecer é o Luizão Costa, que foi num show e conheceu o meu trabalho. Foi ele quem me colocou pela primeira vez num teatro pra abrir um show do Vítor Ramil. A Yanna vai apresentar três canções, num banquinho. Eu contei essas histórias pra ela e ela adorou o convite.
O disco é o grande centro desses shows. Claro que a gente está fazendo arranjos com uma pegada diferente. Não são os mesmos músicos da época, mas o Alcir, o Beto e o Baboo Meireles, que tocavam comigo, vão fazer participações. Também vou ter a Débora Vasconcelos e ainda o Renato Torres como convidados. Vai ser um show mais acústico e a pegada do CD é essa, tem muitos violões. Mas também vou apresentar canções dos outros discos e músicas que fazia em bares.
Quais os novos planos?
Acho que até o final de setembro lanço uma música e clipe novos, do disco que estou pré-produzindo. Vou lançar imagens do show que fiz ano passado no Theatro da Paz, com participação da Fafá de Belém e do Pinduca. Também vou tocar no Sairé, em Santarém, em setembro, e tem coisa nova vindo por aí.
(Gustavo Aguiar/Diário do Pará)
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