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Exposição analisa resposta social em propagandas

Santinhos de políticos que ganham bigodes feitos à caneta, frases escritas em cima de cartazes de candidatos, outdoors de propaganda eleitoral pichados, músicas de campanha que ganham paródias. É comum ver intervenções nos materiais de campanhas eleitorai

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Santinhos de políticos que ganham bigodes feitos à caneta, frases escritas em cima de cartazes de candidatos, outdoors de propaganda eleitoral pichados, músicas de campanha que ganham paródias. É comum ver intervenções nos materiais de campanhas eleitorais. Representam uma espécie de resposta inaudita aos que disputam um pleito. Ao andar pelas ruas do Recife e instigada por esse movimento – tão antigo quanto natural – a artista Ana Lira passou a pesquisar as reações de transeuntes e eleitores diante dessas peças publicitárias. Com uma câmera na mão, fotografou umas centenas de cartazes e passou a analisá-los. A pesquisa inicial, que seria para um filme, acabou desdobrando-se em um projeto pessoal que a artista apresenta em Belém a partir de amanhã, na exposição “Não Dito”, com curadoria de Pablo Lafuente e produção da Proa Cultural. A mostra, contemplada pelo Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015 – Espaços Norte/Nordeste, tem entrada franca.

“Tudo começou quando eu fazia parte de um coletivo audiovisual e pesquisamos sobre relações de poder em Recife, em 2010, 2011, quando lançamos um filme colaborativo para falar sobre a crise de representação. Íamos fazer o segundo, mas não foi finalizado e parti para o projeto “Voto!”. É uma pesquisa de análise crítica de imagem, que fiz andando durante horas pela cidade, mapeando esses cartazes para montar um acervo e depois revisar o que era somente um rasgo e o que era um rasgo e um escrito que insinuava uma manifestação. São cartazes e como intervenções urbanas superpotentes para leituras de sentimentos de frustração, revolta da população, e até, inconscientemente, análise de um cenário ruim e de descrença na política brasileira”, comenta a artista.

A exposição apresentará 16 peças de acrílico, medindo 2,40m x 1,60m e que passam ao visitante uma sensação de transparência e de sombra observadas. Também há seis impressos em formato de santinhos eleitorais, sete cartazes, uma lona e um projeto audiovisual, além de materiais coletados nas ruas de Belém como panfletos, cartas abertas, adesivos e cartilhas.

Ana Lira explica que o projeto ainda está em curso e se desenvolve a partir de um diálogo com o cenário urbano onde está sendo montado. Na capital paraense, a artista também percorreu algumas ruas do centro para saber como essa manifestação ocorre por aqui. Em uma das saídas fotográficas, Ana Lira conseguiu encontrar as pessoas que haviam realizado as intervenções e pôde conversar com os “autores”.

“Não é uma exposição pronta que chegamos e montamos e vamos para casa. Busco saber sobre a realidade do local. Percebi que grande parte das propagandas aqui são feitas com cartazes e faixas e ainda com pinturas em muros. Alguns desses materiais que recolhemos aqui estarão na mostra. Também vamos realizar grupos de conversas todos os sábados, até o final da exposição, com quem se interessa pelo tema e tenha trabalhos de intervenção urbana”, explica Ana Lira, informando que abaixo-assinados e cartas públicas também compõem o ambiente expositivo.

Política é tema frequente para artista

Filha de um dos oficiais de justiça que participaram do processo de investigação de PC Farias – empresário assassinado em 1996, em uma casa de praia no interior de Alagoas, e famoso por ter sido figura central do esquema que cassou o ex-presidente Fernando Collor de Mello – Ana Lira acostumou-se com a literatura política desde a adolescência e isso marcou as suas escolhas nas artes visuais.

Seus trabalhos têm como tema recorrente questões políticas e direitos sociais. Em 2015, ela participou das audiências do projeto Cais José Estelita – que gerou forte mobilização social na sua cidade natal.

“Sempre acreditei que viver é um ato político. E aí me interesso muito porque tenho acompanhado desde criança essas discussões, meus pais foram militantes, tive família perseguida, então é uma temática muito presente na minha vida. Meus projetos acabam tendo algum tipo de conexão com questões políticas, enquanto forma de se relacionar, mas nem sempre partidária. E uma das coisas que não esperava era que a situação no Brasil se tornasse o que se tornou. Quatro anos depois, vimos esse cenário, então a temática do trabalho acaba sendo bastante relevante para este momento”, comenta.

(Dominik Giusti/Diário do Pará)

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