São 31 anos de fotojornalismo. E é essa experiência que Antônio Melo compartilha com o público hoje, às 19h, no cine-teatro do Centro Cultural Sesc Boulevard, durante a conversa aberta “O Dia a Dia do Fotojornalismo Web e Impresso”, na qual ele é um dos homenageados. O evento é voltado para todos os públicos, com entrada franca.
Melo, que chegou ao DIÁRIO como um motorista enviado por uma empresa terceirizada, conta que estas três décadas de fotojornalismo nasceram do interesse pela câmera e o incentivo dos colegas de trabalho. “Eu nem pensava em ser jornalista, eu era motorista e fiquei à disposição do jornal. Me colocaram para dirigir para a equipe do caderno ‘Polícia’, levava eles pela cidade em busca de matérias. Naquela época, eram os meus amigos Ribamar dos Prazeres, como fotógrafo, e Raimundo Oliveira, como repórter”, relembra.
Naquele tempo, uma única equipe fazia o percurso pelos bairros de Belém, Ananindeua, Marituba e até um pouco mais distante, quando a gravidade do caso exigia. No intervalo para almoço, Melo deixava os colegas em suas respectivas casas para almoçar e o equipamento fotográfico ficava com ele, no carro. “Foi assim que eu comecei a me interessar pela câmera, que naquele tempo era analógica. Perguntava algumas coisas para o Ribamar, ele me ensinava”, conta.
Outra ajuda vinha do laboratorista Carlos Sodré. Sim, naquele tempo, cada foto precisava ser revelada no jornal. “Comecei a fazer algumas fotos, levava para revelar, ele olhava e dizia: ‘olha, precisa melhorar isso, aquilo’. Eles foram me ensinando sobre abertura, velocidade, a entender o ISO (sensibilidade da câmera à luz)”.
Depois, o amigo Ribamar saiu do DIÁRIO. E aos risos, o fotógrafo conta que Guilherme Siqueira, que o substituiu, foi quem mais lhe deu oportunidades de fotografar. “À tarde, depois do almoço, ele dizia: ‘faz uma ronda aí, se tiver alguma coisa, faz a foto, conversa com o pessoal, pega os dados e me passa, que depois eu escrevo’. Assim fui saindo sozinho e fazendo sem que ninguém soubesse”.
Depois de tantos anos atuando ao lado de tantas pessoas, uma parte inevitável dessa trajetória, conta Melo, é a perda de muitos colegas, que deixaram muitas contribuições para que o motorista passasse a fotógrafo. Profissão que dá a ele uma memória de quem não só soube, mas viveu muitas notícias.

Foto: Antônio Melo/Diário do Pará
TRAGÉDIAS REGISTRADAS DE PERTO
Entre as várias situações que marcaram essas três décadas por trás das lentes, Antônio Melo destaca a queda do edifício Raimundo Farias. “Eu ia passando na hora, tinha saído do jornal e estava indo para casa quando escutei um estalo. Pensei que fosse um terremoto, era um ‘poeiral’... Parei o carro e segui a pé. Quando cheguei lá, dava para escutar os gemido dos caras que ficaram presos – foram uns 53 mortos. Fiquei uma semana direto lá, só ia em casa trocar de roupa e voltava. Lembro de um homem que ficou soterrado, mas vivo e falando com a gente. Tiraram ele umas seis horas da manhã, davam água e comida para ele por uma mangueira. Quando ele saiu, viu a família, filhos, mulher, teve uma parada cardíacae morreu”.
Desta lembrança, Melo recorda apenas o primeiro nome da vítima: José. “Quando eu estava começando, eu nem pensava, parece que o sentimento vai embora. Hoje já não é assim, hoje me emociono mais, fico estremecido diante de algumas cenas”, diz ele. Dentre elas, quando procurou, junto com a mãe e a avó de duas garotinhas, o corpo das crianças em uma mata. “Imagina uma situação dessas. Ter que encarar aquilo com elas ao meu lado. Tem colegas que nem conseguem ficar nessa situação. Lembro de uma repórter. Era o primeiro dia dela quando houve um tiroteio no Bengui. Quando procurei, ela estava no banco de trás docarro, chorando”.
Quem trouxe Melo do volante para as câmeras fotográficas definitivamente foi o diretor de Redação daquela época, o jornalista Expedito Leal. “Em Paragominas, invadiram a delegacia, colocaram fogo e mataram quatro presos. Consegui entrar num avião de táxi aéreo, menti dizendo que as despesas já estavam divididas com outras empresas de jornalismo, disseram que se fosse mentira eu ia voltar a pé de lá”, conta Melo, aos risos. Já na cidade, fez foto, conversou com o delegado, escrivão e voltou.

Foto: Antônio Melo/Diário do Pará
“Pela TV, o pessoal da redação me viu fotografando e pediu as fotos, foi a primeira vez que saíram minhas fotos assinadas e publicaram meu nome como ‘enviado especial’. No outro dia, o Expedito Leal disse para eu entregar meu emprego lá na empresa de transporte e ficar no jornal como fotógrafo. Como era para ganhar mais que o dobro do que eu recebia como motorista, eu fiquei. E vai fazer 32 anos este ano”, relembra.
Durante o encontro no Sesc Boulevard, além das boas memórias, o fotógrafo compartilha os desafios da atualidade e dicas aos profissionais. “Quando chegaram as máquinas digitais, pensei que não ia conseguir, os colegas me ajudam muito até hoje. Na fotografia, a pessoa aprende todo dia”, destaca Melo, sobre seus próprios desafios. Para ele, isso é o que faz a profissão manter-se, mesmo diante de uma dinâmica contemporânea em que todos têm grande facilidade em fotografar e compartilhar informações. É o olhar e habilidade profissional que fazem a diferença. “A gente tem que chegar e olhar para ver tudo, procurar ‘a capa’, ‘a foto’”.
Melo cita a colega de profissão, a fotojornalista Shirley Penaforte, que ganhou o Prêmio Esso Regional Norte de 2002. “Era uma foto simples, mas de muita qualidade. Durante uma rebelião de menores, a PM (Polícia Militar) reagiu. Na foto, um moleque está no chão e o policial com o cano da arma na garganta dele. Atrás, ela enquadrou uma frase que estava pintada na parede: ‘A melhor recompensa de um homem é ser amado’. Aí está o profissional. Diante de toda tensão, ela soube olhar”.
PRESTIGIE
Bate papo "O Dia-a-Dia do Fotojornalismo Web e Impresso"
Quando: Hoje, às 19h
Onde: Centro Cultural Sesc Boulevard (Boulevard Castilho França, 522/523 - em frente à Estação das Docas)
Quanto: gratuito
Informações: (91) 3224 5654
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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