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Mulheres unidas por informação

Nos últimos anos, Belém viu surgir coletivos que trazem uma característica em comum: foram criados por mulheres para realizar troca de conhecimento entre mulheres. Um movimento que ganha força e tem ajudado as mulheres a se unir e assumir seu protagonismo

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Nos últimos anos, Belém viu surgir coletivos que trazem uma característica em comum: foram criados por mulheres para realizar troca de conhecimento entre mulheres. Um movimento que ganha força e tem ajudado as mulheres a se unir e assumir seu protagonismo, em questões como, por exemplo, como encarar a maternidade.

“Compartilhar e trocar informações, esse sempre foi o nosso propósito. O que nós promovemos é um espaço para o diálogo entre elas. Acredito que sempre houve essa demanda de mulheres em busca de informações, mas elas estavam separadas e com o grupo têm a oportunidade de encontrar umas às outras e compartilhar isso”, diz Thayssa Rocha, uma das coordenadoras do “Ishtar”, atualmente liderado por cinco mulheres que realizam reuniões quinzenais, abertas a quem quiser participar, para trocar informações relacionadas à gravidez, parto e cuidados com bebês .

O grupo é completamente gratuito e oferece reuniões aos sábados para discutir todos os temas que envolvem a gestação e a chegada de um bebê, fornecendo dados para que as famílias possam fazer suas escolhas informadas “e não embasadas em mitos e crendices”, destaca Thayssa.

Entre os temas mais abordados pelo grupo, está o parto humanizado. “Acredito que o grupo foi pioneiro em trazer o tema para as mulheres debaterem. Interesse, acho que sempre teve, só não tinha espaço. É mais interessante para os médicos ter esse parto controlado, com hora marcada, e que as mulheres tenham medo do parto natural”, aponta ela, que se inspirou em um grupo que frequentava em Recife para lançar a proposta em Belém.

Gabriela Sobral e Luiza Chedieck trouxeram para Belém o “Leia Mulheres”, e têm promovido encontros mensais (Foto: Divulgação)

Um clube de leitura diferente

Foi inspirado também em uma proposta surgida em outra cidade que surgiu em Belém um novo espaço para debate entre mulheres, o Leia Mulheres Belém, organizado pelas jornalistas Gabriela Sobral e Luiza Chedieck para incentivar as pessoas a lerem autoras mulheres. A ideia surgiu em 2014, quando a escritora britânica Joanna Walsh lançou uma espécie de campanha, #LeiaMulheres2014, com essa proposta e um grupo de mulheres de São Paulo trouxe a iniciativa para o Brasil. Hoje, cerca de 30 cidades participam do movimento.

Gabriela conta que a partir do primeiro contato com o projeto, começou a olhar para as próprias estantes e fazer essa crítica. Afinal, quantas obras de escritoras ela tinha comprado, em comparação a de escritores? “A gente passou a se perguntar qual espaço queria ter no mercado se nós mesmas não consumimos a literatura feita por mulheres?”, diz a jornalista.

A intenção não era criar um grupo de estudo ou algo acadêmico, mas simplesmente gerar trocas pela experiência da leitura. Os encontros realizados mensalmente, ela garante, têm conseguido colaborar para mudanças positivas nesse cenário. “Posso até ser suspeita, mas falo com seriedade que você desperta, sim, um mercado editorial a partir do ‘Leia Mulheres’. Cada encontro você se propõe a ler uma obra diferente, e desde quem vai com frequência até quem pensa em vir pela primeira vez, parte para uma livraria. A gente também vê trocas, uma pessoa compra e empresta. Lembro um encontro sobre a poetisa polonesa Wislawa Szymborska (vencedora do Nobel de literatura em 1996), percebi que todo mundo praticamente tinha comprado, então ela vendeu 15 edições a mais do que ficaria ali na prateleira. Outra questão é a troca e discussões na própria conversa sobre o livro, sobre a autora, sua linguagem, até mesmo títulos feministas que acabam trazendo outros debates de nosso interesse”, destaca Gabriela.

Comunicadoras analisam espaço feminino

Falar sobre o mercado de trabalho de comunicação abordando questões como machismo, misoginia e outras graves situações vividas pelas mulheres dessa área. Foi assim que nasceu o grupo Icamiabas, como um grupo no Facebook. “A gente compartilhava textos, debates, reportagens que abordavam questões de gênero e comunicação, não só machismo especificamente”, explica a jornalista Kellen Cabral. Nesse processo, o grupo foi amadurecendo enquanto coletivo feminista e entendeu que podia construir ações, encontros onde pudessem contribuir com debates para a formação de jovens comunicadores.

Assim também passou a englobar outras áreas ligadas à comunicação, como o marketing, publicidade e design e a suscitar o pensamento de novas fontes para os textos jornalísticos.

O grupo realiza encontros mensais, sempre trazendo um tema diferente. Entre eles, um debate sobre a Lei “Maria da Penha” e como ela também pode ser aplicada em casos de assédio moral no trabalho. “As pessoas precisam entender que machismo é um mal real, que mata todos os dias, que faz com que recebamos menos que os homens mesmo trabalhando tanto quanto ou mais. Faz com que seja perpetuada a jornada tripla e até quádrupla, porque impõe que é obrigação delas cuidar da casa, dos filhos”, destaca.

No grupo que há na rede social, o coletivo evita a participação de homens. “Até por uma questão de liberdade, de travar alguns debates, só aceitamos mulheres”, pontua Kellen. Mas os encontros são abertos e, segundo ela, fundamentais para a troca entre as mulheres que participam. O próximo, previsto para ocorrer até o início do próximo mês, provavelmente terá como tema o feminicídio, por conta da chacina em Campinas - quando um homem matou a ex-mulher, o próprio filho e vários parentes dela -, e da carta do assassino culpando o próprio feminismo e as leis de proteção à mulher pelo crime que cometeu. “A ideia é sempre levar conhecimento e aprendizado”, diz Kellen.

(Lais Azevedo/Diário do Pará)

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