Será lançando nesta quinta-feira, 31, o caderno virtual de conhecimento “Cata - Cultura Alimentar Amazônica”, projeto premiado pelo Ministério da Cultura, no edital Amazônia Cultural, em 2014, que realizou expedições para traçar uma cartografia cultural da alimentação paraense, percorrendo 100 mil Km em cinco regiões do Pará. Graças à pesquisa, chegaram a Belém iguarias como o beiju xica de Santarém Novo, a manteiga de garrafa marajoara, a arte de embutidos moqueados da Colônia Chicano e outros saberes alimentares paraenses que estão se perdendo aos poucos para a indústria da alimentação.
A pesquisa mergulhou em universos como os da Região Bragantina, onde, com os mestres de cultura alimentar que trabalham a mandioca, prepararam beijus que há mais de 20 anos não eram feitos sem sal ou açúcar por lá. No Marajó, comprovaram a existência da cozinha viva indígena arua, que também foi apresentada a Cachoeira do Arari com a doação de cópia de um manuscrito do século 17 para o Museu do Marajo. De Ourém, trouxeram à tona o mingau de mucajá, um tesouro alimentar de nutrientes e sabedoria ancestral.
“Percebemos muitos projetos de divulgação da cozinha do Estado e, por outro lado, não vemos o mesmo entusiasmo na preservação da sociobiodiversidade e fomento à cultura. Se não reconhecermos os saberes dos mestres de farinha, como poderemos identificar a melhor lua para plantar a mandioca? São nossas tecnologias autóctones, é nossa autonomia de conhecimento e resistência às hegemonias”, justifica Tainá Marajoara, à frente da pesquisa e autora do caderno. “A cultura alimentar é infinita, é a relação primordial do humano com a natureza, não há quem consiga um mapa definitivo da alimentação da Amazônia. Chegamos a 678 itens entre preparos, vocabulários, farinhas, encantarias... Hoje, nosso objetivo é sensibilizar sobre a urgente conservação da floresta e os impactos da alimentação e consumo sobre ela. Tem gente, tem ciência na floresta e esse tem que ser um assunto nas escolas e nas universidades. Restringir a gastronomia é muito pouco quando nossa luta com esse projeto é pela vida”, completa o chef ativista Carlos Ruffeil, que comanda o ponto de cultura alimentar Iacitata Amazônia Viva.
(Diário do Pará)
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