Avaliado como um sucesso do 24º Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade, em São Paulo, o curta-metragem “Shala”, do paraense João Inácio, finalmente faz sua pré-estreia em Belém, amanhã, às 19h, no Cine Líbero Luxardo. A obra destacou-se pela diversidade de temas que se encontram e trazem inquietação ao público. “As pessoas perguntaram muito sobre o filme, talvez porque todos os outros exibidos com ele durante essa sessão do festival falavam do poder do amor, como o amor é verdade ou de como você vai encontrar solução na vida em diferentes situações através do amor. O ‘Shala’ era o único que falava o contrário, falava da ausência de amor e como essa ausência é destruidora”, aponta o diretor do filme.
O curta-metragem conta a história de Pedro, um menino que vive em um orfanato em Belém e entre outros preconceitos, sofre com o cruel desinteresse das pessoas em adotá-lo, porque ele não é mais um bebê. O garoto precisa criar situações para chamar atenção de possíveis pais adotivos e, paralelo a essa busca, passa a cultivar uma amizade profunda com seu único brinquedo: a boneca Shala. “O filme encoraja cada espectador a refletir sobre seus próprios pensamentos e noções pré-concebidas e outras expectativas e situações sociais, de forma criativa e inteligente”, pontua João Inácio.
O próprio Festival MixBrasil costuma fazer uma avaliação da repercussão dos filmes em exibição e destacou o “muito bom feedback com o público” de “Shala”. Uma boa mostra disso ocorreu durante a última sessão do filme na programação do festival, no Centro Cultural de São Paulo, quando houve debate com diretores dos quatro filmes exibidos na ocasião e alguns atores. “Eles queriam saber de onde veio o ator, de onde veio a história, se o menino existe, como acontece a questão da adoção tardia, a questão da institucionalização, como as crianças são praticamente oferecidas como produto dentro das próprias instituições. Foi um debate muito acalorado, senti as pessoas muito motivadas a perguntar”, comenta João Inácio.
Outro fato que parece ter despertado o interesse do público foi o fato de “Shala” ter origem na Amazônia. “Existe também essa curiosidade das pessoas de ver o que acontece aqui, como estamos contando nossas histórias, apesar de eu achar que o filme não tem marcação regional. Elas podem achar que foi filmado em qualquer lugar”, aponta. E para João Inácio, essa foi uma escolha acertada. “Foi uma aposta minha Eu optei que ela (história) pudesse ser contada em qualquer lugar onde fosse exibido”, diz ele.
Ainda surpreso com a repercussão do filme na sua mostra de estreia, ele aponta a felicidade de tê-lo exibido em Belém. Além de ser um compromisso já estabelecido com os atores, as crianças, João Inácio considera um dever cívico trazer “Shala” ao público paraense. “Ele existe da maneira como é porque foi filmado aqui. Teve patrocínio de pessoas daqui, a Yamada, o Banco da Amazônia. E tem a questão de trazer para exibir no Líbero, uma sala que a Ancine considera uma das 10 mais importantes do cinema brasileiro, com programação contínua, só exibe cinema de arte, e especialmente, porque tem um projetor digital”, aponta o diretor.
FILME SERÁ EXIBIDO EM FESTIVAL INTERNACIONAL EM SÃO FRANCISO
Além da boa avaliação recebida pelo público em seu festival de estreia, “Shala” ganhou a partir desse sucesso um grato elogio. Após acompanhar um laboratório com Des Buford, diretora de exibição e programação do “San Francisco International LGBTQ Film Festival” – mais antigo festival dedicado à diversidade de gênero do mundo –, João Inácio decidiu contatá-la por e-mail para solicitar isenção do pagamento para inscrição do curta-metragem para exibição do festival internacional para o qual ela trabalha. “Não cheguei a conhecê-la, apenas vi a palestra e mandei um e-mail semanas atrás. Falei do filme, que queria participar do festival deles. Ela me retornou dizendo que teria o maior prazer de dar isenção e que foi muito comentado sobre ele nos bastidores, apesar de ela ser jurada dos longas. Isso me deu um gás enorme”, comemora o diretor.
João Inácio trabalha há 18 anos na produção e exibição de filmes. Produziu os paraenses “Açaí com Jabá”, “A Canção Perdida de Waldemar Henrique”, “Eleanor” e o DOCTV “Camisa de Onze Varas”. Foi também curador da Mostra Curta Pará Cine Brasil em Belém. Desenvolveu a distribuição alternativa de filmes no Pará e a inclusão da linguagem cinematográfica nos currículos escolares públicos. “Shala” marca sua estreia na direção e o roteiro foi vencedor do concurso de projetos do Ministério da Cultura (MinC) para curta-metragem.
VEJA
Pré-estreia do filme "Shala", de João Inácio
Quando: Terça-feira (24), às 19h
Onde: Cine Líbero Luxardo (avenida Gentil Bitterncourt, 650, Nazaré - Belém)
Quanto: Gratuito
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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