Desenhos, bordados, estampas, tatuagens, lambe-lambe. Tudo vira suporte para a artista visual paraense Layse Almada. Mas todas as obras que produz têm no fato dela ser mulher algo determinante para sua expressão.
Em seu traço, o corpo feminino desnudo surge de muitas maneiras, num discurso de libertação. “O machismo é uma doença social e nós mulheres fomos criadas nele. Desde o início retratei mulheres de uma forma muito natural, assim como para mim o desenho é uma forma de libertação, as mulheres que desenho também acabam passando essa força de liberdade. Eu não sabia o que era feminismo quando comecei, mas em pouco tempo fui me identificando e me interessando cada vez mais pelo movimento, pela luta por liberdade e igualdade de gênero”, diz a artista, que cursava uma graduação em moda quando começou a desenhar, por volta de 2012, como uma forma de terapia contra uma síndrome do pânico.
“O fato de ser mulher orienta em tudo o desenvolvimento das minhas obras. Hoje sei que o começo dos desenhos foi um produto do subconsciente, pela forma de criação a que culturalmente as mulheres são impostas, pelas regras e imposições estéticas e comportamentais”, diz Layse, hoje radicada em São Paulo.
Mas mesmo num momento em que nunca se falou tanto de feminismo e empoderamento, o discurso artístico de Layse – que saiu dos bordados e estampas para tatuagens e lambe-lambes (técnica ligada ao graffiti que usa cartazes para interferências urbanas) – é frequentemente denunciado e censurado nas redes sociais da internet.
“Acho complicado lidar com essas questões de censura porque acaba atrapalhando bastante a divulgação dos trabalhos e projetos até mesmo nas vendas e contato como público, mas também tento ver o lado bom disso: se incomoda a ponto de ser denunciado é porque também faz pensar, refletir, e a intenção dos desenhos é essa mesmo, incitar a reflexão. Acho que está chegando às pessoas a que deveria chegar”.
Layse pondera o fato de que as mulheres são majoritariamente tidas mais como objetos a serem retratados do que expositoras, e por isso a arte no movimento feminista entra como uma grande e importante ferramenta de luta por direitos.
“Culturalmente a mulher foi durante muito tempo tida como objeto e as denúncias vêm desse pensamento ainda atrasado, mas acredito que isso está em processo de mudança e nós, mulheres, estamos aqui para tentar mudar esse cenário”, diz.
A nudez, defende, Layse, só vira tabu por causa da maneira que tratamos o corpo feminino. “Nunca tive a intenção de chocar ao retratar os corpos e suas diversidades. Gosto de associar o corpo com elementos naturais nos desenhos. Fazemos parte da natureza, ela é a mãe. Gostar do seu corpo é entrar em contato com a sua natureza. Acho que essas mulheres estão em busca da naturalidade e da leveza de pertencer ao universo em expansão”, defende.
Obra da série "Sagrado Feminino", da artista Moara Brasil, une flores e imagem do aparelho reprodutor feminino (Foto: Divulgação)
Reencontro com o sagrado feminino
Outra artista paraense cujo trabalho é povoado pelas mulheres é Moara Brasil. Atualmente ela se dedica à série que chama de “Sagrado Feminino”. Para a artista, é uma espécie de xamanismo para mulheres, em que cuida em especial do significado desse ser feminino e de como resgatá-lo.
Trata-se de uma série de colagens originais com técnica mista, em que flores misturam-se às partes do aparelho reprodutor feminino, de forma delicada. Ela explica que o termo “sagrado feminino” tem origem nas civilizações tribais e que revela instinto, observação da natureza, intuição.
“Algumas tradições indígenas procuram preservar esta conexão natural. Qual a origem de si mesmo? Qual a origem do universo? A fêmea tem o poder de criar, de conceber outra vida. Assim, por muito tempo a mulher foi idealizada como Deusa. A natureza é primordialmente feminina. O Sagrado Feminino é parte fundamental do Xamanismo e a partir dele é que foram criando-se rituais e doutrinas de culto ao Feminino Sagrado. No entanto, o Sagrado Feminino vai além do ser ‘mulher’. É o próprio princípio criador do universo, e da natureza, que abrange também o ser homem. Todo macho nasceu de uma fêmea”, teoriza.
A produção da série reflete o momento que ela está vivenciando: de descobertas sobre o seu próprio sagrado – o que ela revela ter deixado de lado nos últimos anos. Ela defende que toda mulher precisa se autoconhecer e entender o seu corpo e critica que a pressa e o estresse da vida cotidiana acabem muitas vezes “robotizando” as mulheres e fazendo-as esquecer do funcionamento natural dos seus corpos.
“A mulher das antigas civilizações era considerada bruxa. Ela sabia da influência das fases da lua no seu corpo e sabia que era possível obter a cura pela natureza. Toda mulher é bruxa e precisa voltar a compreender essa sabedoria sagrada. Escolhi o útero porque ele representa muita coisa para quem é mulher, representa o florescimento do novo, um ciclo, a morte e o nascimento, a origem do universo. Este aparelho reprodutor carrega um misto de emoções que somente as mulheres mesmo podem compreender, e que para mim é sagrado. Devemos nos conectar melhor a ele e compreender o funcionamento dele em nosso corpo”, diz Moara, que assim como Layse teve seu início nas artes visuais ligado à moda.
Da customização de roupas de brechó, seguiu para o desenho. Foi aluna da ilustradora Catarina Gushiken, em São Paulo, e hoje trabalha com orientação da artista Carolina Paz, também na capital paulista. Nessa trajetória, além do feminino, a herança indígena de povos nativos da América Latina esteve presente em seu trabalho plástico, que rendeu algumas exposições - a última foi numa ocupação artística, o “Ouvidor 63”, em São Paulo, onde também criou e realizou a 1ª Bienal do Ouvidor 63.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar