O corpo como suporte artístico é um potencial discurso para questões atuais sobre lutas por direitos e reconhecimentos sociais. Entre elas, a questão de gênero. No trabalho do performer paraense Wellington Romário, a Byxa do Mato, o corpo se movimenta e desliza para o encontro com o outro. Esse corpo fluido se traveste e se transfigura para propor uma discussão, muito pertinente na arte contemporânea.
Suas performances, intervenções em fotografias, vestuários para protestos, fotos de Facebook, surgem das experiências cotidianas, seja para performar questionando a heteronomartividade ou para abordar a colonização da Amazônia – como na obra em que aparece segurando um facão, que representa uma homenagem à Cabanagem.
“Às vezes eu fico com o corpo como registro e ação de coisas, mas bem como uma frase que ouvi do (artista paraense) Arthur Leandro: existe uma diferença entre pintar o corpo para a guerra e para a festa. Acho que trabalho nisso, que minha vida está nisso”, diz o artista, explicando que tais leituras e vivências surgiram quando concluiu o curso de Artes Visuais na UFPA.
“Esse ‘deslizamento’ veio como uma urgência, uma estratégia para imaginar saídas, contornos, lugares para partir, chegar, permanecer, que seja eterno enquanto dure. Acho que está mais na vida do que na arte-vida. Digo isso porque me interessa borrar, deslizar pelos lugares da vida do que nesse outro lugar cristalizado às vezes, sem mistério”, teoriza.
O corpo, enquanto suporte, tem marcas, histórias, uma carga, um discurso, “para revidar as mexidas; de ouvir ‘ei, viado’, ‘égua do cabelo’, ‘que roupa ridícula’”, diz Wellington. “Essas coisas, sabe, me fazem sempre querer mexer com as pessoas também, fazer com que elas fiquem com a palavra na garganta, porque eu vou de frente”.
Mas se o artista busca esse lugar de fala, capaz de representar debates, expor preconceitos, fazer pensar, ele mantém o olho crítico para os movimentos de um mercado pronto para se apropriar desse discurso e transformá-lo em um novo produto. “Percebo que tem uma tendência hoje ao fetiche de tudo que não é heteronormativo, do que está nas periferias, com o importantíssimo boom das classes invisibilizadas. Muitos espaços começaram a querer a presença de determinadas pessoas, isso pelo cansaço de discursos que os espaços de arte vinham tendo. E aí se abriu precedente para quem sempre quis estar em determinados lugares hegemônicos, estarem, só que com suas bandeiras. Ao meu ver, essa abertura é para manter público, manter consumidores”, aponta.
(Dominik Giusti)
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